Halloween – Sobre o tão comentado Dia das Bruxas

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Na qualidade de pesquisadora de lendas e sempre quando chega à época do Halloween sou requisitada para dar palestras sobre este tema. No texto abaixo trarei detalhes que sempre abordo nestas palestras sobre o tão comentado Dia das Bruxas.

Desde a Idade da Pedra a morte e o sobrenatural mexem com a imaginação do ser humano. Já foi provado através de pesquisas arqueológicas que desde esta época o ser humano cultuava deuses e possuía períodos, com rituais, para homenagear os falecidos.

No Antigo Egito, já havia um tipo de Halloween, comemorado dois dias antes da data de homenagem aos mortos. Nesta comemoração existiam rituais específicos, onde eles acreditavam que os espíritos dos mortos poderiam entrar em contato com quem ficou na Terra. 

Os antigos celtas, também, executavam um ritual de Halloween semelhante ao dos egípcios. Para eles a noite de 31 de outubro, indicava o início do Samhain, uma importante celebração que marcava três fatos: o fim da colheita, o Ano-Novo celta e também o início do outono, que era a preparação do inverno, considerada a estação da escuridão e do frio”, que era um período associado aos mortos. Deste jeito, como os egípcios, neste dia, os celtas também acreditavam que era possível manter contato, com os mortos porque um portal era aberto para outra dimensão. Para se protegerem das almas, os celtas vestiam fantasias de animais em rituais e deixavam doces nas portas de suas casas, para acalmar os espíritos. Por isto é que no século vinte virou costume dar doces para as crianças que batem na porta. No século 9, este ritual antigo foi influenciado pela expansão do cristianismo na Grã-Bretanha. Na tentativa de acabar com os festejos pagãos, o papa Gregório III consagrou o dia 1º de novembro para a celebração de Todos os Santos. Surgiu daí a própria palavra Halloween, originada de all hallows eve, que em português quer dizer “véspera do dia de Todos os Santos”. Nesta época para substituir os doces, que eram colocados nas portas para espantar os espíritos, a Igreja Católica criou o bolo das almas para esta data. O tradicional bolo das almas era feito com frutas secas e usado num ritual que era o seguinte: crianças passavam, de casa em casa, com o objetivo de rezar pelas almas dos parentes mortos do dono da residência.

Após as orações os menores tinham direito a receber este bolo. No começo eles perguntavam:

– Bolo das almas, ou, parentes sofrendo no purgatório?

Somente séculos depois é que esta frase foi substituída por:

– Doces, ou, travessuras?

Conforme o professor Antônio Sandmman, do curso de Letras da UFPR, a palavra Halloween é uma gíria formada de suas outras palavras: 

Halloweed, que significava todos os santos no Inglês da Irlanda Medieval com a junção da palavra “een” que era a gíria de noite, também, no Inglês da Irlanda Medieval. 

O Halloween também tem muitas lendas, algumas estão abaixo:

Jack da Lanterna:

Era uma vez um bêbado, ladrão e sedutor de donzelas chamado Jack. Certo dia o Diabo veio busca-lo. Mas ele disse que Jack tinha direito a um pedido. Então o marginal pediu para que Satanás se transformasse numa moeda. Assim que o Diabo se transformou nisto, Jack colocou a moeda na carteira que tinha o desenho de uma cruz. Deste jeito Satanás não conseguiu escapar.

Um ano depois o Diabo chegou para buscar Jack, novamente. Como naquele instante, o homem estava debaixo de uma macieira, ele disse:

– Satanás, lá no topo tem maçãs suculentas.

Então o Diabo subiu para pegar as frutas.

Como um raio, Jack desenhou uma cruz na árvore. Desta maneira, Satanás não conseguiu pegar o bandido.

No ano seguinte, Jack teve um ataque cardíaco e morreu no coração. Ele não foi aceito no céu por ser mau. Porém o Diabo não aceitou esta alma no Inferno porque já estava de saco cheio dele. Quando Jack tentou ir para o purgatório, um anjo disse:

– Aqui você não pode entrar. Mas darei uma vela para iluminar seu caminho. Seu espírito continuará vivendo enquanto esta vela continuar acessa. Na véspera do Dia dos Mortos você terá a oportunidade renovar a chama.

Desta forma, em todo o Halloween, Jack passou a surgir com um nabo, onde havia uma vela acessa, nas mãos.

Como o nabo era difícil de ser encontrado na América, ele foi substituído pela abóbora acesa com uma vela e a lenda passou a ter o nome de Jack da Lanterna. Dizem que a pessoa que roubar a lanterna deste homem viverá para sempre na Terra. 

