É Halloween.  E o que eu tenho a ver com isso?

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Muito! Mesmo que seu argumento seja que se trata de uma cultura importada, que seja contra seus valores, que seja contra sua crença, uma coisa tem que ser admitida: Halloween move o comércio tal como o Dia dos Namorados, das Crianças e o Natal.

Inúmeras pessoas criticam Halloween por ser uma festa pagã. Mas claro que é! Assim como tantas outras que existiam antes de surgir o Cristianismo e permanecem apesar dele. Aliás, este é um bom momento para retomar um pouco de etimologia. Vejamos:

Pagão: do latim paganus, “o que mora no pagus”, o “interiorano”, o “aldeão”, em oposição ao urbanus, “o que mora na cidade”, de urbs, “cidade”. E pagus quer dizer “distrito rural”, originalmente “área demarcada”, relacionada com pangere, “apertar, colocar no lugar”, que veio do Indo-Europeu pag-, “colocar no lugar, unir, tornar firme”.  Diz-se que, quando a igreja católica se firmou na Europa, os últimos que aderiram a ela foram os habitantes do campo, onde a população tinha menos contato com o que acontecia nas cidades maiores. Daí ser usado o termo pagão para “não-cristão”. (Novo Dicionário Aurélio e http://origemdapalavra.com.br/site/palavras/pagao)

O Oxford English Dictionary, bem como outros, registra que o termo pagão se refere àqueles que estão fora da religião cristã, judaica e muçulmana. Basicamente, é qualquer um que não acredita no Deus único, mas que adota uma visão politeísta. Na Bíblia a palavra gentil sempre aparece com o mesmo sentido. A palavra latina “pago – campo” é a origem do termo pagão, aí uma referência clara aos povos que cultuavam a natureza. (http://paradoxosbiblicos.blogspot.com.br/2012/06/origem-de-algumas-plavbras-cristas.htm )

Outro aspecto que tem que ser reconhecido é que este evento está diretamente ligado ao aprendizado do idioma inglês, uma vez que a língua, seja qual for, é tão somente reflexo de uma cultura e o que compõe uma cultura é sua localização geográfica, sua história, o clima – que determina as características alimentares, de habitação e vestimenta, para citar alguns exemplos. Com o advento de conquistas territoriais, adaptações entre hábitos e rituais de conquistadores e conquistados foram necessárias devido às próprias contingências locais e o interesse em expandir seu legado.

Portanto, imaginar que é possível compreender os conceitos de uma língua sem conhecer os aspectos histórico-sócio-culturais é supor que um conjunto de palavras traduzidas é capaz de torná-lo verdadeiramente fluente num idioma. Ledo engano – vide traduções mecânicas online.

É característica da raça humana observar algo e imediatamente procurar identifica-lo com algo que conheça, como por exemplo, identificar tartarugas ou golfinhos ao olhar as nuvens. E quanto mais referenciais ele possuir, mais ampla será seu repertório de identificação – daí alguns serem tachados de possuir “imaginação fértil”.

Historicamente, ninguém nasce sabendo, tanto que os primitivos tinham medo de trovões, raios, meteoros e tantas outras demonstrações da natureza. Seu medo era tal que elaboravam práticas para “apaziguar os deuses”: curvar-se, prestar homenagem, fazer oferendas de comida e até seres vivos – animais ou pessoas.

Muitas destas práticas foram incorporadas às diversas seitas e religiões, com mais ou menos objetos de adoração, com mais ou menos rituais, mas todas advindas de tempos muito remotos, bem antes das delimitações de paganismo que hoje imperam.  Do Halloween, por exemplo, vem o ritual de procissões noturnas com velas.

Mas o que é Halloween?

Sua origem remonta ao festival Celta do Samhain numa área que hoje é a Irlanda o qual precedia o ano novo, celebrado em 1º de Novembro. O dia 31 de outubro marcava o final do verão e o festival da última colheita antes do início do inverno, período de dias de frio severo e muito escuros e, por isso, muito associado com a morte de pessoas. Também neste dia matavam-se muitos animais de gado e rebanho para armazenar alimento para todo o inverno.

