Da memória afetiva à responsabilidade jurídica, uma reflexão sobre a presença paterna, o abandono, as escolhas afetivas e o legado que permanece além da ausência
Legado de um Pai, revela como a presença paterna constrói memórias enquanto o abandono deixa marcas profundas por gerações.
O Ouro, o Caminho Escuro e a Cadeira Vazia: o custo da ausência e a responsabilidade da escolha.
Toda vez que minha mãe dava à luz, meu pai a presenteava com uma peça de ouro e fazia questão de levar uma generosa oferta de gratidão à igreja. Para a nossa família, filhos sempre foram verdadeiros presentes divinos.
Reza a lenda que, no meu primeiro banho, colocaram na bacia todo o ouro que havia em casa e me banharam com aquela água. Modéstia à parte, eu era profundamente amada.
Mas meu pai queria um menino, o tal do Leandro. E não, não era o da dupla sertaneja. Como eu já nasci invocada, decidi provar que poderia ser tão boa quanto, ou até melhor do que, qualquer garoto. Se a caminhonete quebrava, lá estava eu ao lado dele, nem que fosse apenas para alcançar uma chave de fenda.
Essa lembrança é o portal para a nossa conversa neste agosto, mês em que celebramos os pais.
Para mim, meu pai era um super-herói. Lembro-me de quantas vezes, mesmo enfrentando crises de cálculo renal, ele permanecia agachado perto do ponto de ônibus, esperando que eu chegasse, à noite, do CEFET. Fazia questão de me acompanhar a pé até em casa porque o caminho era escuro.
Há quase nove meses, esse super-herói partiu. Desde então, a escuridão daquele caminho ganhou outro significado. Foi depois da morte de Luiz Carlos Salles que compreendi, com dolorosa clareza, que ele foi o meu primeiro, único e verdadeiro amor.
Hoje, como advogada atuante no Direito de Família, vejo o comércio celebrar a figura paterna enquanto tantas famílias encaram justamente o contrário: a cadeira vazia, a pensão que não é paga, a visita prometida e esquecida, o abraço que nunca veio.
Existe a ausência provocada pela morte, contra a qual ninguém pode lutar. Existe também a ausência resultante de uma escolha, praticada por quem está vivo, mas decide não estar presente.
Quando uma mulher chega ao meu escritório trazendo uma história assim, eu não a escuto apenas como advogada. Eu sei, na pele, o que ela enfrenta. Fui casada duas vezes e, nos dois casamentos, vivi a omissão paterna. Fui mãe solo e não tive rede de apoio.
Para oferecer aos meus quatro filhos, minhas três meninas e meu único menino, a vida que eu desejava para eles, passei noites acordada, sacrifiquei o sono, estudei, emendei especializações e trabalhei até a exaustão.
A mulher aprende a multiplicar o tempo, o dinheiro e as próprias forças. Torna-se mãe, provedora, educadora e abrigo emocional. Mas nenhuma pessoa consegue exercer, sozinha e perfeitamente, todas as funções que deveriam ser compartilhadas. Por mais que uma mãe se desdobre, a ausência paterna não desaparece apenas porque ela trabalhou dobrado.
O perigo dos relacionamentos descartáveis
Diante de tudo o que vivi, preciso fazer um alerta especialmente às jovens mulheres que leem esta coluna do Portal aEmpreendedora.
Vivemos a era dos relacionamentos rasos, rápidos e descartáveis. É uma espécie de cultura do love and end. Começa intensamente, termina repentinamente e, entre uma coisa e outra, quase ninguém se pergunta se existe caráter, compromisso ou responsabilidade.
Muitas mulheres ingressam em relações íntimas antes de saber se aquele homem possui princípios, estrutura emocional ou o menor desejo de exercer uma paternidade responsável caso uma gravidez aconteça.
A medicina avançou, mas nenhum método contraceptivo oferece proteção absoluta. Eu mesma conheci essa margem de falha. Minha filha caçula contrariou as probabilidades médicas e nasceu, como costumamos brincar em família, “com o DIU na mão”.
Se nenhum método elimina completamente a possibilidade de uma gravidez, a consciência precisa anteceder a intimidade. Isso não significa responsabilizar a mulher pela omissão masculina. O homem que abandona um filho responde pela própria escolha. Significa apenas reconhecer que nossas decisões afetivas podem produzir consequências permanentes.
É nesse contexto que defendo, sem medo de parecer antiquada, o celibato voluntário e a castidade como escolhas legítimas de inteligência, maturidade e autoproteção.
Escolher esperar, preservar o próprio corpo e não aceitar migalhas afetivas não representa atraso. Em uma sociedade que transforma intimidade em consumo e pessoas em experiências descartáveis, estabelecer limites pode ser um ato revolucionário de liberdade.
Não é possível prever completamente o comportamento de alguém. Pessoas enganam e promessas são quebradas. Mas é possível observar como um homem trata a própria família, reage às frustrações, cumpre compromissos e se comporta quando ninguém está olhando.
