Como a síndrome de burnout quase destruiu minha vida e me mostrou que sucesso nunca pode custar a própria saúde
Burnout: o dia em que meu corpo disse “não” começou muito antes do choro que me afastou do trabalho. A síndrome de burnout foi sendo construída silenciosamente entre noites mal dormidas, excesso de responsabilidades e a falsa crença de que dar conta de tudo era uma virtude.
Há quase um ano, meu corpo fez uma escolha que eu vinha adiando havia muito tempo: ele disse “não”.
Naquele momento, pensei que estava perdendo a vida que havia construído. Hoje entendo que estava recuperando a mulher que existia antes dela.
Tenho 43 anos. Sou psicóloga, sanitarista, terapeuta de casais e relacionamentos, especialista em Sexologia, palestrante e servidora pública.
Sempre amei cuidar de pessoas.
Escolhi profissões que me permitiam proteger, orientar, acolher e transformar vidas. O trabalho nunca foi um problema. O problema foi quando ele deixou de ser apenas uma parte da minha existência e passou a definir quem eu era.
Durante anos eu não vivi.
Eu sobrevivi.
Vivia ligada no 220 volts. WhatsApp, e-mails e telefone permaneciam ligados. Eu também. Sempre pronta. Sempre disponível. Sempre produtiva.
Fui criada, como tantas mulheres da minha geração, acreditando que cansaço era quase um elogio. Ser forte parecia obrigação. Descansar provocava culpa. Dizer “não” parecia egoísmo.
Sem perceber, comecei a medir meu valor pela quantidade de tarefas que conseguia cumprir.
Enquanto eu insistia em acelerar, meu corpo desacelerava por mim.
Vieram a insônia, a hipertensão, a resistência à insulina, o ganho de peso, o cortisol elevado e uma crise intensa de psoríase que tomou minha pele.
Costumo dizer que meu sistema simplesmente “bugou”.
Hoje compreendo que ele não falhou.
Ele tentou me salvar.
Mesmo diante de tantos sinais, continuei acreditando que bastava suportar mais um pouco. Afinal, quem trabalha muito costuma ser admirado. Quem responde mensagens a qualquer hora parece comprometido. Quem nunca para é visto como exemplo.
Mas existe um preço para viver assim.
E eu o paguei.
Até que chegou o dia em que meu corpo disse “não”.
Entrei em um choro incontrolável. Senti um pânico que jamais havia experimentado. Pela primeira vez compreendi que eu não precisava ser mais forte.
Precisava ser cuidada.
Começou então uma longa caminhada para reconstruir minha saúde mental e também minha saúde física.
Psiquiatra, psicólogo, dermatologista, endocrinologista, cardiologista, ginecologista, nutricionista e educador físico passaram a fazer parte da minha rotina.
Ao lado deles, encontrei outro alicerce indispensável: minha fé.
Ela não substituiu a ciência.
Ela caminhou junto dela.
Foi a fé que sustentou minha esperança quando eu ainda não conseguia enxergar a saída.
Receber a licença médica deveria significar descanso.
Não significou.
Meu corpo havia parado.
Minha mente continuava trabalhando.
Foi então que descobri uma verdade que nunca aprendi na universidade: é possível sair do trabalho sem que o trabalho saia de nós.
Na terapia comecei a entender que meu cérebro havia aprendido a viver em estado permanente de alerta.
Também descobri algo que transformou completamente minha maneira de enxergar a vida.
Produtividade não é identidade.
Vulnerabilidade não é fraqueza.
Pedir ajuda é coragem.
Passei anos brigando contra o meu corpo.
Hoje sei que ele foi o primeiro a perceber que eu precisava de ajuda.
A recuperação aconteceu devagar.
Nas consultas.
Nas conversas.
Nos silêncios.
Nas lágrimas.
E, principalmente, nas pequenas experiências que voltei a permitir.
Sentei na praça em frente à minha casa apenas para ouvir os pássaros.
Fui ao centro de ônibus para observar pessoas.
Passei a ir à academia porque descobri prazer em cuidar de mim, e não apenas obrigação em emagrecer.
Até uma ida à manicure ganhou um novo significado quando deixei de transformar aquele tempo em mais uma oportunidade para trabalhar.
Redescobri meus filhos.
Meu marido.
Minha mãe.
Redescobri a mim mesma.
Descobri que felicidade não mora nas grandes conquistas.
Ela mora nas pequenas pausas que durante tantos anos eu ignorei.
Como psicóloga, continuo atendendo pessoas que acreditam precisar dar conta de tudo.
Como paciente, aprendi que ninguém consegue cuidar verdadeiramente do outro quando abandona a si mesmo.
Hoje continuo apaixonada pelo meu trabalho.
Mas ele voltou ao lugar que sempre deveria ocupar: importante, porém não absoluto.
Ainda faço terapia.
Ainda vou às consultas médicas.
Ainda preciso me lembrar, em alguns dias, de desacelerar.
