Diga com quem andas e eu te direi…quem eu sou.

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O ditado “diga com quem andas e eu te direi quem tu és” é uma expressão amplamente divulgada e disseminada em nossa cultura, não se percebendo, por sua participação rotineira, do seu caráter amplamente preconceituoso. Ou gerador de preconceitos.

Se eu tenho amigos que fraudam e sonegam impostos, necessariamente me transformo em um sonegador? Se uma colega de trabalho com quem almoço junto todos os dias mantém um caso extraconjugal sou, junto com ela, uma adúltera? Caso meu melhor amigo consuma maconha, sou também um dependente químico?

A resposta óbvia seria não. Mas se partirmos do pressuposto do enunciado, a resposta é sim. E aí a gente se assusta, pois, a grande maioria das pessoas que repete este ditado não se dá conta do quão preconceituoso é o seu conteúdo. E saímos reproduzindo (e julgando) por aí.

Jesus Cristo andava com cobradores de impostos, tinha contato com mulheres adúlteras, se relacionava com samaritanos. Estas eram algumas das pessoas mais mal vistas e menos merecedoras de compaixão daquele período da história. E isso fez dele alguém ruim? Lúcifer andou com anjos…

Então, a verdade é que andar com pessoas que fazem coisas que não são bem vistas aos olhos da maioria, não nos transforma em alguém ruim. E andar com pessoas de bem, não nos faz santos. Há urgência em que as pessoas compreendam, verdadeiramente, que ninguém tem o direito de julgar o outro. Porque é fácil sentar numa poltrona, olhar o outro e valorá-lo pelo meu ponto de vista, julgar o outro pela minha história de vida.

O outro é outro, dotado de paixões, desejos, dores, problemas, questionamentos que só dizem respeito a ele. “Por que fulano não faz como eu? Daí daria tudo certo”. Se o outro não faz como eu é porque ele é justamente outro e não eu.

Tem sua história, suas motivações ou intuitos. E se o contexto é outro, a mesma ação pode ter resultados diferentes.

Talvez até desastrosos.

Voltando ao ditado, devemos ainda considerar que é bastante pretensioso, posto que o outro apenas diz com quem anda, quem são seus amigos, e eu emito um juízo de valor a seu respeito, mesmo desconhecendo seu passado e ignorando todo o restante do seu presente. Quem é o outro? Apenas um reflexo das companhias que possui? Óbvio que o outro é mais, muito mais do que se deixa revelar, há sentimentos, pensamentos, ideias, objetivos, sensações, percepções e sonhos que não ficam evidentes apenas olhando para ele.

Logo, uma inferência superficial a partir de quem é o círculo de amizades do outro, revela não quem o outro é, mas a quem infere. Revela algo da personalidade do observador e não do observado – indica preconceito, generalização, pobreza no olhar dirigido ao outro. Atitudes como esta distanciam uns dos outros, impedem trocas, geram ou mantém racismos e discriminações. Inviabilizam a aproximação, fazem surgir muros de proteção e em grau extremo, podem incitar a violência pelo desrespeito à condição do outro.

Junto com este ditado, vamos abandonar também as formas de julgamento que nos fazem mantenedores de preconceitos. Abandonar uma visão restrita do outro para uma amplitude de aceitação das diferenças em uma compreensão irrestrita de que o outro não precisa se assemelhar a mim para ser dotado de valor ou considerado digno de aprovação.

Imagem destaque:

Adriana Soczek Sampaio

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