O amor pode até começar com palavras. A confiança precisa ser construída com atitudes.
Quando a ausência se torna violação de direitos
Dados divulgados pelo Conselho Nacional de Justiça revelaram que, entre janeiro de 2016 e julho de 2024, mais de 1,2 milhão de crianças foram registradas no Brasil sem o nome do pai. Esses números não mostram toda a realidade. Ter um nome na certidão não significa contar com presença, convivência e cuidado.
A omissão paterna pode violar diferentes deveres. O abandono material está relacionado à falta injustificada de assistência à subsistência do filho. O abandono intelectual decorre do descumprimento do dever de assegurar sua instrução. O abandono afetivo se manifesta na negligência em relação ao cuidado, à convivência, à orientação e à assistência emocional.
A ausência não produz consequências idênticas em todas as crianças. Cada filho possui sua história e sua rede afetiva. Entretanto, a rejeição e a imprevisibilidade podem repercutir na autoestima, no sentimento de segurança e na construção dos vínculos futuros.
Algumas crianças externalizam o sofrimento. Outras o silenciam e crescem buscando respostas para uma pergunta que jamais deveriam precisar fazer: “Por que meu pai não quis ficar?”
Durante muito tempo, o Direito tratou essa dor como uma questão pertencente apenas ao campo da moral e da intimidade familiar. Essa compreensão mudou.
A jurisprudência brasileira consolidou uma frase que simboliza essa evolução: “amar é faculdade, cuidar é dever.”
Em 2025, a Lei nº 15.240 alterou o Estatuto da Criança e do Adolescente para reconhecer a assistência afetiva como dever dos pais e caracterizar o abandono afetivo como ilícito civil.
Isso não significa que qualquer afastamento gere automaticamente uma indenização. Cada caso exige a análise da conduta, do dano e da relação entre a omissão e o prejuízo sofrido. O Direito não pode obrigar ninguém a amar, mas pode responsabilizar quem, tendo o dever jurídico de cuidar, escolhe negligenciá-lo e causa danos.
Aos pais que escolheram permanecer
Uma matéria sobre ausência também precisa reconhecer, com justiça, aqueles que escolheram ficar.
Existem pais que, mesmo enfrentando separações difíceis e longas disputas judiciais, continuam lutando para participar da vida dos filhos. São homens que não confundem o fim do relacionamento com o fim da paternidade. Eles compreendem que podem deixar de ser maridos, mas jamais deixarão de ser pais.
Esses pais cumprem o dever de sustento, mas sabem que paternidade não se resume ao pagamento da pensão. Querem estar presentes na escola, nas consultas, nas decisões importantes e nos pequenos acontecimentos cotidianos. Alguns recorrem ao Judiciário não para vencer uma disputa contra a mãe, mas para não perder a infância dos próprios filhos.
A esses pais, o meu respeito e o meu aplauso.
Pai responsável é aquele que protege o filho do conflito entre os adultos, em vez de utilizá-lo como instrumento. É aquele que permanece quando a relação termina e luta para que o seu lugar na vida da criança não seja substituído por uma cadeira vazia.
O verdadeiro legado
O Estado pode fixar alimentos, aplicar sanções e determinar reparações. Mas nenhuma sentença consegue fabricar o abraço que não foi dado, a conversa que não aconteceu ou a segurança que faltou durante o caminho.
Por isso, insisto: mulheres, empreendam, estudem, construam suas carreiras e busquem independência. Mas sejam igualmente criteriosas na vida afetiva. Protejam o futuro que ainda não chegou e sejam rigorosas com quem terá acesso à sua história, ao seu corpo e à possibilidade de se tornar parte permanente da vida de um filho.
Aos filhos órfãos de pais vivos, deixo um acalento. A rejeição humana não determina o valor de ninguém e não precisa escrever o último capítulo de uma história.
Para muitos de nós, a fé e a espiritualidade são o porto seguro que nos recorda a existência de um amor maior e paternal. Um amor que acolhe, restaura as cicatrizes da rejeição e nos ensina que ainda somos capazes de oferecer e receber afeto de maneira saudável.
Neste agosto, encerro esta coluna prestando honras ao homem que me ensinou o significado da proteção, mesmo quando eu acreditava que precisava provar que poderia ser melhor do que um menino.
Obrigada, Luiz Carlos Salles.
Você me esperou no ponto de ônibus, na escuridão da rua, para que hoje eu pudesse usar a minha voz, a minha história e o Direito para iluminar o caminho de tantas outras mulheres.
Priscila Salles – OAB/PR 73560
Advogada com atuação em Direito Empresarial, contratos, franchising e proteção de dados. Atua na assessoria jurídica de empresas, com foco em governança, segurança jurídica e prevenção de riscos.
Entre em contato para mais informações pelo Instagram: @priscila_salles73560
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