Temor e Morte na Escola: Bullying?

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Marta festejaria seus 15 anos mas conheceu a morte pelas mãos de colega na escola.*

Sabemos que tem havido muito TEMOR entre alunos, mas como entender um desfecho de MORTE num lugar que existe para celebrar a vida, fortalecer o crescimento, construir conhecimento e para ensinar e aprender o convívio humano? Esse é um anagrama inconcebível para a Escola!

Aqui, nessa conversa, não vou me deter no fato relatado, que traz o triste fim da vítima adolescente pela terrível ação de outro (a) jovem. Não vou localizar também o contexto escolar em que ocorreu o crime.

Desejo, sim, fazer uma reflexão sobre o que é a escola, hoje, em que sistema está incluída como uma das instâncias do processo educacional e o que é o fenômeno denominado bullying, que se propaga entre nós e ameaça a integridade humana de nossos jovens como vítimas e agressores.

Há algum tempo venho acompanhando uma longa discussão nas redes sociais, bem como idéias publicadas em impressos, que conduzem, na minha opinião, a um falso dilema: – quem deveria educar: a família ou a escola?

Os que julgam que educar é obrigação exclusiva da família defendem que a escola somente deve ensinar as gerações imaturas a terem um futuro melhor pela via do conhecimento. Outros acreditam que a escola necessita responder à falha da família, hoje, e por isso admitem que ela possa também educar, além de ensinar, como era feito no passado. E ainda, em número bem menor, estão aqueles que, como eu, anunciam que a escola educa ao ensinar e ao promover a aprendizagem. Não teria a função de compensar a negligência da família, mas sim a de assumir seu papel legítimo no processo educacional para resgatar o passado, assegurar o presente e propiciar um futuro melhor aos mais jovens. Ela deve tentar, de vários modos, que cada estudante desenvolva conhecimentos, habilidades, atitudes intelectuais e emocionais, valores humanos e espirituais para aprender a Ser com suas competências singulares.

 “O mais significativo da educação é viver o processo, é cultivar. Fazer e refazer é o que a gente aprende na educação… No processo … o alvo é Ser, na dimensão do passado, presente e futuro.” – Plantar uma flor é acreditar no amanhã.

Passado, presente e futuro é o que emoldura a história de vida de cada ser humano em seu desenvolvimento. A família, a escola e a sociedade são as três instâncias responsáveis pelo processo educacional, em qualquer parte do mundo.

Não é possível dicotomizar a educação, separando funções para a escola e para a família, e, ainda, de quebra, esquecer da sociedade. Podem funcionar, bem ou mal, de forma articulada, ou, isoladamente, mas é essa tríade que oferece os diferentes ambientes para que as pessoas, em qualquer idade, aprendam e ensinem. Poderão, certamente, serem adquiridos aprendizados desejáveis ou indesejáveis, previstos ou inesperados, significativos ou desnecessários… são as oportunidades e riscos da vida coletiva.

A história pessoal é delimitada pelo tipo de instituição familiar com sua visão de educação. Também pela escola – particular ou pública – que faz parte de um sistema educacional (municipal, estadual ou federal) que tem uma Secretaria denominada de Educação, e, não de Ensino, coordenando o processo. E, ainda, pela sociedade que é constituída por todos nós, cidadãos e cidadãs, homens e mulheres, que agem para concretizá-la num cenário vivo, com maior ou menor participação, e, muito, ou, pouco, atentos à educação. 

A família, geralmente, opta por uma escola, seja pública, privada, leiga ou religiosa, que oferece alinhamento com suas crenças, tradição na formação de suas gerações, atendimento aos aspectos financeiros, roximidade da residência, amizade com a diretora ou com o empresário proprietário… Enfim, são muitas as razões para a escolha.

“Há sempre ricos aprendizados que a escola oferece, mas cada escola tem uma abordagem diferenciada para a entrega do conteúdo previsto. É importante a escolha pela família, não para perpetuar sua história, mas para atender a diversidade de cada criança.” – Educação: duas ruas e uma esquina.

Os inúmeros momentos do processo educacional ocorrem na família, na escola e na sociedade entre ensinantes e aprendentes no decorrer da vida numa educação contínua. “Ensinante e aprendente não tem a ver, somente, com professor e aluno. São também os pais e filhos, maridos e mulheres, irmãos, primos, avós e netos…. São desconhecidos que perguntam informações na rua, são conhecidos virtuais que trocam receitas de culinária…” – Neurônios no playground – A ciência já provou que nossos neurônios são ativos em qualquer fase da vida.

A sociedade, formada por todos nós, influi e é afetada, diretamente, pela escola e pela família. Se há uma conexão ativa entre a família e a escola, aprender e ensinar acontece em dupla mão e contribui para a transformação do social. Atualmente, há um cenário de críticas e de busca de culpados em relação ao que não está dando certo com nossas crianças e adolescentes.

Um dos temas mais comuns para a busca de culpados é um fenômeno social, escolar e familiar: bullying – ainda sem tradução – compreende “atos de violência (física ou não) que ocorrem de forma intencional e repetitiva contra um ou mais alunos que se encontram impossibilitados de fazer frente às agressões sofridas… Os mais fortes utilizam os mais frágeis como meros objetos de diversão, prazer e poder, com o intuito de maltratar, intimidar, humilhar e amedrontar suas vítimas… sem motivações específicas ou justificáveis.”

