Conto: Maria da Manta

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Uma chama uniforme e sinuosa crepitava num canto do quintal. Dentro da fogueira um bolão negro de cinzas liberava uma fumaça também negra e um odor de carne podre torrada. De pé, próxima à fogueira, estava postada uma mulher. Os olhos da mulher centelhavam o vazio e repetiam o vazio. Nada, jamais, poderia ser encontrado dentro daqueles olhos outra vez.

Um vento gelado levou algumas cinzas para bailar e esparramou o cheiro acre de corpo queimado. Era um cheiro vivo, tão vivo, que arranhou as narinas dela e lembrou o quanto tudo aconteceu rápido.

Era uma tarde de domingo, daquelas cheias de tédio e mocidade presos dentro do espírito. O filho insistia para irem até o riacho que ficava no fundo da propriedade. Ela não queria, pois sabia que ele encucaria de nadar. Relutou durante toda a manhã, deu desculpas, tentou distrair o menino, mas o abençoado era diligente e nada iria dissuadi-lo. Ela fez o filho jurar que não insistiria em nadar, fez ele jurar afirmando que Maria da Manta pega menino que invade as águas onde ela gosta de se banhar. O menino arregalou os olhos e ficou tecendo fios no pensamento, tentando enxergar uma Maria da Manta.

Quando chegaram ao riacho era fim de tarde, de tanto enrolarem, a tarde enrolou-se neles e enrolou o dia. O garoto corria solto cortando os matinhos, se enganchando nas pontas de arame soltas e tropeçando nas pedras. Corria e olhava para o riacho, desejando a água gostosa de se banhar, cristalina e macia. A mãe, que era uma sabichona fingindo desinteresse, via pelo canto dos olhos a ânsia do menino em precipitar-se nas águas com roupa e tudo. Não seria a primeira vez que ele faria isso.

– Henrique! – chamou a mãe severamente.

– Que é, mãe? – o menino atendeu contrariado batendo os pés no chão.

– É que não é assim que se responde a mãe! Já te ensinei. Como é? – ela disse, enquanto procurava no chão uma vara para ameaçar um corretivo.

– Desculpa, mãe! Desculpa! – com voz de arrependimento fingido – Sim, senhora?

Ela jogou no chão a vara fina que tinha encontrado, balançou a cabeça, sabendo que vida de mãe era aquilo mesmo.

– Vem! – disse com um aceno – Sai da beira. Eu te disse que Maria da Manta pega menino que teima e entra no rio dela. Ela adora esse lugar aí.

– Mas, mãe… Eu já banhei aqui muitas vezes. Eu lembro! – ele insistia à fim de convencer a vontade da mãe.

– Sim, meu filho, mas era outra época. Vamos caminhar por ali. Está cheio de jabuticabas. Está vendo o negrume no tronco das árvores? – apontando para um local distante de onde estavam.

Um arrepio frio lhe percorreu todo o caminho da espinha, fechou a blusa apertando-a entre os seios, olhou em volta e não viu sinal de vento, as folhas das copas das árvores sequer se moviam.

– Vem, Henrique!!! – chamou já sem paciência – Está esfriando. Vai escurecer logo!

Dentro dela, aquele tal instinto secreto feminino dizia: “Saia… saia… Apenas, saia, sem olhar para trás”. E ela exprimia seu medo gesticulando apressadamente para o filho vir mais para perto. Comando que ele fingia não compreender. De modo repentino e com um olhar malicioso, Henrique regurgitou uma pergunta:

– Por que, mãe? Por causa do papai?

– Sim. Sim, é por causa do seu pai! – disse a mulher caminhando em direção ao filho.

– Mas eu não sou ele mãe. – o menino choramingava, parado como se estivesse amarrado, mas sabendo que deveria correr.

Este momento fez Aprígia compreender que o filho não era mais aquele menininho bobo e sugestionável, a personalidade do filho era como a do pai: destemida. E este era o maior de todos os perigos. Quando o menino ficou ao alcance da mão, ela lhe pegou forte pelo ombro e apertou, puxando-o para si e machucando a carne do filho.

– Eu te disse que nós vamos pegar as jabuticabas e ir embora, antes que escureça. – ela se abaixou e olhou bem dentro dos olhos dele, com um olhar que fez o silêncio e o conformismo entrarem no menino – Foi Maria da Manta quem levou seu pai e ela me disse que quer te levar também! Você não entra nessa água mais! Já te falei! Vem!

