As Cores no Divã: a não cor preta importa!

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a não cor preta importa
As Cores no Divã - a não cor preta importa

O preto não é sempre depressão ou luto, pode ser apenas a escolha de um lugar seguro.

A não cor preta importa! É muito comum familiares me procurarem querendo ajuda terapêutica quando seus entes queridos, como crianças e principalmente os adolescentes começam a se envolver com certa intensidade com a não cor preta.

Seja ela usada nas roupas, na decoração do quarto ou simplesmente sendo o lápis ou giz de cera preferido a simples opção constante pelo preto parece sinalizar aos demais algum perigo iminente, levando todos a volta a se “pré-ocuparem”, mantendo a vigilância.

Me recordo de um caso em que aflita, uma mãe me solicitou ajuda para a filha, que até os 12 anos de idade adorava a cor rosa, utilizando em todos os objetos do seu quarto, e também em suas roupas.

Na perspectiva da arte terapia, esse excesso de rosa já seria preocupante, porém, era encarado com normalidade pela família. Sendo inclusive seu uso encorajado.

Quando a jovem completou 15 anos, começou a se desfazer de todos os itens rosa e adquiriu a predileção pelo preto. Gerando na mãe angústia que a fez ler, escondido (atitude esta aliás desaconselhável do ponto de vista terapêutico) o diário da filha, encontrando relatos dizendo que ela desejava sair para “bater cabeça”. A mãe interpretou, somado ao uso da cor preta, que a filha estava deprimida e pensava em se matar.

Durante as sessões de arte terapia, onde a mudança comportamental característica dessa fase, foi trabalhada a parir da mudança cromática que a jovem sinalizou, ficou evidente que o estado de alienação de si, muitas vezes característico do rosa, havia sido substituído pelo forte desejo de individualidade do preto.

Ela não queria morrer, queria se libertar. Por isso também a opção pelo heavy metal, que musicalmente concretiza a própria ideia subjetiva do preto e a gíria “bater cabeça”, a filha era uma headbanger e não uma suicida.

Afinal, por que a cor preta, ou como bem define a física essa ausência de cor, mexe tanto com nosso inconsciente? Essa não é uma pergunta fácil de responder. Para se aprofundar nessa temática, seria necessário um livro do tamanho da antiga Enciclopédia Barsa pela sua complexidade.

Não sendo meu objetivo com esse artigo, que pretende mais instigar e pincelar sobre o tema, ou melhor, pincelar sobre o preto, nos apropriando da denominação do senso comum, que ao contrário da física, o define como uma cor.

Assim, terapeuta que sou, testemunha dos efeitos da arte, da cromoterapia, da psicanálise proponho essa analogia ao movimento social, abrangendo a leitura e afirmando que sim, a não cor preta importa!

Então, antes de a tiranizarmos, vamos entender um pouco melhor sobre ela pensando em alguns contextos subjetivos:

Partindo da Gênese como ilustração, percebemos que as trevas, o preto, seria uma das primeiras formas de existência, já que dela se fez a luz. E vendo que a luz era boa, Deus a separou das trevas criando o dia e a noite.

E isso faz muito sentido. Segundo a teoria das cores, só enxergarmos determinada cor porque ela foi refletida pelo objeto comtemplado por nossa visão e todo o aparelho óptico.

Afinal, tudo é luz, vibração e comprimento de onda. Assim, ao vermos uma geladeira e a reconhecermos como vermelha, por exemplo, significa que a única cor que não foi absorvida pelo objeto foi justamente o vermelho.

No caso do preto, ele absorve toda a luz, por isso é considerado ausência de cor, pois o que reconhecemos não é algo que esteja sendo refletido, mas sim absorvido. Assim, quando na Gênese Deus diz que das trevas faça se a luz, seria como se dissesse ao preto para refletir ou a luz para sair.

Analisando o comportamento físico da cor, e entendendo o fato dela “engolir” a luz fica fácil supor porque o preto ganhou a má fama. Afinal, onde a luz há Deus, podemos enxergar melhor, e sem ela ficamos à mercê do desconhecido.

Assim, e não apenas por causa da bíblia obviamente, surgem alguns preconceitos: o preto na pele de alguns significa inferioridade e exclusão para outros.

Preto que em vestimentas é quase sempre estereotipado como a escolha de pessoas tímidas ou em estado de depressão, porém, nos vestidos das madames continua a significar elegância e discrição.

