O xampu que saiu da boca do povo e o poder da influência social.

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Ele já esteve no topo e suas vendas foram influenciadas porque estava na boca do povo. De repente, isso mudou.

Passeava pelas ruas de Miami quando uma amiga, que foi me visitar, de repente parou e gritou: olha só, tem xampu Aussie por três dólares nesta farmácia. Vou levar vários para o Brasil.

Era junho de 2014, estudando e morando nos EUA há cerca de seis meses, estava um tanto quanto por fora do que rolava no Brasil, e nunca tinha ouvido falar deste tal xampu mega-blaster sensacional – segundo relatos da minha amiga!

Como toda e qualquer mulher curiosa, comprei o meu kit Aussie – xampu, condicionador e leave-in, por menos do que uma unidade estava sendo vendida no Brasil, e passei a integrar o “clube das influenciáveis do xampu do momento”.

Passados menos de quatro anos da super-onda dos três minutos milagrosos da linha Moist, pouco se houve falar do mesmo produto que era o máximo dos máximos.

Me lembrei deste fato enquanto lia o livro “Influência Invisível. As forças escondidas que moldam comportamentos”, de Jonah Berger. Logo na introdução, o autor menciona que a influência social gera impacto em nossas escolhas, seja com a compra de produtos, o carro que escolhemos, o corte de cabelo e até mesmo a carreira que decidimos seguir.

Ui. Um tanto quanto assustador para alguém que sempre se autointitulou “livre de influências”. Ledo engano. Ainda segundo o autor, “a noção de que nossas escolhas são direcionadas por nossos pensamentos e opiniões nem vale a pena ser mencionada”.

Como eu nunca tinha ouvido falar dele antes?

Aussie, na verdade, é uma marca internacional de cosméticos, mais conhecida por sua linha de produtos focados exclusivamente em cuidados com o cabelo, como xampus, condicionadores, sprays e aí por diante.

O bonitinho e saltitante canguru da embalagem remete à Austrália, por conta dos ingredientes do produto que são deste país, mas a gigante americana Procter & Gamble comprou a marca em 2003.

Pasmem, mas a marca que ganhou uma série de prêmios de beleza e editores de moda em todo o mundo, foi criada em 1979. Todo esse tempo e eu nunca tinha ouvido falar do tal xampu com intensivo tratamento que promete resultados maravilhosos em três minutos.

O alvoroço foi tamanho em cima da linha de produtos, em especial nas redes sociais, com inúmeras resenhas e tutoriais. Algumas, inclusive, com altíssimo número de visualizações para os padrões da época.

Não encontrei nenhum tutorial que tenha sido feito após o ano de 2016, mas quando falamos sobre rede social, microinfluenciadores e impacto de vlogers e blogers, dois anos faz muita diferença.

Em junho de 2015 houve um tremendo alarme sobre a estratégia da empresa de trazer a linha Aussie para o Brasil. Claro, com inúmeras pautas nas redes sociais.

O poder da influência

Observar a dinâmica de como o mesmo xampu entrou e saiu da boca do povo é um ótimo exercício para entender o poder da influência do outro. Uma das explicações é por conta da falta de tempo ou vontade do ser-humano em pesquisar a fundo para basear suas decisões.

Usar a opinião do outro é um caminho mais curto e seguro.

Se um livro está na lista de best-seller, isso significa que muita gente já leu e aprovou. Logicamente, escolher este título vai me poupar tempo e evitar que eu erre na escolha.

Apoiar uma escolha na opinião do outro é sinal de que será aprovado? Não, necessariamente.

Os efeitos da milagrosa linha de xampu foram questionados por várias Youtubers ou Blogueiras de Beleza. Talvez pela simples e clara conclusão de que nem todo produto fará o mesmo efeito em pessoas diferentes. É assim até com medicamento, quem dirá com tratamentos de beleza.

Mesmo assim continuamos comprando. Seja porque lemos algo, ou porque a vizinha comentou ou a blogueira validou. Continuamos seguindo a influência do outro.

A familiaridade é fator-chave no processo de escolha do ser humano. Quem não é visto, não é lembrado, e quanto mais for visto mais familiar será considerado. E tudo que é familiar traz segurança. Tudo em uma dinâmica imperceptível, influenciada por interações sociais – sejam on ou offline.

O copo pode estar meio cheio ou meio vazio.

Tudo é sempre uma questão de ponto de vista. De como enxergamos ou analisamos determinada situação, e a resposta varia de acordo com o olhar, pensamentos e crenças do observador.

A influência social não nos guia para o igual. Assim como um ímã, pode atrair ou repelir. Quando imitamos o outro ou evitamos a imitação? Quais situações promovem o desejo de parecer igual ou diferente?

Conscientemente, já sei quando decidi aderir ao grupo de milhares de brasileiras loucas para ter a embalagem roxinha no box do banheiro. Não me recordo como e porque parei de fazê-lo. Talvez tenha sido porque a mágica não se concretizou nos meus cabelos, efetivamente.

Mas nem tudo depende só do ponto de vista. A teoria da diferenciação pode me ajudar a entender o meu próprio comportamento.

Muitas vezes as pessoas acabam seguindo algo simplesmente porque os outros estão fazendo. Opa. Mulheres modernas, viajadas, e bem-sucedidas estão usando o tal xampu…claro que vou usar também, porque quero me sentir parte deste grupo.

Blogueiras lindíssimas já gravaram tutorial sobre ele (fala sério, tem algumas que dá vontade de cortas os pulsos, rsrs), claro que vou usar.

A partir do momento que comprar qualquer produto da linha Aussie tornou-se simples e corriqueiro, parece que tudo mudou. O produto começou a ser vendido em farmácias e supermercados no Brasil.

Xampu Aussie

Comprar o xampu Aussie deixou de ser sinal de diferenciação, passando a classificar suas consumidoras em um grupo muito mais amplo e nem tão diferenciado: a enorme quantidade de mulheres que compra xampu no supermercado ou farmácia.

O mesmo produto, as mesmas propriedades e composição, mesma embalagem e marca. Por que o xampu saiu da boca do povo? Deixou de ser o hit do momento, porque passou a fazer parte do todo, do comum, e, principalmente, deixou de diferenciar quem o usava.

Claro, estou me baseando em minha percepção, já que não há estudo nenhum que prove a minha teoria. Também não tenho acesso aos dados de vendas do produto no Brasil. Do ponto de vista de lucratividade, a detentora da marca pode estar para lá de satisfeita.

Este é apenas um dos casos que ganham notoriedade em um curto espaço de tempo, não por conta de altos investimentos em campanhas de marketing (mesmo que seja pagando blogueiras para falar de seu produto), porque comprova a incontrolável força da influência social. Vale a pena atentar para ela.

Deixa aqui seu comentário. Super curiosa para saber sua opinião.

Obrigada pela leitura e até a próxima.

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