Só podia ser mulher?

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A atuação da mulher no campo da pesquisa, da política e do empreendedorismo

Escrevi esse texto inspirada em uma campanha intitulada só podia ser mulher, a qual narra a experiência de uma menina que estava na rua e, ao ouvir alguém falando a frase, ficou intrigada e resolveu pesquisar na internet.

A descoberta da garota foi surpreendente, pois apareceram vários nomes de mulheres que fizeram história, tais como: Shirley Ann Jackson, a primeira mulher negra americana a ingressar no doutorado no MIT; Ada Lovelace, a primeira programadora da história, entre tantas outras.

Essa campanha deu grande foco às mulheres da área das ciências, justamente um segmento que carrega até hoje importante desigualdade entre os gêneros, e que, de forma contraditória, é o espaço de maior liberdade – pois é um lugar de produção do conhecimento.

Possivelmente, se o vídeo fosse produzido hoje, em meio à pandemia do COVID-19, ao menos mais seis mulheres seriam incluídas.

Estou falando das gestoras públicas de seis países que tiveram, em comum, o respeito pelos direitos humanos e a confiança nas pesquisas científicas.

São aspectos base para que não ignorassem o poder de propagação do vírus e usassem medidas rígidas de contenção, o que levou a resultados impressionantes de proteção a vida.

Foram elas: as primeiras-ministras da Islândia, da Nova Zelândia, da Finlândia e da Noruega (Katrín Jakobsdóttir, Jacinda Ardern, Sanna Marin e Erna Solberg, respectivamente), bem como a presidente de Taiwan (Tsai Ing-wen) e a Chanceler da Alemanha (Angela Merkel).

Pois bem, trazendo mais elementos para contextualizar a importância de investimentos nas ciências/pesquisa e na inclusão das mulheres, é válido destacar que apenas 35% (1) dos alunos matriculados nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática são do sexo feminino.

Uma explicação apresentada para esse percentual é a existência de estereótipo que reforça que homens são melhores nas ciências exatas e mulheres nas humanas.

Essa mística sobre a atuação intelectual de mulheres e homens não possui fundamentação teórica em nenhum estudo. Portanto, se configura como uma construção social que reforça a desigualdade de gênero e não há fundo de verdade.

Esse fator é um dos responsáveis pela baixa quantidade de profissionais nesse nicho do mercado de trabalho.

No meio acadêmico, 55% de mulheres estão em cursos de pós-graduação. No entanto, o percentual de bolsas de pesquisa de produtividade é maior para os homens, chegando a 65% (2) nas áreas das Ciências Exatas da Terra e Engenharia.

Esse fenômeno não é exclusivo no Brasil e até foi batizado de “telhado de vidro”, que significa a existência de barreira para a ascensão das mulheres na carreira acadêmica.

A desvantagem financeira é um limitante que também se repete no mercado de trabalho. As mulheres possuem mais dificuldade em acesso ao crédito para empreender em relação aos homens, pois acessam um valor médio de R$ 13.000,00 a menos (3).

As mulheres pagam uma alta taxa de juros, 3,5 acima, mesmo tendo uma taxa de inadimplência menor. Essa baixa confiança do setor financeiro em concessão de crédito à mulher gera menor circulação de capital e, assim, diminui a geração de emprego.

Existe uma projeção que se o investimento concedido as mulheres fosse igual ao dos homens, em cinco anos seis milhões de empregos seriam gerados por meio do empreendedorismo feminino.

Em meu caso, comecei a empreender a partir de uma experiência acadêmica de pesquisa e extensão universitária. Faço parte do percentual de mulheres que obteve acesso ao “crédito” no mestrado por meio de bolsa de pesquisa em parte do curso – por que, na outra parte, fui lecionar na UERJ e não era possível acumular.

Também integrei programas de pesquisa científica na FIOCRUZ, como auxiliar de pesquisa e, depois, como pesquisadora convidada em um projeto na Amazônia Ocidental.

Há 17 anos faço pesquisa. Minha formação é na área de ciências humanas, mas como o mestrado foi na Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, passei a conviver com as exatas.

Aprendi a dialogar com as duas ciências e hoje sou especialista em pesquisa multimétodos e triangulação.

Conheço poucas pessoas da minha área de formação que empreenderam em pesquisa, mas existem inúmeras pesquisadoras de alta performance que são intraempreendedoras nas universidades e centros de pesquisas.

Como mulher, pesquisadora social, geógrafa, mediadora de conflitos, comunicadora e empresária espero que a educação transforme a vida das pessoas como transformou a minha e de todas as mulheres que foram citadas até aqui.

Que o acesso à educação e ao trabalho não seja estereotipado pelo gênero e que tenhamos respeito a diversidade!

#BusqueSobreElas

Fonte:

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