Boa noite! Durma bem, meu filho…

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A noite deixa de ser um período de repouso para ser a continuidade do dia com o pensamento em vigília e um “boa noite, filho”, numa frase habitual dos pais.

Ninguém discute que dormir é importante na vida. Mas, pouco nos lembramos de quanto é essencial à vida… Dormir, em termos práticos, é parar de pensar. O pensamento acontece quando estamos em vigília, acordados. As ondas cerebrais se alternam entre alerta e repouso, distribuindo-se em cinco ritmos diferentes: beta, alpha, theta, delta e gama. (1) Para dormir, é preciso cessar o pensamento. Parece simples, mas a aceleração e a inconstância do pensamento, que a maioria de nós se habituou, no decorrer do dia, não permitem a tranquilidade necessária para dormirmos bem.

Quantos adultos queixam-se de insônia! Outros dormem, e, ao perder o sono, despertam no meio da noite. No momento em que “perdemos o sono”, na verdade, nós “achamos o pensamento”. O ato de pensar, que praticamos durante o dia, volta a ocorrer à noite. Lembro aqui de uma frase melódica de “Felicidade”, composição musical de Lupicínio Rodrigues: “O pensamento parece uma coisa à toa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar”… (2)

Quando o poeta faz menção ao pensamento, refere-se às lembranças do local onde morou. O pensamento, conforme a canção, parece uma coisa simples, mas a força que ele possui permite que as pessoas se transportem do lugar onde estão – “a gente voa” – até o outro local presente na memória.

A insônia pode ser causada por lembranças de um passado, sejam alegres ou tristes, que trazem saudade ou sofrimento; a mente ativa pode, ainda, querer “voar” para aproximar ou retardar algo que acontecerá no futuro, por desejo ou medo; a insônia também se alimenta de uma situação que angustia e que está sendo vivida no presente, como problemas íntimos, familiares, profissionais, ou, da vida coletiva, que, geralmente necessitam de uma decisão. O que ocupa nossa atenção, com uma carga emocional forte, preenche as noites com o pensamento, roubando nosso sono.

A dificuldade de cessar o pensamento não acontece somente em adultos. Está cada vez mais presente em nossos jovens, devido à tecnologia – computador, videogame, celular, canais de televisão com programação contínua de 24 horas – que vem modificando o ritmo de sono e alterando, dramaticamente, o hábito de dormir de crianças e adolescentes. (3)

Pensar à noite impede o sono de qualidade, pois o cérebro e a mente continuam trabalhando. Um pensamento sem qualidade, confuso e desordenado, durante o dia, gera dificuldades nos momentos de repouso. Estamos, portanto, num círculo vicioso. Quem pensa de forma confusa durante o dia, sente dificuldade de dormir à noite, porque continua acelerado. Pensando à noite e usando dispositivos eletrônicos, com luz e som, reduzirá suas horas de sono e no próximo dia estará com o pensamento mais acelerado e inquieto.

Após dormir poucas horas à noite, ou, ter baixa qualidade de sono, a atenção, o convívio e as atitudes são bastante prejudicadas. No dia seguinte, o adulto tem tendência para um raciocínio lento e com menos paciência para ouvir explicações. A vontade de deixar para depois o que deveria ser feito é uma constante. A criança ou adolescente fica confuso e não consegue prestar atenção ao que as outras pessoas falam. A irritação e a agressividade são frequentes e as condutas de isolamento, preguiça e desejo de fazer somente as coisas consideradas fáceis, e, que não exigem muito esforço, são também observadas. Isso resulta na procrastinação de ações e decisões, e, nos comportamentos automáticos.

O pensamento acelerado é exercitado pela necessidade de reagir, velozmente, aos diferentes estímulos diários da comunicação e da informação à distância, principalmente, com o uso dos celulares nas diversas redes sociais. Assistir um programa na televisão, conversar com alguém pelo celular e ainda arriscar a passar de nível num game, com rapidez, e, tudo feito ao mesmo tempo, virou rotina de dia e de noite. O sono é reduzido em tempo e qualidade, e, está menos potente para despertar o melhor de cada jovem e de cada adulto, no dia seguinte.