Ela ia a passos rápidos, puxando Henrique. Olhou para onde o sol se punha, sussurrou algo sobre pegarem apenas algumas jabuticabas e seguiu obstinada. Algo realmente estava incomodando a mãe, ele sabia. A mãe não parava de buscar o sol no horizonte, enquanto movia as mãos freneticamente em busca das jabuticabas. O pai morreu há quase um ano, afogado naquele riacho, levado por uma tromba d’água diante dos olhares atormentados da esposa, do filho e de alguns amigos. O corpo jamais foi encontrado e Aprígia tornou-se estranha depois disso. Vivia cheia de comprimidos nas mãos e semblante perdido.

Ele não entendia aquele olhar que viu nos olhos da mãe. Não entendia. Foi deitar com aquele sentimento de estranheza dentro do coração. O sono agitado, o suor escorrendo pelos lençóis, o vento rufando em volta da casa. Um cachorro uivou penetrando em sua dormência, como uma faca pontiaguda adentrado a carne viva. Um feixe de luz entrava pela porta entreaberta. Olhou para o despertador na mesinha de estudos: 3h01min. O cachorro não uivava mais. Estava quente dentro do quarto, mas o vento rodopiando ao redor da casa indicava que era noite de ventania. Que luz seria aquela? A mãe estaria acordada a esta hora? Fazendo o quê? Abriu a porta devagar, tentando espiar alguma coisa. Colocou apenas metade do corpo para fora e viu a mãe parada, como se olhasse para uma foto, murmurando algo que ele não compreendia. Os olhos dela estavam fechados: sonâmbula. Quando o pai estava vivo, cuidava dela nestes momentos, mas agora era o papel dele.

Henrique chegou à mãe, tirando gentilmente a foto do pai das mãos dela e a conduziu até a cama, em silêncio, como o pai fazia. Ela cochichava e, entre as palavras, o menino entendeu: “Maria da Manta”, repetidas vezes. A mãe agora não tirava essa ideia da cabeça e ele nem mesmo sabia o que era. Assim que deitou a cabeça loura no travesseiro, Aprígia abriu os olhos, despertando calmamente de seu sono acordado.

– O que você está fazendo aqui, filho? – ela perguntou afavelmente, ainda sonolenta e atordoada.

 – A senhora estava em pé, de novo. Dormindo.

– Está acontecendo com muita frequência… – refletindo sobre a fragilidade da sua condição.

– Mãe… – com a entonação de quem vai fazer uma grande pergunta – Quem é Maria da Manta?

– Ah, filho… É uma velha história. Deixa isso pra lá…

– Mãe, reponde. – ele pediu firmemente.

Aprígia se sentou na cama, enrolou os cabelos num coque e respirou fundo.

– Não vai desistir?

– Não, mãe. Não vou. Quem é Maria da Manta?

– Sua avó morou aqui neste sítio, a vida toda. Quando eu vinha passar as férias, ela me dizia para não entrar no riacho, porque lá era onde Maria da Manta gostava de banhar e brincar. A vovó dizia que era uma mulher de cabelos negros e sujos, desgrenhados. Os dentes dela eram podres, todos bem grandes, amarelos e pontiagudos, como se precisassem furar a pedra mais dura. Ela tinha muitos dentes na boca, tantos que seria impossível contar. As gengivas eram podres e quando ela ria, um cheiro de carniça de beira de estrada exalava e entrava dentro do espírito de quem estivesse perto. As unhas de Maria eram como estiletes afiados, prontos a rasgar a carne de qualquer um. Na testa ela tinha dois chifres enormes e negros, como os de um bode. Na ponta dos chifres o sangue de um pobre coitado qualquer manchava o negrume de vermelho carmim. Olhar para os olhos de Maria da Manta era encontrar a morte. A pele dela era preta como carvão e brilhava como madeira polida, os olhos cor de labaredas e a boca vermelha de sangue se destacavam naquele rosto de cor tão uniforme. Ela considerava o riacho como propriedade dela e nós não deveríamos entrar lá, porque quando alguém entrava lá, ela fincava as unhas no rosto da pessoa e a retalhava de cima embaixo. Se a pessoa entrasse lá acompanhada, Maria da Manta se escondia, esperava até a noite e ia caçando um a um, pelo cheiro. Às 3h da manhã ela estava na beira da cama, olhando com um sorriso diabólico no rosto, as unhas fincadas no colchão, saliva descendo pelo canto do lábio. Era o momento da refeição. Aquele que ela comesse jamais encontraria o caminho da luz, ficaria para sempre vagando na escuridão da garganta dela. E por ter muitos dentro da garganta dela, ela não fala, apenas ri e grunhe.

– Mas, por que você fica repetindo essa história horrível, mãe?

– Sempre foi história de avó, mas quando viemos morar aqui, seu pai se apaixonou por aquele riacho. No dia em que ele morreu, eu achei que tinham sido meus olhos me enganado, mas hoje eu sei, foi a Maria da Manta que puxou ele pelos pés. Eu vi a mancha negra por baixo dele, enquanto ele se debatia. Eu senti o cheiro dela. Ele foi puxado e arrastado pelos pés. E, como na história da vovó, ela não devolveu ele, comeu cada pedacinho, até mesmo as roupas.

