Transtornos Mentais e Comportamentais sob a ótica cristã – Parte III

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Ophélia - John E. Millai
Ophélia - John E. Millai

Série Mal do Século XXI – Transtornos Mentais e Comportamentais sob a ótica cristã – Parte III

No capítulo anterior, descrevi as principais causas dos transtornos mentais e algumas de suas classificações segundo a APA. Neste capítulo nos atearemos ao aconselhamento e profilaxia.

Os Transtornos Mentais não são um fenômeno recente em nossa sociedade. Desde a antiguidade eles foram estudados e catalogados pelos estudiosos comportamentais deste mal, inclusive sob a ótica cristã.

“Se ao menos o Eterno não houvesse condenado o suicídio! Ó D’us! Ó D’us! Como se me afiguram fastidiosas, fúteis e vãs as coisas deste mundo”! (Shakespeare – Hamlet, ATO I CENA I)

O tratamento dos transtornos mentais pode ser um processo complexo, que se desenvolve melhor quando os profissionais envolvidos trabalham em equipe junto aos familiares.

O processo se inicia por uma avaliação física e psicológica. O passo seguinte é uso de psicofármacos, psicoterapia, e em alguns casos, a internação ou aplicação de eletroconvulsoterapia.

Durante muitos anos, antes mesmo dos tratamentos mais modernos, os pacientes psiquiátricos eram tratados com crueldade: eram chicoteados, passavam fome, eram acorrentados, queimados com ferro em brasa, mergulhados em água gelada e torturados de muitas outras formas, geralmente com a aprovação da Igreja.

Religiosos e leigos acreditavam que os castigos físicos podiam expulsar os demônios que estariam causando a doença.

Só no início do século XIX é que métodos de tratamento mais humanos foram propostos e utilizados primeiro na França e Inglaterra, e posteriormente no EUA.

O no Brasil a reforma psiquiátrica teve inicio nos anos 70, e muito é necessário ser construído no tocante aos direitos humanos nesta área. Com a formação do SUS, políticas públicas foram implementadas, mas continuam os resultados a passos lentos.

Os primeiros psiquiatras americanos, por exemplo, usavam o “tratamento moral” – uma terapia caracterizada por bondade, respeito, paciência e relacionamento significativos. Os terapeutas tratavam os pacientes como se eles fosse mentalmente são.

Esse tipo de tratamento acolhedor e humanizado, consistia na ressocialização utilizando a Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), a ludoterapia, psicomotricidade, terapia ocupacional (TO), musicoterapia, terapia industrial, e outras. Particularmente, atuo de forma humanista e comportamentalista.

O tratamento moral parece ter sido um divisor de água na história da saúde mental, mas acabou se perdendo na revolução tecnocrática e capitalismo moderno.

Por contas dessas mudanças contemporâneas e das caracterizações sociais vigentes, muitas destas técnicas morais estão fora dos consultórios e hospitais.

Ainda a comunidade e a igreja, dão passos tímidos em relação ao acolhimento e orientação aos portadores de algum tipo de sofrimento mental.

Um pastor ou líder pode ser uma ferramenta bastante útil na assistência e no processo de ressocialização.

Ela pode ser forte ponte de apoio tanto à família quanto ao dente. Com alternativas lúdicas e humanistas, a Igreja pode fornecer um ambiente de interação agradável e terapêutico.

O que a Igreja poderia fazer pelas famílias e paciente adoecidos psiquicamente?

  • Apoio

Grupo de apoio e orientação, sejam presenciais ou virtuais. Estes auxiliam e amparam os envolvidos no complexo nas revoltas, episódios de culpa, agressividade, isolamento social, e outras situações que requerem intervenção.

  • Educação

Muita gente não compreende nada de psicopatologias. A educação assume um papel extremamente importante nesse processo de orientação e direcionamento.
A Igreja pode prestar auxílios práticos e conselheiros que facilite a compreensão desse processo tão complexo e facilite a interação entre as partes sistemicamente envolvidas.

  • Aconselhamento

Em alguns casos, apoio e ensino não são o bastante, e os membros da família precisam de uma ajuda mais especializada para poderem lidar com as sensações de inutilidade, culpa, as preocupações e insegurança.
Como as vezes a pressão é esmagadora, os familiares do doente podem também apresentar sintomas de adoecimento emocional e gerar ciclo vicioso.
Aconselhamento familiar pode diminuir a tensão, renovar os ânimos, tornar as pessoas mais tolerantes, permitir que as emoções sejam postas para fora, tratar dos conflitos domésticos e ensinar os membros da família a tratar o doente corretamente.