Cabeça de Abóbora de Jack:

Reza a lenda, que numa noite de Halloween, Jack estava passando por numa plantação rural. Quando, de repente, a chama apagou. Então a Morte cortou sua cabeça. Porém naquele mesmo local havia uma senhora solteira fazendo um ritual para arrumar um marido. De repente, ela viu a cena. Assim pegou uma abóbora, que estava no meio da plantação, e colocou na cabeça de Jack. Depois desenhou olhos, nariz e boca. Após isto, o homem voltou à vida, acendeu a vela dentro de uma abóbora e saiu correndo.

Reza a lenda que, no Halloween, Jack entra nas residências para roubar. Mas se o dono da casa colocar uma vela dentro de uma abóbora, na porta, ele não entra.

Bolo da Sorte de Halloween:

Existe o bolo da sorte do Dia das Bruxas. Dentro do bolo há bonecas minúsculas em formatos de feiticeiras. Quem pegar uma fatia com uma destas bruxinhas terá seu pedido atendido.

O Dia do Saci no Brasil

O Saci-Pererê é uma lenda brasileira que existe desde a época do Brasil-Colônia. O saci é um menino afrodescendente, que usa toca vermelha, pula de um pé só e faz muitas travessuras.

O Dia do Saci existe no projeto de lei federal nº 2.762, de 2003 (anexado ao projeto de lei federal nº 2.479, de 2003), elaborado pelo deputado federal Chico Alencar, (PSOL -RJ) e pela vereadora de São José dos Campos, Ângela Guadagnin (PT – SP), com o objetivo de resgatar figuras do folclore brasileiro, em contraposição ao “Dia das Bruxas”, ou, Halloween, de tradição cultural celta. Propõe-se seja celebrado em 31 de Outubro.

O Saci-Pererê é uma figura mitológica do folclore brasileiro. Porém, não se sabe, exatamente, como surgiu a figura dele. Pois, em diversos relatos, há vestígios das seguintes culturas: africana, europeia e indígena.

Deixo abaixo a versão da origem do Saci, que escutei quando visitei a cidade de Fazenda Rio Grande, no Paraná:

No século dezenove, no período da escravidão, havia um menino negro muito sapeca chamado Toinho, que fazia travessuras como: trançar as crinas dos cavalos nas noites escuras, roubar doces da cozinha na casa grande, afanar fumo para seu cachimbo, etc.

Um dia, Toinho resolveu afanar um doce da copa, na casa grande. Quando, de repente, o capataz flagrou o pobre, que saiu correndo. Mas, o homem correu atrás do garoto, alcançou o desgraçado, que deu uma resposta debochada:

“- Capataz fraco, branquelo e magrelo

De ficar no tronco, não me pélo!”

Assim, o capataz, tomado pelo ódio, levou o garoto para o mato e cortou uma de suas pernas. O menino morreu e foi para o céu. Mas, São Pedro disse-lhe: 

– Poxa, eu até poderia deixa-lo entrar no Paraíso. Porém, o problema é que você não foi batizado e, aqui, pagão não entra. 
Desta maneira, Toinho foi para o Inferno e o diabo explicou-lhe:

– Não posso aceitar você aqui porque seus pecados foram somente as travessuras infantis. Acho que você deve voltar para o seu corpo, ou tentar uma vaga no purgatório. O problema é que eles estão em reforma lá.

Enquanto o garoto conversava com Satanás, um pajé que estava caminhando pela floresta viu seu corpo estendido pelo mato. Então, com a magia dos xamãs, o feiticeiro realizou um ritual para trazer o menino de volta à vida.

De repente, o índio notou que o garoto tossiu e, de repente, ele abriu os olhos, levantou-se com uma perna só e começou a pular rapidamente. Como um raio, o menino disse:

– Poxa, não estou no purgatório. Pois, esta é a mesma floresta, onde o capataz arrancou a minha perna.

– Sinto que por causa da minha visita ao inferno, entrou muita poeira das fogueiras nos meus olhos e eles não param mais de mexer.

– Além disto, há algo estranho:

– Estou me sentindo ágil e saltitante mesmo com apenas uma perna.

Desta maneira, o pajé resolveu levar Toinho para a tribo. Assim, todos os índios ficaram assustados com a habilidade que o menino tinha de pular com uma perna só.

De repente, os nativos começaram a exclamar a palavra:

– Saci-Pererê!

Deste jeito Toinho recebeu este apelido pelos indígenas. Pois, Saci significa olho doente que se mexe sem parar e Pererê quer dizer saltitante, tudo isto, em tupi-guarani.

Em 2015, ano passado, realizei uma performance sobre Halloween numa faculdade onde falei sobre estes conhecimentos e dancei uma música chamada Dança do Ritual do Foto do músico Manuel De Fala.

Aqui é possível concluir que os eventos e tradições sempre estão em constantes mudanças. Por isto o Halloween de hoje será diferente do Halloween daqui 20 anos.

 

Luciana do Rocio Mallon

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