O pensamento acelerado é desvinculado de ações conscientes e de controle pessoal, o que pode causar desde pequenos acidentes até maiores, motivados, por exemplo, pelo hábito de atravessar a rua falando ou ouvindo música no celular. O ato de aprender fica em segundo plano e poucos conseguem refletir sobre suas ações ou o conteúdo a ser aprendido, na escola ou na faculdade. O pensar, que deveria ser atento e consciente, se dispersa e se fragmenta, assumindo uma aceleração intensa e descontínua.

As informações raramente são revisadas e tudo é assimilado numa bagagem inchada por comentários, vídeos que viralizam, memes, conversas breves e postagens superficiais, até com agressões pessoais. Os critérios básicos do conhecimento não são assegurados em sua significação, relevância e validade. (4) A quantidade e a velocidade das informações se sobrepõem à qualidade do conhecimento e as reações superficiais substituem emoções profundas do ser humano. A vida acontece sem reflexão sobre a existência. Estar ausente no presente é um paradoxo que se expressa na sociedade mundial contemporânea.

Todo esse caos, organizado e estimulado, reflete-se no repouso à noite. Jovens dizem que, com tudo que se ocupam durante o dia, resta somente a noite e a madrugada para se divertirem. Estamos vivendo uma inversão: os comportamentos automáticos durante o dia, que beiram o tédio e geram ansiedade, graças ao pensamento acelerado e desvinculado da consciência, à noite, se alinham, deixam de ser tão automáticos, devido à atenção focada em interesses para divertimento. Porém o pensamento acelerado que já se transformou em hábito mental, durante o dia, retorna e pula de galho em galho, entre os dispositivos eletrônicos no tempo que seria para repouso. Poucos jovens conseguem ler um livro, ouvir música inteira, ou, assistir um filme até o final. Tudo é rápido demais ou interrompido.

Estamos necessitando de uma reeducação para o bom sono, assim como existe a reeducação alimentar, que melhora a nossa qualidade de vida. Talvez no futuro surja um novo profissional: personal sleep, pois a tendência é de nos perdermos neste processo, tão natural, que era vivenciado sem problemas, desde tempos incontáveis da humanidade. Os pais precisam repensar, junto aos mais jovens, a prática de dormir.

O hábito dos pais em relação ao processo que, de tão corriqueiro não desperta atenção, em algumas vezes se resume a uma frase automática, ou, a uma intenção pálida, acompanhada, ou não, por um beijo: “boa noite, durma bem, meu filho/minha filha”. Em outras famílias, nem essa cordialidade acontece. São poucos pais que, à noite, têm um diálogo com os filhos sobre como foi o dia, como se sentiram, buscando perceber o grau de ansiedade das crianças e dos adolescentes. Muitas portas fechadas dentro de casa e os habitantes de cada quarto criam mundos alimentados por seus pensamentos, com o uso, quase sempre, de dispositivos eletrônicos.

Ansiedade deixa ausente no presente

O psiquiatra e psicoterapeuta Augusto Cury, autor dos livros “Ansiedade; como enfrentar o mal do século para filhos e alunos” e “Ansiedade – como enfrentar o mal do século – a síndrome do pensamento acelerado”, numa entrevista de 2014, descreve o que é o pensamento acelerado e o situa como fator de ansiedade na sociedade contemporânea. (5) Ele foi um dos primeiros estudiosos e autores brasileiros sobre o tema, e, até hoje, faz palestras sobre esse grave problema, no Brasil e no exterior.

Uma meditação, orientada por Louise Hay, em canal do Youtube, para obtenção de um sono de qualidade (6), práticas coletivas de Yoga, em locais públicos (7) e outras sabedorias ancestrais como Jin Shin Jyutsu (8) exemplificam medidas, a serem usadas em qualquer idade, para solução da crise em que vivemos. Tais práticas precisam chegar às famílias e à sociedade em geral, no âmbito individual e coletivo, visando a resgatar o bom sono, desacelerando o pensamento por meio da conquista da consciência ao momento presente e da harmonização de atitudes que nos desequilibram.