  • Aconselhamento e suicídio

“Epidemia “pode soar clichê, mas descreve bem a realidade do suicídio atualmente. Eles têm aumentado entre crianças, presidiários, adultos jovens, e, principalmente, entre os adolescentes.
Os indícios sutis podem indicar pedido de socorro. Muitas vezes, a família e/ou os mais próximos não estão atentos a estes sintomas. O conselheiro pode de fato gentilmente, ouvir e orientar o aconselhando quanto a ideia do suicídio, acolhendo de forma humanizadora suas queixas e intenções.
Qualquer juízo de valor só acirrará mais o desejo. Algumas vezes o conselheiro poderá neutralizar a ideia do suicídio, mas se este estiver determinado, caberá entrar em contato com os familiares ou mesmo alguém mais próximo, com o médico ou centro de prevenção ao suicídio.
A comunicação deve ser feita sem infringir o sigilo. Por se tratar de um atentado a vida, todo acolhimento e cuidado devem ser considerados.
Logo, a comunicação aos responsáveis e aos órgãos de emergências e prevenção ao suicídio é de caráter ético e humanista.

Mas, e se este não puder ser evitado?

Muitas vezes o conselheiro e a família se sentem culpados pelo ocorrido. Os que ficam, contam que o experiencia do suicídio é doloroso e culposo. Tirar a própria vida, na conotação cristã é pecado.

Nosso consolo é que, biblicamente, todo pecado pode ser perdoado. Por isso compaixão, misericórdia e acolhimento são imprescindíveis aos que ficaram.

Saúde Mental e Comportamental – Como lidar a partir das mudanças sociais

Em meados da década de 60, as autoridades federais e especialistas em saúde mental iniciaram um ambicioso programa para acabar com os grandes hospitais psiquiátricos e transferir os pacientes para centros comunitários de tratamentos, mais humanos e acessíveis.

Apesar de criativo, o plano não deu tão certo! Os hospitais foram esvaziados, mas não houveram propostas interventivas, muito menos moradias, assistência no período da transição, nem mesmo orientação ou treinamento profissional para poder reintegrar os pacientes a sociedade.

Um número maior de pacientes acabou indo para as ruas, e, ao que parece, nós criamos uma nova classe de necessitados: os doentes mentais sem teto.

Apesar de tudo isso, algumas pesquisas trazem esperança na resposta a melhora dos pacientes sem claustros. Pesquisas apontam que cerca de 68% dos pacientes que saíram dos manicômios apresentaram algum tipo de melhora psíquica. (Hospital Estadual de Vermont – EUA, 1987).

Exposição Salvador Dali – Tomie Ohtake

Os pesquisadores concluíram que “contrariando as expectativas de piora e deterioração nos casos nos casos de esquizofrenia ou outras doenças psiquiátricas graves ou crônicas, percebeu-se que os sintomas podem ser minimizados com o tempo e o funcionamento social pode ser restaurado”.

Jesus afirmou, certa vez, que os pobres sempre estariam entre nós.

Talvez isso se enquadre aos portadores de necessidades especiais e transtornos mentais. Se o Evangelho alcança os ricos e “sãos”, os traz consolo e orientação; por que não aos indivíduos mentalmente perturbados?

Ajudar as pessoas que têm transtornos mentais e suas famílias é um dos maiores desafios do conselheiro cristão. Eles também são nosso próximo.

Meu desejo é que você, ao ser atravessado por este artigo, reflita e ressignifique a alternativa desse amor involuntário, independente de qualquer rotulação e estereótipo, e juntos, venhamos construir um mundo mais justo, digno e amoroso.

Em caso de Intenções Suicidas ligue: 188 – Centro de Valorização da Vida

CVV – 188Referência Bibliográfica

  • HARDING, C. M., BROOKS, G. W., ASHIKAGA, T., STRAUSS, J. S., & BREIER, A. (1987). The Vermont longitudinal study of persons with severe mental illness, I: Cadernos Brasileiros de Saúde Mental, ISSN 1984-2147, Florianópolis, v.9, n.21, p.01-16, 2017 16 Methodology, study sample, and overall status 32 years later. American Journal of Psychiatry, 144(6), 718-726.
  • https://www.cvv.org.br
  • BÍBLIA – Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.
  • Diagnostic and Statistical Manual of Mental disorders – DSM-5. 5th.ed. Washington: American Psychiatric Association, 2013. DSM-IV-TRTM – Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. trad. Cláudia Dornelles; – 4.ed. rev. – Porto Alegre: Artmed,2002.
  • CID-10 Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde. 10a rev. São Paulo: Universidade de São Paulo; 1997. vol.2. 6. Organização Mundial da Saúde.
  • Dalgalarrondo, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais – 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2008.
  • Colins, Gary R. Aconselhamento Cristão: ed. Século 21. Trad.: Lucília Marques Pereira da Silva. São Paulo: Vida Nova, 2004.
  • Shorter, E. (1997). Uma história da psiquiatria: da era do asilo à era do Prozac. Nova Iorque: John Wiley & Sons, Inc, p. 277.
  • Narramore, C. Psychology For Living Fall .2015. 57 No. 1

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