A mulher e o CA de mama: caminho de pedras

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Câncer, a palavra maldita. A palavra que não deve ser pronunciada – se pronunciada, pode atrair a doença para perto de si. Ainda que contando com muitos avanços em termos de diagnóstico e tratamento, aparelhos de última geração e desenvolvimento de técnicas menos invasivas e com altos índices de cura, o estigma ao redor desta doença – câncer segue presente. Este estigma se encontra na maneira como as pessoas em geral se dirigem ou se referem a quem tem câncer – “coitada, tem câncer!”; o olhar de pesar repousado sobre a cabeça sem os cabelos perdidos no tratamento, como que a contemplar alguém à espera de sua execução. É a doença fortemente ligada ao medo da dor, do sofrimento e à morte.

Dentre os inúmeros tipos de câncer, o câncer de mama é hoje a neoplasia maligna que mais atinge as mulheres, tanto no Brasil como no restante do mundo, atrás apenas do câncer de pele não melanoma. É possível sua ocorrência também no sexo masculino, mas com uma incidência de apenas 1% do total de casos. Seu aparecimento é raro antes dos 35 anos de idade, aumentando as chances grandemente após os 50 anos. A estimativa para 2016 pelo INCA (Instituto Nacional do Câncer) é de 57.960 casos, indicando em 2013, 181 óbitos entre homens e 14.206 entre mulheres.

Pensando no impacto total produzido na mulher com CA de mama, percorreremos o caminho e as pedras encontradas, desde a suposição da doença até o desfecho desta.

A realização do autoexame, ou uma consulta médica de rotina, em que é identificado um nódulo no seio, anterior mesmo a qualquer exame de imagem ou confirmação do diagnóstico temido, suscita na mulher sentimentos como medo, angústia e ansiedade. O medo justifica-se pela possibilidade de aquele nódulo percebido possa ser de fato, um tumor maligno – aquele que traz consigo a dor e o sofrimento. Ainda que consiga refletir sobre as demais possibilidades (de ser apenas um cisto ou um tumor não maligno), a ansiedade se faz presente e permeia os dias até a chegada do diagnóstico, trazendo junto à angústia da espera e do não saber.

Com o resultado, ou vem o alívio por não ser um câncer, ou advém o pânico por estar com uma doença séria e, segundo seu estigma, compatível com a aproximação da morte. A reação inicial é de choque frente à notícia com a consequente negação de que aquilo possa estar acontecendo consigo. Esta fase é muito difícil de ser enfrentada, já que colocam em cheque muitos valores, perspectivas de vida, projetos futuros, trazendo uma incerteza em relação a muitos aspectos da vida da mulher. Neste momento é muito comum que a mulher e os familiares busquem a opinião de mais de um profissional médico, na esperança de que o diagnóstico possa ter sido precipitado e os exames mal interpretados.

Após o impacto e negação iniciais – tão importante para que a mulher possa compreender o que está acontecendo consigo e ter um tempo de assimilação para restabelecer forças para o período subsequente, não raro pode surgir uma fase de raiva. Importante a todos que cercam a paciente, tanto equipe de saúde quanto os familiares mais próximos, é que permitam que esta raiva seja externada e compreendam que ela não é dirigida a ninguém em específico, mas, antes, é uma reação normal frente ao futuro desejado e planejado que parece estar sendo retirado dela. Há o medo de morrer em breve, de sentir dor, a preocupação com o cabelo que cairá com a quimioterapia e com os demais efeitos secundários, a possível retirada da mama, o talvez não acompanhar o crescimento dos filhos, afastar-se do trabalho, entre tantas outras possibilidades. Mais do que tudo, nesta fase, é necessário paciência e compreensão por parte da equipe e de familiares.

Iniciado o tratamento, é possível que a mulher desenvolva sentimentos de ansiedade e/ou depressão, motivados pelos receios tidos desde o início somados com os efeitos do próprio tratamento. A forma de enfrentamento depende não apenas do tipo da doença e de sua gravidade, como da forma como a mulher maneja situações de estresse, sua personalidade, maior ou menor capacidade de resiliência, forma como se relaciona com a doença em si e seu entorno.

