As ordens do Amor: Pertencimento e Hierarquia

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“O amor preenche o que a ordem abarca. O amor é a água, a ordem é o jarro. A ordem reúne, o amor flui. Ordem e amor atuam unidos. Como uma canção obedece às harmonias, o amor obedece à ordem. E como é difícil para o ouvido acostumar-se às dissonâncias, mesmo que sejam explicadas, é difícil para a alma acostumar-se ao amor sem ordem. Alguns tratam essa ordem como se ela fosse uma opinião que eles podem ter ou mudar à vontade. Contudo, ela nos é preestabelecida. Ela atua, mesmo que não a entendamos. Não é inventada, mas descoberta. Nós a depreendemos, como ao sentido e à alma, por seus efeitos”. (Bert Hellinger na obra No Centro Sentimos Leveza).

Todos nós fazemos partes de sistemas. Um sistema é um conjunto de elementos que interagem entre si tornando-se um “todo integrado”. Todos nós possuímos um sistema biológico e psíquico. Partindo do sistema biológico podemos observar, por exemplo, infinitos sistemas com funções bem definidas e que integrados formam o sistema vital, que é o “campo” que nos mantêm vivos.

No sistema digestório, por exemplo, há presença de diversos órgãos, células e tecidos que se integram e interagem para que ocorra um bom funcionamento da digestão, que é a função primordial deste sistema. Quando uma parte desta organização é excluída as consequências desta exclusão ferem o sistema como um todo pois o coloca em desequilíbrio. Imaginem um sistema digestório sem parte do fígado ou parte do estômago: todo o sistema entraria em colapso porque a exclusão de uma parte do “todo” o colocaria em risco não apenas para o sistema digestório como também para os demais sistemas que se retroalimentam e se organizam através dele.

Se formos pensar e observar tudo no universo é organizado em sistemas: sistema solar, sistema político, ecossistema, sistema celular, sistemas da informação, sistema educacional, sistema familiar, entre tantos outros. Quando os componentes de um sistema interagem entre si geram um núcleo de força que é maior do que a soma destes componentes se eles forem vistos de forma independente. Este núcleo de força pode também ser chamado de alma ou campo. Cada sistema tem seu campo de força próprio, ou seja, se citarmos nosso núcleo familiar, que também pode ser chamado de “constelação familiar” por exemplo, podemos observar um campo próprio de força onde atuam nesta consciência todos os membros do sistema familiar, incluindo os pais, filhos, netos, bisnetos, tataranetos, pessoas que foram excluídas da família, membros que não foram honrados ou foram esquecidos, agressores e vítimas, crianças dadas, abortadas ou esquecidas, antigos parceiros abandonados, entre tantos outros. Como já expliquei anteriormente, o sistema não suporta a exclusão, portanto, quando um dos membros familiares não é visto pelo sistema devido a qualquer que seja o motivo aparente, ele entra em desequilíbrio. O que ocorre na sequência é uma série de sintomas observados nas gerações seguintes como um reflexo natural das exclusões anteriores. Ou seja, muitas vezes um sintoma está intimamente ligado a alguém do sistema familiar que foi excluído por alguma razão. Neste sentido, o sintoma, até então julgado como “ruim”. “desastroso”, “terrível” surge no sistema familiar em algum dos membros ou em vários com a função de incluir aquilo que foi rejeitado. No fim das contas, o sintoma foi uma benção para aquele sistema, pois através dele a parte faltante teve a oportunidade de ser novamente integrada a alma familiar e então foi possível se estabelecer uma harmonia neste sistema.

Bert Hellinger, o filósofo e terapeuta que descobriu as Constelações Familiares, afirma que o pertencimento é uma ordem universal a qual todos nós somos submetidos independente de estarmos em concordância com este fato ou não. Ou seja, a lei do pertencimento está enraizado em nosso DNA e nós, a partir da concepção, passamos a pertencer ao nosso clã familiar e passamos a ser influenciados por tudo aquilo que diz respeito a ele.

Um sistema, além de componentes que interagem sobre si também é regido por uma ordem hierárquica. Para que a ordem seja estabelecida, os primeiros têm precedência e vêm antes dos que vieram depois. Problemas ocorrem, por exemplo, quando um filho se vê e se comporta como se fosse superior ao seu pai, ou o funcionário que veio depois e quer ensinar o chefe a liderar a equipe ferindo a hierarquia da organização ou o aluno que não respeita o professor em sala de aula, todos estes são exemplos clássicos de que a hierarquia não está sendo respeitada e que o sistema caminha para um risco.

O casamento veio antes dos filhos, ou seja, o casamento tem precedência à maternidade e paternidade. Esta é uma informação bastante pontual para casais com filhos pequenos que perderam o “brilho nos olhos” pelo parceiro: primeiro o casamento, depois os filhos. Os filhos só foram gerados a partir e em função do amor que uniu o casal. Assim os filhos ficam bem e liberados para suas vidas. Quando o peso, o amor, a atenção é descarregada primeiro nos filhos e depois no parceiro a criança fica sob pressão, sente-se “grande”, porém presa no pai ou na mãe de forma simbiótica e muitas vezes isso gera um sentimento de impotência ou falta de preparo para futuro, para a vida desta criança.

Hoje existem muitos casais que entram numa nova relação e já possuem filhos de outros relacionamentos anteriores. Estes filhos que foram gerados anteriormente têm precedência ao novo parceiro do pai ou da mãe. Muitas vezes ocorrem turbulências porque novos parceiros entendem-se no direito de impedir que o pai da criança tenha o contato com o filho ou exigem uma atenção como se fossem únicos na vida dele. Isso gera disfunção no sistema familiar de forma que o enfraquece e não é raro ver o relacionamento onde a ordem hierárquica não foi respeitada enfraquecer-se com o passar do tempo ou mesmo não perdurar.

Irmãos também são conduzidos através de uma ordem. O primeiro tem precedência ao segundo e assim por diante. Os filhos do primeiro casamento têm precedência aos filhos do segundo casamento. Filhos abortados espontaneamente ou não, mortos ou dados também pertencem a alma da família e possuem o seu próprio lugar na hierarquia entre irmãos. Muitas vezes a sensação de não encontrar o “seu lugar no mundo” pode estar diretamente relacionado ao fato de que algum filho anterior não tenha sido visto ou algum aborto não tenha sido reconhecido e identificado pela mãe o que gera um desequilíbrio hierárquico entre os irmãos.

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Pode-se citar, por exemplo, um filho que acreditava ser a terceira criança de sua mãe e apresentava diversos sintomas como apatia, falta de vontade de viver e fracasso em diversas áreas e através de uma constelação foi possível observar que não se tratava da terceira criança e sim da quarta, pois entre os dois irmãos vivos ocorreu um aborto espontâneo que não tinha sido identificado pela mãe. Desta forma, todos podem ir para o seu lugar no mundo e os sintomas até então inexplicáveis podem então se retirar. Constelações Familiares fazem parte de um método que visa harmonizar sintomas que estão identificados com aquilo que fere as ordens do amor. O amor é belo mas segue uma ordem. O amor preenche o que a ordem abarca. Ordem e amor atuam unidos. Prosperidade, respeito, união, equilíbrio, saúde são possíveis desde que o amor possa fluir e todos que pertencem possam ser honrados em nossos corações.

Vanessa Granero

Psicóloga Clínica – CRPPR -20113, especialista em terapia familiar e de casal.

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