O Lugar do Homem no Feminismo

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Desde sempre ouvimos dizer que temos dois ouvidos e uma boca, é quase um ditado popular, mas que na prática é pouco utilizado. Então, escute mais do que você fala. Escute bastante, escute mais ainda. Escutar, inclusive os falastrões, vai te ensinar como algumas coisas não precisavam ser ditas. Ainda mais se você for um homem que simpatiza com as causas feministas.

Com mais frequência do que gostaríamos, encontramos homens que se dizem feministas ou melhor “feministos” (o corretor ortográfico grifou o termo feministo, está claro que isso não existe). O feminismo trata de equidade de direitos políticos, sociais e econômicos, então porque alguns homens insistem em dizer que fazem parte desse movimento que certamente visa diminuir as regalias do patriarcado?

Posar de bom moço? Ganhar crédito com as meninas? Sair da berlinda de potencial estuprador? Se mostrar desconstruído?

Sempre me pergunto se esse homem que se diz feminista ativo, é uma versão do Padre Fabio de Melo, versão masculina da Madre Teresa de Calcutá, versão macho de Malala Yousafza. Por qual motivo esse homem precisa gritar aos ventos que o feminismo é causa dele, que tão desprendido de suas regalias ele pode ser? São pessoas que simpatizam com a pauta, mas não estão acostumadas a ouvir, estão acostumadas a ter as mulheres ao seu lado, estão acostumadas a ver as mulheres concordar com sua opinião. Esses homens não aprenderam a ouvir, foram ensinados pelo patriarcado a falar o que bem quisessem sem sofrer as retaliações adequadas. Agora eles precisam aprender a se calar para dar poder de fala as mulheres, precisam aprender a ver as mulheres na sua frente e a opinião dele não ter valor algum. É fácil, extremamente fácil, para um homem falar para um grupo de mulheres que é feministo, mas quantas vezes esse homem falou para seu grupo de amigos do futebol que é militante do movimento feminista?

O protagonismo do feminismo é das mulheres, os homens não podem falar sobre a opressão que não sofrem, mas podem ser bons ouvintes. Ouvintes de dois ouvidos, aquele que não interrompe, não diminuí e não tenta tratar exceções como regra com as celebres frases “nem todo homem”. Se eu pudesse dar uma dica para um amigo “feministo” eu diria para ele nunca mais usar essa frase, nunca mais usar seu exemplo pessoal como modelo de todo um gênero e que ele ouça. Ouça como teve mulher que perdeu emprego porque não aceitou o assédio sexual do empregador, ouça sobre o medo das mulheres de sair na rua pra ir almoçar com a roupa que quiser, ouça sobre a culpa que uma mulher sente por ser chamada de vagabunda por um short curto ou um decote mais ventilado, ouça sobre todas as vezes que as mulheres perderam oportunidades profissionais por precisar cuidar dos filhos, ouça seus relatos de violência doméstica, ouça as histórias de abuso psicológico infligidos pelos parceiros e familiares, ouça. Apenas ouça como elas se sentiram, pergunte para sua mãe, avó, irmã como ela se sentiria se as fotos delas estivessem trafegando em grupos de WhatsApp como dessas mulheres que estão no seu celular agora. Pergunte para sua namorada e esposa como elas se sentem quando algum homem dá uma cantada nela. Aprenda com essas mulheres que te cercam, permita que elas falem o quanto quiserem e se você não concordar com algo, pense em toda a história de vida que há atrás daquele discurso que você não concorda e o tanto que você vai mudar algo dando sua opinião de opressor.

Entretanto, há bons lugares para ser o “feministo” que esse simpatizante deseja, nestes lugares as feministas vão adorar que os homens militem pela causa, tomem voz e sejam opressores: no seu grupo de futebol, grupo de amigos, familiares homens, grupos de WhatsApp para troca de pornografia. Estes são ótimos lugares para um macho alfa dizer que as mulheres precisam ser respeitadas. Podem começar pedindo uma reunião com o RH da empresa a fim de tratar das igualdades salariais, podem fazer reunião de família e ameaçar os cunhados infiéis de delação para suas esposas, podem dizer para os amigos do futebol que chamar alguém de “filho da p$#@” é machismo enrustido, pode dizer para os amigos que adoram meninas jovens que elas são crianças e denunciar eles, pode ensinar seus filhos meninos a respeitar as meninas, ensinar aos filhos que eles podem jogar futebol com elas e brincar em pé de equidade.

Enquanto não se sentirem prontos para agir dessa forma, vocês podem simplesmente ouvir sem interromper. Fazer bom uso de seus dois ouvidos.

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