O tratamento define-se a partir do tipo de CA e do estadiamento (fase em que a doença se encontra), podendo exigir quimioterapia, hormonioterapia, cirurgia e radioterapia. A quimioterapia pode impor uma série de restrições à vida da mulher, que vão desde as horas necessárias para seu recebimento em regime ambulatorial, o mal estar como náusea e vômitos, o cansaço, a baixa imunidade e a alopecia. Este último causa grande impacto na autoestima da mulher, não só pela perda do cabelo em si, mas porque a mulher sente que junto perde a vaidade e parte de sua feminilidade/atratividade para o sexo oposto, trazendo para si o grande estigma – aquele visível a olho nu – do câncer. A falta de apoio e de acolhimento neste momento podem ser um acelerador no estabelecimento de um quadro depressivo, que pode se acentuar com dificuldades conjugais e de dificuldade de adesão e manutenção de tratamento.

Quando há necessidade de procedimento cirúrgico, dependendo da agressividade da intervenção, ganham forças sentimentos como medo e comprometimento da autoestima, com pontos importantes a serem trabalhados com a mulher pela equipe de saúde e, incluir, em vários momentos, o cônjuge nas orientações e discussões. A preparação para a cirurgia, recuperação e o pós são essenciais para que a mulher possa vislumbrar outras possibilidades além das restrições das quais se percebe cem por cento refém. Estudos demonstram que mulheres que passam por mastectomia apresentam sentimentos negativos mais intensos e de maior duração do que mulheres em que há preservação da mama¹. Quanto mais conservadora a cirurgia, menores serão os danos psicológicos causados. Não podemos esquecer a ambiguidade de sentimentos que a intervenção cirúrgica traz: ao mesmo tempo em que possibilita a cura, traz a conscientização a nível cognitivo e emocional da situação em si, iniciando-se o processo de luto.

O luto acontece sempre que um vínculo afetivo é rompido. Ele marca uma perda e se dá como um espaço de trabalho para elaboração e aceitação da perda e início de um novo momento, agora sem a presença de alguém ou algo que se perdeu. A mulher com CA de mama passa por vários momentos de luto, entre eles o luto pela possibilidade de ter um CA; o momento do diagnóstico; o tratamento cirúrgico e demais limitações impostas pelos demais tratamentos necessários; da perda da imagem corporal e da autoestima. Na sequencia, é preciso refazer a autoestima, fomentar a manutenção da fé e da esperança, manter cuidados para o não desenvolvimento de comorbidades como depressão ou sua detecção precoce com imediata intervenção.

Neste sentido, nos casos em que a mulher tem uma relação afetiva sólida, na qual, recebe apoio do companheiro/cônjuge e que fica claro para ambos que há possibilidade de continuidade da relação apesar de uma mastectomia – e que há vida após o câncer, há menor possibilidade do parceiro dessexualizar a mulher e menor prejuízo na relação, e também para a mulher. Ao estarem certos de que a sexualidade é algo possível entre eles e que há amor, respeito, cumplicidade e companheirismo entre ambos, fazem com que este percurso seja menos doloroso e angustiante.

O papel do psicólogo se faz importante em todas as fases, desde a suspeita, passando pelo momento crucial do diagnóstico e tratamento à preparação para a vida pós-câncer. Cada fase tem sua especificidade e o psicólogo deve atuar auxiliando na compreensão e elaboração de cada momento, adequação no manejo de sentimentos e ideias sobre o que passa consigo mesma, orientar pacientes e familiares a todo o momento, incentivar a busca de informações e esclarecimento de dúvidas, focando no bem-estar, na qualidade de vida e na resolução de conflitos. Grupos de pacientes e a biblioterapia são grandes aliados no trabalho com mulheres com CA de mama e o psicólogo pode auxiliar indicando ou fornecendo folhetos, revistas e endereços de sites confiáveis sobre o assunto, para maior conhecimento de sua situação, leitura de relatos de mulheres que superaram a doença, nunca perdendo de vista que a equipe médica de referência é o ponto de partida para esclarecimento e informações.

[1] Referência: SCHAIN, WS; D’ANGELO, TM; DUNN, ME; LICHTER, AS; PIERCE, LJ. Mastectomy versus conservative surgery and radiation therapy: psychosocial consequencees. Cancer. 1994; 73(4): 1221-8.

Namastê!

Adriana Soczek Sampaio

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