Acreditava-se também que este dia de transição conectava o mundo dos vivos e dos mortos e muitos destes voltavam para visitar seus entes queridos. Os Celtas também acreditavam que deixar comida e especialmente doces apaziguaria os espíritos. Porém a volta desses espíritos também faria com que viessem os maus e por isso esta celebração contava com grandes fogueiras e o uso máscaras e fantasias de fantasmas, geralmente acompanhadas de crânios de animais e peles, para espantá-los.

Por volta do ano 43 a.C., o Império Romano havia conquistado a maior parte do território Celta e, conforme citado anteriormente, adaptações culturais surgiram, entre elas a Fealia, o dia no final de outubro no qual os romanos comemoravam a passagem dos mortos; o outro foi o dia de homenagear Pomona, a deusa romana de frutas e árvores. O símbolo de Pomona é a maçã e sua incorporação no Samhain provavelmente explica a tradição de “bobbing for apples” (pegar a maçã com a boca, seja numa bacia com água ou pendurada por uma corda).

Em 13 de maio de 609 a.C., o Papa Bonifácio IV dedicou o Panteão em Roma em homenagem a todos os mártires cristãos e a festa católica do Dia de Todos os Mártires foi estabelecida. O Papa Gregório II, cujo papado foi entre 731 e 741, expandiu esta celebração de modo a incluir todos os santos também e alterou a data de 13 de maio para 1º de novembro. Anos depois, em 1000 d.C., a igreja católica decidiu estabelecer o dia 2 de novembro como o Dia de Todas as Almas (All Soul’s Day) – um dia de honrar os mortos. Evidências históricas mostram que a igreja católica queria substituir a celebração celta de modo a obter mais adeptos e por isso o Dia de Todas as Almas era celebrado de forma muito semelhante ao Samhain, com grandes fogueiras, desfiles (posteriormente chamados de procissões) e pessoas vestindo-se de santos, anjos e demônios.  Esta celebração também era chamada de All-hallows ou All-hallowman (do inglês medieval Alholowmesse, que significa Dia de Todos os Santos) e a noite anterior, tradicional do Samhain, passou a ser chamada de All Hallows Evening, que posteriormente foi reduzido a Hallowe’en e Halloween. (adaptado de http://www.history.com/topics/halloween/history-of-halloween)

A tradição da abóbora iluminada vem, aparentemente, de uma lenda irlandesa de um senhor chamado Stingy Jack (ávaro Jack, tradução livre), um fazendeiro mesquinho que decidiu desafiar o diabo e como punição foi amaldiçoado a perambular pela terra iluminando seu caminho com uma vela num nabo escavado para que o vento não a apagasse. Com a ida da tradição para os Estados Unidos da América, o nabo foi substituído pela abóbora porque esta era mais abundante e fácil de escavar.

O famoso “Trick or Treat” (travessuras ou doçuras) deriva de uma longa tradição de dar presentes aos pobres no Dia de Todos os Santos, que era praticada tanto na Irlanda como na Itália. A ideia principal era de que os pedintes seriam assim levados a fazer preces pelas almas dos mortos em troca da comida. Segundo indícios históricos, o registro mais antigo da expressão “Trick or Treat” data do ano de 1927.

Vale observar, entretanto, que há registros históricos de celebração similar ao Halloween ainda antes dos Celtas, como cita o texto de Luciana Rocio.