Cor que no desenho ou na pintura parece estimular a falta, faça o teste: desenhe em preto sobre o branco e quase sempre ouvirá alguém perguntar “não vai colorir?”. Preto que foi escolhido como cor para a morte, é o luto. Back to black, já dizia a talentosa Amy Winehouse.

A cor preta que sob o viés da religião interpreta o mal na eterna luta contra o bem, sempre branco ou dourado. Preto que fez dos gatos parceiros de bruxas demoníacas e vítimas das fogueiras na idade média. Preto Véio, que muitas vezes é entendido como um “encosto”, algo pejorativo já que os anjos quase sempre vestem azul.

Mas, se por um lado a luz nos permite discernir e enxergar, a escuridão nos permite sentir e questionar. Basta lembrarmos de quando por acaso precisamos achar algo no escuro, muitas vezes estamos entre objetos que já conhecemos, mas no escuro ficamos questionando o que eles seriam. E só temos certeza quando tocamos e sentimos.

Da mesma forma que um quarto iluminado parece ameaçador no escuro, por perdermos nossas referências, analogamente uma pessoa até então previsível se torna misteriosa ao usar muito preto. Ela passa a ideia inconsciente de que aquele terreno não é mais conhecido, sendo preciso mais que olhar, sentir.

E assim também é com nossa essência, o que vemos em nós, pensamos e sentimos tem que estar em harmonia. Quando essas forças encontram se em conflito, surgem transtornos.

Entendendo um pouco esse contexto subjetivo que eu trouxe até aqui, fica fácil perceber a razão pela qual essa cor impacta tanto o inconsciente.

Adolescentes que usam muito preto, nos dizem apenas que não querem mais ser o que esperam deles (fase ideal para isso) que não querem ser apenas objetos para refletirem a imagem e as expectativas alheias.

E para conhecer essa pessoa que se blinda com o preto, é necessário olhar mais de perto, e talvez seja por isso que uma das etimologias para o preto seja apretar, derivado regressivo e uma das antigas formas de dizer “de perto”.

O uso constante do preto, seja na arte ou nas vestimentas, etc., não significa necessariamente (entendendo a singularidade de cada caso) que a pessoa queira distância, que deprimiu ou que não goste mais da própria vida.

As vezes o preto é o único lugar seguro que ela encontra para manter dentro de si a própria luz, sem ser invadida pelo outro, quando fisicamente isso não é possível.

Não é incomum em casos clínicos, que a maioria dos adolescentes adeptos do preto tenham em seu ambiente familiar ou social figuras de autoridade invasivas, e que diante da impotência em se colocar limites concretos e reais, usam inconscientemente essa não cor para demarcar alguma individualidade.

Assim, ao se incomodar com seu filho (a) vestindo luto, se questione primeiro qual o real espaço que você permite a ele(a) antes de querer buscar algum diagnóstico.

Na terapia artística, o preto é amplamente trabalhado para casos em que o ancoramento a realidade ou o confronto com traumas se mostra necessário, ou no auxílio das personalidades mais egocêntricas.

Ele atua com efeito limitador e também como pausa entre as cores frias de contração e as cores quentes de expansão. Como a inspiração e a expiração.

A exemplo do exercício físico em que cada sequência trabalhará especificadamente um grupo muscular, na terapia artística, os objetivos do tratamento são direcionados a partir dos sintomas e então escolhidas as cores, materiais e a forma de execução.

Proporcionando um equilíbrio entre aquilo que desejamos, bloqueamos e projetamos inconscientemente e o que percebemos e aceitamos conscientemente.

E essas são apenas algumas das aplicações dessa não cor, seguindo não apenas a teoria das cores de Goethe, cromoterapia e os fundamentos da terapia artística antroposófica que contribuem muito para a saúde e autoconhecimento.

Assim, não podemos enquadrar as cores em determinismos. Não existem cores para meninas ou meninos, cores para o bem ou para o mal.

As cores representam as muitas possibilidades para aquilo que precisamos absorver ou que devemos refletir. Devemos aprender a nos beneficiar de todas elas, usando o estímulo correto para cada situação que precisarmos.

E nos lembremos sempre que mesmo no preto existe a luz, apenas não podemos vê-la. E então, qual é a sua cor preferida? Já pensou o que ela está representando de você? Ou, qual será a cor que anda faltando em sua vida para que se sinta melhor? Comente!

Imagem de destaque: Hebi B. por Pixabay

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