O sistema empresarial na Suíça e as duas faces do empreender

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O sistema empresarial na Suíça
O sistema empresarial na Suíça

Uma breve história de uma empreendedora estrangeira no Cantão de Ticino

O sistema empresarial na Suíça, traz duas faces bem peculiares e nem sempre identificáveis, onde a perspicácia do empreendedor mantém sua sobrevivência.

Quando se fala de Suíça, o nosso primeiro pensamento é de um país perfeito, com uma qualidade de vida altíssima, civilidade de alto nível, um país impecável, justo e democrático onde a voz do povo tem um enorme peso nas decisões administrativas sejam elas cantonais que federais através de constantes referendos populares.

Só que não! Pois nem tudo que brilha é ouro!

Sem dúvida este é um país maravilhoso, talvez o mais importante da Europa central, rodeado por montanhas, com seus 26 cantões federalistas, 4 línguas oficiais, 752 bancos com um balanço total de 3.317 bilhões de francos, 8,7 milhões de habitantes dos quais 2 milhões são estrangeiros.

Entretanto, por trás dessa incrível cartolina, existe um esconderijo secreto, um lado obscuro que poucas, pouquíssimas pessoas, têm o privilégio ou o azar de conhecer.

Se você faz parte do sistema, o privilégio te pertence, porém, se você é o ‘outro’, o estrangeiro, então você pode ter graves problemas, principalmente os grandes empreendedores. Daqueles que incomodam muita gente.

Eu chamo esse sistema de ‘máfia legalizada’. A palavra máfia significa, no sentido figurado, um grupo de pessoas que faz valer os seus interesses de forma pouco clara, através de pressões, tráfico de influências, etc., pois bem, quando eu digo ‘máfia legalizada’ me refiro exatamente a esse sistema subdoloso onde empresas locais e instituições agem em concomitância.

Vamos supor que eu seja uma construtora. Que eu tenha a capacidade de fazer bons negócios, de conquistar novos e potentes investidores. Vamos supor que a minha pequena empresa, que começou com apenas 10 trabalhadores, tenha alcançado o nível das médias empresas com 50 trabalhadores fixos e mais outros 100 terceirizados.

Vamos supor também que eu seja tão boa no meu trabalho que eu consiga movimentar cerca de 50 milhões de francos em pouco menos de 5 anos. Que eu tenha canteiros espalhados pelo Cantão onde vivo, no caso, o Cantão italiano chamado Ticino e que estou começando a ser aquela pedra no sapato de alguns concorrentes locais.

O meu trabalho não é fácil, absolutamente! Mas eu sou realmente boa no que eu faço, ah se eu sou! Mas eu tenho um problema: eu não sou daqui! Falamos a mesma língua, mas eu não sou daqui. Temos a mesma cultura, mas eu não sou daqui. E qual modo melhor para fazer uma pessoa que não é daqui entender que ela não é daqui?

No mundo corporativo, as instituições deveriam proteger e auxiliar as empresas, não importa a qual nacionalidade o respectivo CEO pertence, porém em um lugar onde a territorialidade reina, esse dever vem a falhar. Antes, quando um empreendedor estrangeiro começa a emergir, o sistema local, formado por empresários e instituições, ativa o plano de sabotagem.

Longe de mim querer generalizar. Acredito que cada setor tem suas facilidades e dificuldades. No nosso cenário, falamos de um setor extremamente exclusivo, no qual, a movimentação financeira é de cerca de 20 bilhões de francos por ano em um território que conta somente 125 habitantes/km²!

Mas, voltando ao nosso exemplo, imaginemos que em plenas férias de verão, se reúnem os membros de uma certa instituição, que chamaremos simplesmente de ‘Comissão’, para decidirem o que fazer comigo, nota empresária ítalo-brasileira, que está começando a dominar o mercado imobiliário da Suíça italiana. Quanta ousadia!

A decisão é unânime: abrir um dossiê com o histórico de todas as empresas que pertencem a essa empresária. Descobrir o seu calcanhar de Aquiles. Massacrar até onde a lei possa permitir! A mesma lei que anda de mãos dadas com a ‘Comissão’, pois que seus eleitos do conselho de gestão são os mesmos empresários concorrentes, os mesmos responsáveis sindicalistas, os mesmos amigos de amigos…

De onde eu venho, isso se chama ‘conflito de interesse’. Daqueles bem obscenos e explícitos!

Devido à sua própria natureza, os protagonistas do conflito de interesse têm o total controle do sistema, onde são somente eles a decidir quem, quando, onde, como e por que um projeto pode ou não pode ser realizado, de forma totalmente arbitrária.

Mesmo sendo prósperas, as minhas empresas têm um débito com o estado (fato muito comum para o setor em questão onde não existe empresa de construção completamente em dia com os impostos), mas que já atuam com um plano de recuperação econômica concordados precedentemente.

Apesar disso, os membros da honorável ‘Comissão’ decidem, de forma completamente arbitrária, que tenho que pagar todo o devido ao estado em pouco menos de 1 mês, em plenas férias de verão, onde todos, todos aqueles que poderiam me socorrer, estão inatingíveis! Era o momento perfeito… para eles!

Foi ali que, repentinamente, inexoravelmente, eu começo a entrar no mais escuros dos túneis. Um buraco negro sem fim que tira todo meu fôlego e fragmenta toda a minha existência. O pesadelo de todos os pesadelos onde o despertar não está previsto. Pelo menos não tão cedo…

Foram dois anos na total escuridão, declarando falimento e insolvência de uma, duas, três das minhas empresas. Trabalhadores nas ruas, sindicato atacando, fornecedores furiosos. Dívida atrás de dívida. Notícias e difamação nos jornais, noites de insônia e enxaqueca perenes. Um pesadelo onde o despertar não estava previsto.

Somente depois de dois longos, longuíssimos anos lutando para não ultrapassar aquela linha que demarca o limite de suportação da realidade que nos impede de reemergir, lutando contra um sistema doentio e mafioso, reavaliando todos os meus erros e corrigindo um por um, é que eu pude começar a ver a luz no fim do túnel.

Uma empresária de sucesso, mesmo estrangeira, com grande potencialidade, teve que se abaixar ao sistema, aceitar suas falhas e recomeçar do zero. Recomeçar pisando em ovos, falando baixinho para não chamar a atenção. Recomeçar a crescer e ganhar espaço, mas dessa vez, com uma certa precaução.

Qual a moral dessa história?

Que mesmo nos países mais ricos e democráticos do mundo, sempre existirão pessoas cruéis e invejosas que farão de tudo para limitar o seu trabalho; que é preciso muita cautela antes de iniciar uma atividade em um país estrangeiro; que para se obter sucesso, é necessário ter as pessoas certas do seu lado.

Aprendemos que não bastam força, foco e capacidade para alcançar os próprios objetivos, é necessário também lucidez e estratégia para poder virar o jogo nos momentos mais difíceis e poder, lá na frente, encontrar aqueles que te fizeram cair e poder dizer, de cabeça erguida: EU VENCI… HO VINTO IO!

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