A celebração do Dia dos Mortos, que já era praticada por povos totonacas, náuatles, purépechas, maias e astecas – algumas contando com bem mais de 3000 anos, também traz elementos semelhantes. No México, por exemplo, a já mundialmente famosa festa foi trazida por imigrantes espanhóis inicia na noite de 31 de outubro e segue até o dia 2 de novembro, e o sincretismo de costumes locais com o catolicismo conta com a exibição de crânios conservados para celebrar o renascimento e a morte. Apesar do tema mórbido, e diferentemente do Brasil, a celebração católica mexicana é uma grande e animada festa que conta desde os tempos pré-hispânicos e sua lenda diz que os mortos vêm para visitar seus parentes e são recebidos com música, doces, bolos e pequenas caveiras feitas de açúcar. Ela também conta com a montagem de um altar com recordações e oferendas como comida, bebida e música da preferência do falecido, e ainda representações de quatro elementos: uma xícara, representando a Água; frutos, representando a Terra; velas, para o Fogo; e papéis picados com figuras distintas, para o Ar. Sua fama é tão grande que em 7 de novembro de 2003 a Unesco a declarou como patrimônio da humanidade. (http://www.brasil.discovery.uol.com.br/enigma/9-curiosidades-sobre-o-dia-dos-mortos/)

Contraditória como só a raça humana consegue ser, a igreja católica que incorporou muitos elementos pagãos em suas celebrações é a mesma que proclama no ano de 2009 o Halloween como uma “celebração do terror, medo e morte” com “traços de ocultismo”, porém mantém culto aos mortos, tradições de oferendas e procissões.

Retomando a pergunta-título, nota-se que o desconhecimento das origens de celebrações, entre outros temas, traz mal-entendidos e, pior, distorções que podem gerar (e geram!) intolerância.  Quantos de nós temos filhos em escolas regulares e de idiomas que celebram Easter (Páscoa), o Dia de Martin Luther King, Halloween, Thanksgiving (Dia de Ação de Graças), Dia das Mães, dos Pais, dos Avós, do Índio e tantos outros. Então, porque não aprender sobre estas celebrações em outros países para não se sentir perdido ao chegar em Beijing entre janeiro e fevereiro e descobrir que é Ano Novo e sua celebração dura cerca de 15 dias, por exemplo? Que os feriados de Páscoa e Natal incluem o dia seguinte (17 de abril, em 2017, e 26 de dezembro) na Alemanha? Que o Dia do Trabalhador é em 4 de setembro nos Estados Unidos? E que apesar do Brasil se intitular estado laico, é o calendário anual do Canadá que inclui os feriados e celebrações de diversas religiões?

Para além das tradições, os meses de outubro e novembro são considerados como “baixa estação” e por isso muitos brasileiros optam por viajar aos Estados Unidos nesta época e, certamente, se depararão com a celebração de Halloween, seja na decoração das lojas, seja em parques de diversão, nos hotéis, restaurantes e nas brincadeiras que verão as crianças americanas fazer pelos bairros, seguindo fantasiados dos mais diversos personagens (não, eles não se vestem somente de bruxos e “seres do mal”!) e esperançosos de porta em porta dizendo “Trick or Treat” para receber doces. Pouquíssimas vezes eles fazem uma travessura para alguém que abriu a porta, mas não possui doces para doar. Donos das casas que não querem participar colocam uma identificação para que não toquem sua campainha.

Imagine não estar preparado para isso!

No Brasil, importador de tantas coisas, esta ‘festa’ também tem crescido, mas certamente ninguém a faz com o objetivo de praticar o mal ou alguma forma de ocultismo, especialmente por se tratar mais de uma festa cultural de e para crianças do que qualquer outra coisa. Mesmo porque, doces e guloseimas não são restritas a festas de aniversário ou o Dia das Crianças.

Claro que há os exageros e as maldades, mas isso há em todo lugar tal como temos, atualmente, os palhaços assustadores. Isso está mais ligado à natureza humana de cada um (também chamado de livre arbítrio) do que a preceitos estabelecidos.

E se você ainda está preocupado com o fato da origem do Halloween ser pagã, procure saber sobre as origens (etimologia) das palavras Natal, Senhor, Amém, Bíblia. Como exemplo, tomemos a etimologia de “formidável” que é “pavoroso, horrendo, assustador, diabólico”, e que com o decorrer do tempo, passou a significar “maravilhoso, excelente, fantástico.” Mas isso pode ser assunto para uma próxima matéria.

 

Happy Halloween!

Ruth Rapaport

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