A história de um cão que encontrou em outro lar o reconhecimento que lhe faltava e nos ensina uma importante lição sobre valorização, respeito e relações profissionais
Macchiato encontrou em outro lar o respeito que lhe faltava, mostrando que mudar de ambiente pode ser uma escolha legítima por felicidade.
Nos últimos anos, por motivos familiares, deixei de morar em um apartamento no centro da cidade e vivo numa chácara, próxima a uma represa, com muito verde ao redor.
No espaço em que vivo, temos muitas aves que visitam nosso pomar: muitos jacus ficam no abacateiro esperando que as frutas amadureçam para serem comidas e também comem coquinhos das palmeiras; serelepes escalam as árvores em busca de pinhões; tucanos aparecem anualmente para se alimentar; galinhas felizes são criadas soltas; e também temos cachorros para fins de guarda e companhia.
Com a possibilidade e o privilégio que tenho de viver junto à natureza, tenho observado a rotina de aves e animais e tentado compreender o que motiva suas ações, que, na maioria das vezes, são repetitivas e fazem parte da forma natural como vivem.
Nem sempre os comportamentos são previsíveis, e é sobre um desses casos que quero falar.
Há cerca de cinco anos, dois dos nossos cães tiveram uma ninhada de cachorrinhos, aqueles famosos da raça caramelo, os ditos vira-latas, como tradicionalmente são conhecidos.
Dessa ninhada, ficou conosco um macho que recebeu o nome de Macchiato. Os pais, Marmelo e Marmela, continuaram conosco também, até a mãe perecer de velhice.
O pequeno cresceu com todo o cuidado necessário: vacinas, comida e brincadeiras. Porém, era muito infeliz. Por ser macho como o pai, sofria nas garras paternas. Sempre que recebia atenção, era atacado pelo pai; precisava esperar para comer, dormia em condições piores e ficava sempre em segundo plano.
Para completar, foi participar de um encontro entre machos e fêmeas nas redondezas e voltou muito machucado. Cremos que tenha perdido seus testículos numa briga. Acudimos e tratamos dele, mas, mesmo assim, suas relações com o pai continuavam as mesmas; ele continuava sendo infeliz.
Certo dia, o pai desapareceu. Descobrimos que havia morrido atropelado e, embora tenhamos lamentado, Macchiato passou a ser um cão feliz. Finalmente, era o dono do terreno. Assim se passaram alguns anos, quando, de repente, houve uma grande mudança.
Nossa filha mais velha, que mora no exterior, veio com a família passar uns tempos conosco e trouxe sua companheira, uma cachorra poodle gigante muito linda, adestrada para ser um cão de apoio emocional. Ela passou a receber muita atenção, a dormir dentro de casa e a ser muito bem tratada. Macchiato quis fazer amizade com a nova residente canina, mas não teve muito espaço.
Como no estereótipo associado aos poodles, Hilde é uma lady. Ela é maior, impõe respeito e, por ser hóspede, passou a ter regalias que ele não tinha. Assim, a infelicidade dele voltou.
Certo dia, fui procurá-lo no quintal para dar comida. Chamei muitas vezes, mas ele não apareceu.
Procuramos na represa, nos galinheiros, enfim, em toda a chácara, mas nada de ele aparecer. Perguntei aos vizinhos se tinham visto meu cachorro, e ninguém sabia dele. Eu já estava achando que o pior tinha acontecido quando uma das pessoas que trabalham conosco chegou e disse: “Sabem que eu vi o Macchiato na chácara vizinha daqui”.
Ficamos muito felizes, e meu marido e um dos nossos netos foram buscá-lo. Chamaram por ele no portão da chácara vizinha, mas ele nem se dignou a dar o ar de sua graça.

Houve várias tentativas de resgate, mas ele nunca se deixou pegar. Olhava para seus antigos donos com certo descaso e saía do local, fingindo que não nos conhecia. Com a pulga atrás da orelha, fui investigar o que havia acontecido.
Descobrimos que ele já havia tentado se instalar na nova residência, porém havia um macho que dominava. Quando esse macho morreu, Macchiato ficou esperto e assumiu o seu lugar. Ele é o único macho, é mais velho e conhece todo o terreno e os arredores, além dos habitantes. É um cachorro vistoso e simpático, pois muitas vezes tem uma expressão facial que pode ser interpretada como um sorriso. Em troca de sua beleza e simpatia, exerce realmente o papel de guardião: pode entrar na casa e é muito bem tratado, apesar de seu problema físico.
Às vezes, quando passa na rua em frente ao nosso portão, eu o chamo, mas ele nem olha para mim; passa como se nem me reconhecesse.
Num primeiro momento, pensei nele como um traidor, um ingrato. Fiquei até meio pesarosa quando meu marido levou a cama, as cobertas e a ração do Macchiato para a casa da vizinha, e ele fingiu não nos conhecer. Passado algum tempo, refletindo melhor, creio que ele foi buscar um novo espaço onde pudesse ser reconhecido por suas qualidades e onde pudesse ser feliz.
Pensando nas relações de trabalho ou mesmo nas relações domésticas, muitas vezes é isso que acontece com as pessoas.
Dar o melhor de si na empresa, esforçar-se, procurar contribuir sem medir esforços e acreditar nos propósitos dela não são garantias de sucesso nem de reconhecimento. Quando menos se espera, as pessoas são substituídas por alguém que acaba de chegar.
Todo o conhecimento e toda a contribuição para que a empresa seja bem-sucedida e cumpra realmente sua função são rapidamente esquecidos. Quando uma pessoa que está na empresa há muitos anos muda para outro local de trabalho, é taxada de insensível, ingrata, aproveitadora e, algumas vezes, até de traidora.
Muitos empreendimentos não têm sucesso por não darem espaço aos que sabem, aos que conhecem a área e aos que atuam de forma silenciosa e eficiente.
Tomando o exemplo de Macchiato, que foi infeliz e que, ao conhecer outra forma de reconhecimento em outro local, passou a cumprir muito bem seu papel, creio que o mesmo acontece com as pessoas.
Se, no momento em que não há o devido respeito por seu conhecimento e dedicação, as pessoas decidirem mudar, assim como fez Macchiato, não deverão ser taxadas de traidoras, mas de corajosas por irem atrás do reconhecimento que merecem.
Mudar de ares não significa traição; significa trilhar novos caminhos para ser feliz.