Somos todas mulheres, menos as prostitutas

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Alguns meses antes de iniciar as Olimpíadas no Rio de Janeiro, vimos começar uma verdadeira guerra entre as vertentes feministas.  Soridade*? Esquece! As manas se atacaram sem piedade alguma. Aparentemente, tudo começou quando a Marcha das Vadias do RJ abriu um evento no Facebook para falar de turismo sexual, sendo que o tal evento foi organizado pelo Comitê da Copa e Olimpíadas com a intenção de promover um encontro para falar da regulamentação da prostituição e turismo sexual.

Não consigo me recordar de um tema que divida tanto as vertentes do feminismo, além do gênero, como a prostituição.

E foi com este evento que vi muita gente resgatando as asperezas do tema. É sempre bom poder ouvir os dois lados antes de emitir julgamento de valor, mas sabemos que é muito difícil fazer isso, sem levar em consideração nossos valores morais mais intrínsecos.

Eu mesma não consigo emitir opinião sobre o tema, ainda não vejo ele bem definido dentro de mim e não quero julgar as condições que levaram as mulheres para tal profissão, muito menos atacar as mulheres que corajosamente  repudiam a prostituição pela essência dela e não por raiz moralista.

Andrea Dworkin, feminista famosa por sua oposição à pornografia, em 1992, durante um simpósio sobre o tema foi muito didática ao explicar a prostituição.

“Prostituição: o que é ela? É o uso do corpo de uma mulher para sexo por um homem, ele paga dinheiro, ele faz o que quer.”

Parece simplório? Para Dworkin, quanto mais simplória a leitura sobre o tema, melhor será a sua interpretação. Quanto mais simples você visualize a relação homem-paga x mulher-faz, melhor.

O tema não é romântico, não pode ser complexo – fazendo uma leitura linear e puramente empática, pense se você deseja esta vida de prostituição para você ou se consegue se admitir numa breve situação de prostituição. Difícil? Bom, talvez esteja conseguindo visualizar para qual lado você tende a apoiar.

Mas e as mulheres que se prostituem? Dá pra dizer que todas as pessoas em algum momento conheceram alguém ligado à prostituição.

“Tem mulher que gosta!”

“Tem mulher que só quer o dinheiro, nem se importa”.

“Tanta mulher dando de graça, ao menos as prostitutas ganham algo”.

Parece que quando falamos da relação comercial da prostituição, se esvaí a relação humana. Pagando uma bela quantia de dinheiro para uma mulher, ela perde o direito de reclamar as regras de seu corpo. Se ela aceita o pagamento, aceita as condições de marginalização.

Contudo, quando fazemos uma analogia com o masculino, fica mais fácil pensar nas reais condições deste trabalho, afinal de contas, os homens também fazem trabalhos por dinheiro. Explico. Quando vemos um homem trabalhando no corte de cana, conseguimos pensar que ele ama o que faz?

Você consegue olhar para as mãos calejadas de um homem que trabalha no arado e pensar que foi ele mesmo que se colocou nesta situação?

Estes homens recebem uma boa quantia de dinheiro pelo trabalho que fazem, então poderíamos dizer que eles gostam do que fazem.

Nada disso. Nós pensamos na vida dura que esse homem teve, nas péssimas condições governamentais que o colocaram neste subemprego, nós nos compadecemos deste homem que não teve oportunidades melhores e que acabou sendo vitima de um sistema capitalista.

Somos todas mulheres, mas quando tocamos nas raízes morais e sexuais, a empatia e a irmandade vão para o ralo. Precisamos falar sobre isso, resolver nossas questões internas e partir pra um diálogo inclusivo. Somos todas mulheres, até as prostitutas.

*Sororidade – No latim, soror significa irmãs. A ideia de irmandade (as manas) é um dos principais alicerces do feminismo, consistindo no objetivo do não julgamento prévio entre as mulheres, que é a marca registrada do estereótipo preconceituoso, machista e patriarcal.

 

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