Marcha sem fim

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Começou com Adão e Eva, e olha que por aqui nem acreditamos em contos de fadas. Você sabe, aquela história do pecado original. Eva ofereceu a maçã para Adão, que inocentemente, aceitou. Foi o princípio do fim. Uma vez degustado o fruto proibido, abriram-se as porteiras do inferno. Adão nem sequer estava devendo quatorze meses de aluguel quando Deus, o Grande Senhor Barriga do Universo, expulsou o casalzinho de sua celestial propriedade. E a culpa foi da Eva.

Culpa que nasce junto do sagrado feminino. Em um momento somos a luz em outro – logo depois – somos a escuridão que passa a ser chamada de punição. Culpa que acompanha, que alimenta, que pejorativamente impulsiona suas “fraquezas” diante do mundo débil e retrógrado que vivemos.

No decorrer da história da humanidade, as mulheres sempre pagaram o pato (pato caçado pelos homens enquanto elas ficavam em casa cuidando da prole, que fique bem claro). Não importa o lugar, não importa a cultura, em algum momento da história o único direito que coube às mulheres foi o de ficarem caladas.

Tentaram e conseguiram nos emudecer: foi com a mão; foi com o olhar; foi com uma faixa invisível. Mas conseguimos gritar e algumas outras ouviram e saímos em marcha buscando a verdade, a igualdade não em ser forte tanto quanto o sexo oposto, mas a igualdade de também porque não ser forte e sim ter opinião, representatividade.

Empoderar-se virou sinônimo de mulher, mas também é de direito do negro que é morto sem motivo, do gay que é perseguido, do trans que é mal compreendido. Quem é? Como são? O que fazem? Por favor, deixem-nos dizer uma coisa: “Faço o que eu quero e nem por isso você deve me julgar, ok?!”. Só que não.

Me estupram e me colocaram contra parede. Fui às ruas assim como as canadenses, precursoras de um movimento que da voz às mulheres. A Marcha das Vadias marca e diz em alto e bom som: mulheres estupradas por usarem roupas provocantes não são culpadas. Não são. Sem mais, meritíssimo.

Marchas desse tipo, por mais que estejam “gritando o óbvio”, são de extrema importância. O mundo é como é porque as pessoas se recusam a respeitar o que deveria ser evidente. As mulheres sofreram muito. A história é contada pelos homens, e convenhamos, as coisas poderiam ter sido melhores.

Mulheres queimadas na fogueira. Bruxas. Feministas tendo que gritar por direitos iguais. O mito do sexo frágil. A humanidade tem uma dívida monstruosa com as mulheres.

Mas não é fácil mudar isso porque tudo que é degradante costuma se esconder atrás de uma cortina chamada hipocrisia. O racismo. A discriminação. A homofobia. A xenofobia. E o machismo, é claro – que não compete somente aos homens. A busca pelos direitos de um grupo invariavelmente ataca e ressalta outros preconceitos que estão longe de serem ultrapassados.

A luta é árdua e não é somente por nós e sim por todos que estão diante do jogo da vida. Bem se sabe que em um tabuleiro de xadrez a peça principal é o rei, mas a rainha é a peça mais forte. E antes que a louça acumule novamente (nossa tarefa óbvia) finalizo com um utópico bilhetinho para um velho amigo:

Querido Sig,
Você ainda acha que as mulheres têm inveja do pênis?.

 

A Empreendedora

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