É uma grande especialista no assunto, Doutora Ana Beatriz Barbosa Silva, médica psiquiatra, que assim conceitua bullying e indica quatro razões, aqui resumidas, que levam os jovens a se tornarem bullies (agressores) Poderá ser lida a cartilha completa em: cartilha_bullying

  1. falta de limites nos processos educacionais no contexto familiar;
  2. carência de uma educação que associe a autorrealização com atitudes socialmente produtivas e solidárias, o que conduz a ações egoístas e maldosas como meio de conseguir poder e status;
  3. dificuldades momentâneas, como a separação traumática dos pais, ausência de recursos financeiros, doenças na família… A violência praticada é um fato novo como modo de agir e, portanto, poderá ser circunstancial;
  4. ausência de sentimentos de altruísmo e empatia, o que pode estar conectado ao exercício da transgressão como base estrutural da personalidade.

Atualmente, temos um cenário que envolve: notícias de pais que agridem professores na escola quando seus filhos são reprovados ou repreendidos; escolas que ainda não são preparadas para trabalhar, em contato direto com a família, junto aos filhos agressores e aos que são vítimas de bullying, e, até professores agredidos verbalmente e fisicamente por alunos, como decorrência extrema do ciclo de violência instalado.

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E todos esses atos são tratados de forma velada e não expostos abertamente para análise e reflexão pela sociedade. Pesquisas acadêmicas são feitas, mas não recebem da mídia a divulgação necessária. Recentemente, temos visto depoimentos de vítimas de bullying em programas televisivos, mas muito pouco de diálogo com jovens agressores.

Quando os filhos percebem que os pais podem ser manipulados com facilidade para os defenderem na escola, seja particular ou pública, ao se sentirem frustrados por algum motivo, parece que o ciclo se inicia e fortalece-se pela ação dicotômica de exercício de poder coercitivo da família sobre a escola e da descaracterização da escola como espaço aberto à família para construção conjunta de conhecimento e busca de soluções.

Esse é a situação perfeita para que a criança e o jovem sintam-se autorizados a deixar que seus instintos e distorções culturais aflorem e os preconceitos se transformem em ações de agressão e violência, verbais, físicas ou no espaço virtual. Os alvos dos bullies são aqueles colegas que não conseguem fazer frente às agressões sofridas porque já se sentem inferiorizados ou excluídos socialmente. Geralmente são crianças e adolescentes que representam características odiadas (a partir de preconceitos aprendidos na família), ou, cobiçadas (atributos excessivamente valorizados pela sociedade, através da mídia). A violência contra os professores pode ocorrer de forma simbólica, com palavras de ofensa, dentro da sala de aula, e, podem chegar, em situações extremas, a ataques físicos no ambiente interno ou proximidades da escola.

Há dezessete anos um projeto de lei encontra-se em tramitação (ou dormitando) no Congresso para contratação de psicólogos e assistentes sociais para assegurar atendimento a alunos da rede pública e apoio aos professores no ambiente escolar. As escolas particulares, por sua vez, poucas possuem psicólogos e outras não acham necessário esse tipo de profissional.

Violência, preconceito, agressão e exclusão estão sendo aprendidos e ensinados na escola, na família e na sociedade. Algumas vezes, os exemplos surgem das redes sociais, pelos adultos, em ódio jorrado sobre os diferentes posicionamentos políticos, religiosos, étnicos, ou, de orientação sexual. São, principalmente, crianças e adolescentes os que sofrem isolamento, temor, abandono de sonhos e desesperança devido ao bullying . Agressores e vítimas estão sendo criados e desenvolvidos, apesar da educação (ou pela educação?) O melhor futuro poderá estar sendo adiado ou eliminado para muitos por um presente totalmente desprovido de respeito aos seres humanos.

É indispensável e urgente reverter esse quadro, a partir de uma ação conjunta da família, escola e sociedade. A educação é vida, é crescimento, é convívio humano. É acreditar em ensino e aprendizagem. É vivência intelectual e emocional. É um fazer individual e coletivo.

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Lembrando de Dalai Lama:

Só existem dois dias no ano em que nada pode ser feito. Um se chama ontem e o outro se chama amanhã, portanto hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver.”

Hoje é o dia para acreditar que podemos juntar forças para que nunca mais ocorra o que aconteceu com Marta Avelhaneda Gonçalves, de quase 15 anos…

Referência Terra Notícias: Caso de menina morta em sala de aula expõe falta de apoio psicológico em escolas.

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Amora Rubra
Corina Ramos é educadora e acredita na educação no sentido amplo, além da escola, junto à cultura e sociedade, numa educação continuada. Professora universitária e consultora no meio escolar, organizações de terceiro setor e empresarial. Tem publicações na área de educação, tecnologia e currículo. É idealizadora de propostas de educação a distância, educação corporativa e educação continuada para professores e profissionais das mais variadas áreas. Participou da cocriação de muitos projetos educacionais, entre os quais: "Perspectivação", uma estratégia curricular de educação executiva empresarial no ISAE/FGV e "Observatório dos Adolescentes" nas escolas públicas e universidades estaduais. É microempreendedora individual, organizando publicações diversas na área da educação. Lançou recentemente, na rede Facebook, usando o codinome de Amora Rubra, o Método das Chaves, sistematizado por ela e aplicado para autoconhecimento e desenvolvimento de competências pessoais para melhor expressão pessoal.

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