Henrique estava calado. Tentando ver todas as imagens que a mãe descreveu. Ela falou tudo sem hesitar, ela acreditava naquilo. Foi se deitar sabendo que a mãe não estava em seus melhores dias, depois da morte do pai ela tomava muitos comprimidos antes de dormir e, muitas vezes, bebia cachaça depois dos remédios. Gotas de felicidade, ela dizia. Ele teve que se cobrir inteiro com o lençol, a mãe lhe meteu medo.

Aprígia já não sabia onde começava e terminava cada versão. Estava deitada no escuro, tentando esquecer aquelas memórias e visões. No meio do completo breu, uma presença parecia estar vagueando pelo quarto. Os pés estavam descobertos, o melhor seria cobri-los, mas a coberta era muito curta e ela não queria olhar para as sombras. Deveria estar apenas assustada com a história que contou a Henrique, fecharia os olhos, respiraria fundo e o sono chegaria. Sim, faria isso. O pobre do filho era bem mais corajoso que ela. Estranhamente a sensação da presença ia se tornando cada vez mais real. Era o medo se personificando. Só poderia ser isso.

Num fragmento de segundo, que ela não conseguiu distinguir quando, uma respiração ofegante e forte fungou em seus pés descobertos, o hálito quente era também fétido. Ela ouviu um gemido sufocado e alguma coisa sorvendo saliva. O sangue agora havia congelado, a coisa tocava na cama e ela tinha a sensação que era com longas unhas pontiagudas. Pensou no filho, sentiu medo. Era melhor ver logo de uma vez a coisa. Movimentou-se lentamente em direção ao interruptor do pequeno abajur ao lado da cama. Sentiu a coisa se mexer: as mãos, talvez garras, mudaram de posição. A mudança na posição da pressão no colchão demonstrava isso. Acionou o interruptor e olhou em direção à coisa. Na ponta lateral direita da cama, estava ela. Com o queixo negro reluzente encostado no colchão, a baba misturada a sangue escorrendo e molhando o lençol branco de algodão. Rindo com tantos dentes à mostra que ninguém jamais poderia contar. Olhando fixamente para Aprígia, com olhos de labaredas. Era Maria da Manta, espreitando à beira de sua cama. Rindo e lambendo os lábios.

Num piscar de olhos viu quando a criatura correu pela porta em direção ao quarto de Henrique. Aprígia pulou da cama, correu o mais rápido que pôde para lutar pela vida do filho. Quando chegou ao quarto, viu em cima da cama, apenas um bolão embaixo dos lençóis. Correu à dispensa e trouxe cordas. Amarrou o bolão, que gritava e se remexia. Foi arrastando-o para um canto do quintal, perto de onde guardava a querosene para o gerador. Era ela. Maria da Manta tinha comido seu filho. Não ficou nada, nem mesmo a roupa. A coisa pulava, gemia como se fosse uma criança, numa tentativa mais que óbvia de enganá-la, de gerar a esperança que o menino estivesse vivo. Criatura maldita! Levou o marido e agora o filho. A maldita voltou para lhe tirar o resto que faltava. Deixou a coisa retorcendo-se dentro dos lençóis, enquanto buscava galões de querosene. Pareceu ouvir uma voz abafada pedindo socorro. A avó dizia que a coisa fingia ser gente e demonstrava sofrer, quando era capturada. Não podia parar. Tinha que destruir a coisa. Derramou todo o querosene que encontrou sobre a criatura e, sem pensar mais que um segundo, ateou fogo nos lençóis em que seu filho dormia, antes da coisa comê-lo. Maria da Manta se contorceu e urrou o quanto pôde, mas Aprígia não tinha dó. Tinha apenas dois olhos vazios, carregando o nada para dentro de si, enquanto uma pequena mãozinha enegrecida saltava de dentro do bolão.


Rândyna da Cunha
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Rândyna da Cunha
Empregada Pública na CAESB-DF; Conteudista de EaD; Consultora em Assuntos Educacionais; Professora de Português e Inglês; Graduada em Letras - Port./Inglês e Direito pela Universidade Católica de Brasília; Pós-Graduanda em Processos e Produtos Criativos na Universidade Federal do Goiás; Escritora, com contos publicados em diversas revistas literárias, como Subversa, Avessa e Philos; com participação em coletâneas de contos das editoras Illuminare e Andross; Pesquisadora sobre psicopatia; Colunista na página "A Soma de Todos os Afetos". Contato: randynapaula@gmail.com

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