Família em harmonia é estar presente

Dentro da Antroposofia, criada por Rudolf Steiner, que desenvolveu a Pedagogia Waldorf, destacamos o trecho de uma entrevista com o médico Derblai Sebben que aponta algumas ideias às famílias sobre o sono das crianças: “o sono é uma questão biológica. Quem dorme é o corpo, o cérebro tem que ser orientado para dormir. Como induzir o cérebro ao sono? As palavras-chave são escuro e silêncio. Esta dupla dispara a liberação da melatonina. Outras dicas práticas são ter um horário fixo e criar um ambiente apropriado para o sono. Fazer um ritual é uma boa ideia: pode acender uma velinha, deixar uma luz de abajur suave, contar uma história, fazer uma massagem – não massagem especializada, apenas um toque agradável. O importante do ritual é sua repetição. E ele deve ser bem simples. Quanto mais simples para a mãe, melhor para a criança.” (9)

Pode-se afirmar que para dormir com qualidade é necessário que o dia tenha sido bem vivido, pois se foi sentido ansiedade, insegurança ou medo, é bem provável que haja dificuldade de manter o sono e de se chegar ao sono profundo, chamado REM (MRO = movimento rápido dos olhos, na tradução do inglês), momento em que iniciamos a sonhar.

É esse tipo de sono que se relaciona diretamente com o aprendizado e com a consolidação da memória, quando liberado o hormônio do crescimento que tem a ver com o metabolismo do organismo. Uma baixa qualidade de sono pode gerar ainda obesidade, por deficiência no metabolismo, e também comprometer a estatura da criança e do adolescente. Ao ocorrer a aquisição de novos conhecimentos com a efetivação do aprendizado, aumenta a possibilidade de que, nas noites seguintes, ocorra o sono REM, juntamente com as demais fases do sono que completam o ciclo que garante o equilíbrio físico, químico e mental. (10)

Durante o sono profundo há uma conexão com os símbolos, pois são eles que povoam os sonhos e trazem nossas ideias e o que vivemos durante o dia de uma forma elaborada e pessoal. O que se encontra em todo o ser humano, e, ao mesmo tempo, o que é individualizado, é trazido para o consciente. Quando se dorme bem, à noite, o sentimento é de acordar refeito e pronto para um novo dia. Os relacionamentos humanos, a aprendizagem, a qualidade do pensamento e os estados emocionais, portanto, dependem de uma boa noite de sono com a nossa entrega ao estágio de repouso físico, emocional, mental e espiritual.

A educação envolve todas as áreas da vida, inclusive o repouso. O bom sono poderá ser uma conquista, se houver o processo de revisar as práticas, harmonizar as atitudes, aprimorar os hábitos, estando todos mais presentes e conscientes na família. Esse é um desafio essencial a ser enfrentado por todos nós.

 

Notas de Referência:

  1. http://estaremsi.com.br/conhecendo-suas-ondas-cerebrais-beta-alpha-theta-delta-e-gama/
  2. https://www.letras.mus.br/lupcinio-rodrigues/47152/
  3. https://www.youtube.com/watch?v=1-9Hvr3gdck
  4. http://aempreendedora.com.br/o-ovo-e-o-sonho-nutricao-pelo-conhecimento/
  5. http://epoca.globo.com/vida/noticia/2014/01/baugusto-curyb-nao-devemos-sofrer-por-antecipacao.html
  6. https://www.youtube.com/watch?v=HMIO68zdv4o&t=1949s
  7. https://www.youtube.com/watch?v=D1rVs0J0arA
  8. https://www.youtube.com/watch?v=Qa_QTImWNes
  9. http://www.antroposofy.com.br/forum/download/artigos/A%20crianca%20e%20o%20sono.pdf
  10. https://www.saudemelhor.com/quais-sao-fases-sono-que-acontece-cada-uma/
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Amora Rubra
Corina Ramos é educadora e acredita na educação no sentido amplo, além da escola, junto à cultura e sociedade, numa educação continuada. Professora universitária e consultora no meio escolar, organizações de terceiro setor e empresarial. Tem publicações na área de educação, tecnologia e currículo. É idealizadora de propostas de educação a distância, educação corporativa e educação continuada para professores e profissionais das mais variadas áreas. Participou da cocriação de muitos projetos educacionais, entre os quais: "Perspectivação", uma estratégia curricular de educação executiva empresarial no ISAE/FGV e "Observatório dos Adolescentes" nas escolas públicas e universidades estaduais. É microempreendedora individual, organizando publicações diversas na área da educação. Lançou recentemente, na rede Facebook, usando o codinome de Amora Rubra, o Método das Chaves, sistematizado por ela e aplicado para autoconhecimento e desenvolvimento de competências pessoais para melhor expressão pessoal.

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