A recuperação não acontece em linha reta.
Mas existe uma diferença fundamental.
Hoje eu escuto meu corpo.
Antes, eu o silenciava.
A síndrome de burnout mudou minha vida, mas não levou embora aquilo que havia de mais importante em mim.
Ao contrário.
Ela me devolveu meu propósito.
Se você chegou até aqui, talvez tenha reconhecido um pouco da sua própria história.
Talvez esteja cansada.
Talvez acredite que basta suportar mais um pouco.
Eu também pensei assim.
Por isso, quero lhe dizer algo que gostaria de ter ouvido antes: não espere o seu corpo gritar.
Escute os sussurros.
A insônia persistente.
O cansaço que não passa.
A culpa por descansar.
A sensação de que nunca é suficiente.
Existe um ditado popular que me acompanhou durante toda essa caminhada:
“O velório acaba se o defunto levanta.”
Durante muito tempo achei essa frase engraçada.
Hoje acho profundamente verdadeira.
Porque eu levantei.
Não voltei a ser quem era.
Voltei diferente.
Mais consciente.
Mais leve.
Mais humana.
Naquele dia, pensei que estava perdendo a vida que havia construído.
Hoje percebo que estava recuperando a mulher que existia antes dela.
Porque sucesso não é viver ocupada.
Sucesso é viver inteira.
E descobri, finalmente, que chique mesmo é ter saúde.
Renata Adriane Rodrigues
Psicóloga (CRP 04/26368), terapeuta de casais e relacionamentos, especialista em Sexologia, sanitarista, palestrante e servidora pública.
Acredito que cuidar da saúde mental é um compromisso de amor consigo mesmo e também com as pessoas que caminham ao nosso lado.
Se você se identificou com esta história…
A síndrome de burnout não é frescura, falta de fé ou incapacidade. É uma condição séria relacionada ao trabalho, que pode comprometer a saúde física, emocional e os relacionamentos. Se você percebe sinais persistentes de esgotamento, procure ajuda profissional. Cuidar de si não é egoísmo. É um compromisso com a própria vida e também com aqueles que você ama.
FAQ – Perguntas Frequentes
- O que é burnout?
O burnout é uma síndrome relacionada ao estresse crônico no trabalho, caracterizada por exaustão física e emocional, distanciamento das atividades profissionais e redução da sensação de realização. - Burnout é considerado uma doença?
A síndrome de burnout é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) na CID-11 como um fenômeno ocupacional relacionado ao trabalho e requer avaliação e acompanhamento adequados. - Quais são os primeiros sintomas do burnout?
Os sinais mais comuns incluem cansaço persistente, insônia, irritabilidade, ansiedade, dificuldade de concentração, perda de motivação e sensação constante de esgotamento. - O burnout pode provocar sintomas físicos?
Sim. O estresse crônico pode contribuir para alterações na pressão arterial, fadiga intensa, dores musculares, problemas gastrointestinais e agravamento de doenças pré-existentes. - Quem apresenta maior risco de desenvolver burnout?
Profissionais submetidos a excesso de responsabilidades, jornadas prolongadas, pressão constante, conflitos interpessoais e ambientes de trabalho pouco saudáveis. - Mulheres desenvolvem burnout com mais frequência?
Diversos estudos apontam que a sobrecarga decorrente da conciliação entre trabalho, responsabilidades familiares e demandas sociais pode aumentar a vulnerabilidade de muitas mulheres ao burnout. - Como é feito o tratamento?
O tratamento pode envolver psicoterapia, acompanhamento médico, atividade física, mudanças na rotina, ajustes no ambiente de trabalho e, quando necessário, uso de medicamentos prescritos por profissionais habilitados. - É possível voltar ao trabalho após o burnout?
Sim. A recuperação é possível, desde que respeite o tempo de cada pessoa e inclua mudanças que reduzam os fatores que contribuíram para o adoecimento. - A espiritualidade pode ajudar na recuperação?
Para muitas pessoas, sim. A espiritualidade pode fortalecer a esperança, oferecer sentido ao sofrimento e complementar o cuidado profissional, sem substituí-lo. - Como saber se é hora de procurar ajuda?
Quando o cansaço deixa de melhorar com descanso, surgem alterações persistentes no sono, ansiedade, irritabilidade, dificuldade de concentração, perda de prazer nas atividades ou sintomas físicos relacionados ao estresse, é importante procurar avaliação profissional. Quanto mais cedo o cuidado começa, maiores são as chances de recuperação. - Qual é a principal mensagem desta reportagem?
Que cuidar da própria saúde não é egoísmo. É uma condição indispensável para viver com equilíbrio, preservar relacionamentos e cuidar verdadeiramente das pessoas que amamos.
Referências
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Internacional de Doenças – CID-11.
- Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Saúde Mental e Bem-Estar.
- Ministério da Saúde (Brasil). Saúde Mental.
- Conselho Federal de Psicologia (CFP). Materiais sobre saúde mental e trabalho.
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