Mulher, esse ser misterioso…

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Ruiva

Idade média – Outros Costumes.

Nos idos anos, por volta de 1.300 D.C, aconteceram muitas coisas na face da terra. Numa floresta muito distante, fora de controle, habitava uma família só, que contava em centenas de irmãos, primos e seus incestos.

O patriarca da família que havia desaparecido há muito tempo determinara que não aceitaria mistura de outra raça e que à sua ordem, se uniriam em matrimônio, irmãos distantes, filhos seus com muitas mulheres, se casariam com filhas que seriam irmãs pela metade de seus filhos.

Nasciam assim uma raça diversa, que casariam desde então primos, e netos, do mesmo sangue, não sentindo pecado nesse ato. Todos sabiam a sua origem, porém ninguém questionava a ordem recebida desde então.

Séculos se passaram, até que alguns recém-nascidos questionavam o incestuoso ato, o que eram reprimidos e até castigados.

Alguns fugiam, saindo da floresta, pelo portal que ficava sempre aberto. Não queriam cometer o mesmo crime, mesmo porque, o criador dessa ordem havia saído e desaparecido há mais de cinco séculos.

Os que ficavam não iam atrás dos que fugiam, pois achavam que saindo da floresta morreriam.

Achavam que fora da floresta não haveria como se alimentar ou saciar sua fome de sexo, que era vital para a sua sobrevivência, manter a longevidade. Crença essa que também fora criada pelo desaparecido patriarca.

Fugiu nessa época, um espécime masculino, reluzente, pele hidratada, tez máscula, cabelos longos e lisos, na cor castanho escuro, olhos negros como a noite, porte atlético, nu como era o costume do local.

Saiu somente com um punhado de sobrevivência e uma pedra lascada que servia de faca para atos emergenciais. Teria que buscar alimentos pelo caminho, desbravando a mata densa, floresta a dentro.

Depois de muitas luas, encontrou uma clareira, em muitos momentos subia em árvores altas para se proteger de possíveis perigos, buscar visão do local à sua volta, medir a hora pelo movimento solar.

Numa dessas observações do alto, avistou a clareira e curioso, esperou pela noite para pesquisar o que encontraria naquela terra pelada de mato.

Encontrou um lago, percebendo que estava com muita sede entrou e sorveu a água pura, tomando banho ao mesmo tempo. Estava sujo de terra e se sentia seco. A pele reluzente estava opaca.

Quando do meio do nada apareceu uma mulher, roupagem de couro, tirado de animais, vedando as partes mais íntimas, uma lança à mão, sem imaginar de onde saíra aquele príncipe de ébano.

Ora admirando, ora curiosa, porém sem medo, se aproximou da criatura, quando este sentindo presença, se virou ao mesmo tempo que se levantou mostrando tudo que tinha de mais precioso.

A amazona assustada com o poder daquele homem, à guisa de captura-lo para si, levantou a lança ameaçadoramente, mandando que a criatura se curvasse diante dela, o que ele não entendeu, pois de onde vinha, o macho tinha prioridade à fêmea.

Ele, sorrateiro, porém sem antes tomar cuidado em observar a distância da lança, aproximou-se dela, mostrando não ser ameaçador.

Ela, já se sentindo a dona, mostrou autoridade, rosnando alto como uma pantera, cabelos ruivos e olhos verdes feito esmeralda, corpo esguio e curvas marcantes, vinha também na mesma direção aproximando-se mais.

Já próximos um do outro, ela abaixou a lança como que em transe, submetendo-se ao macho alfa que ao inalar o odor adocicado da fêmea, já sentindo que esse era seu destino, que tinha chegado onde um sentido íntimo o chamava, nas noites de lua cheia, uivou longamente, voltando-se para o alto, onde majestosamente brilhava, a gigante e iluminada guia de suas noites, como que agradecendo o presente enviado.

Ela rendida, abaixou-se ficando de joelhos à frente daquele monumento que nunca antes havia visto. Maravilhada.

Assim, cumpria o destino dos dois, que se sentindo unidos pelo destino, se juntaram criando sua casta.

Na vila onde ela morava, tinham muitas mulheres, e de pouco a pouco, como que seguindo seu instinto, alguns parentes dele vinham e escolhiam uma delas para formar família.

Criando desta forma, uma vila só deles, porém sem proibições ou exigências, eram livres, vivendo em harmonia.

Nasceram alguns filhos, deste casal, e passados dois séculos desse encontro, já havia progresso entre eles, que livres, buscavam fora de seu habitat conhecer mais, aprimorar mais, aprendendo a ler e escrever.

No ano de 2000, ninguém dizia que naquele local antes moravam pessoas tão primitivas que se confundiam com homens da caverna.

Ronaldo, um brasileiro, estudioso de lendas e contos, ficção ou história real, saiu para desbravar a mata e encontrar esses nativos primitivos que muito falavam as histórias de sua avó, que ouviu de sua avó que ouviu de sua avó, e assim ele que tinha no seu íntimo, uma curiosidade ferrenha de saber a verdade.

Fez um mapa a partir do que sua avó contava, traçando milimetricamente para não se perder nas longínquas montanhas de neve e de florestas densas que realmente existia no Mapa-mundi.

Colocou tudo que precisava numa mochila gigante, pegou seu rifle, munições, alimentos e seguiu seu destino no seu jipe, herança de seu avô.

Chegando nas Cordilheiras dos Andes, onde do alto se parece muito com bolo de chocolate e cobertura de chantilly, deixou seu jipe aos cuidados dos moradores do local, deu início à subida íngreme nas montanhas, teria que conseguir ir o mais alto enquanto dia, para descansar e estudar seu mapa a noite, quando comeria.

Quando chegou no terceiro cume desbravado, avistou uma vila, cheio de esperanças desceu para conhecer quem moravam lá, num local tão isolado do mundo, na esperança de ser o local tão falado pela sua avó.

Num determinado momento, tropeçou numa coisa e rolou morro abaixo, chegando abaixo desacordado. Ao acordar, encontrou dois lindos olhos verdes emoldurados pelo rosto de pele queimada pelo sol, cabelos ruivos e compridos, caindo pelos ombros.

Ele não se lembrava como chegara ali, bateu com a cabeça forte e sofreu leve amnésia, deixou que ela cuidasse dele. O que ela fez com maestria, tratando dos ferimentos e da fome, ele tentava lembrar onde estava e o que fazia lá.

Só conseguia lembrar quem era, o que era, mas não o que fazia ali, tão longe de casa.

Quando já podia andar, levantou-se da rede, onde estava instalado, foi até a mesa onde sua mochila estava intacta, abriu para tentar lembrar, vasculhando as coisas de dentro, bússola, mapa, caneca, cantil, barras de chocolate, binóculos, caderno de anotações.

Sentou-se e abriu o caderno começando a ler as anotações feitas desde o início da jornada até dias atrás, pensando ser o dia da queda, quando parara de anotar, percebendo ter passado duas semanas, ficou intrigado.

Saiu da tenda, andou um pouco pela redondeza, admirando a beleza do local. Cachoeira linda, de água limpa fazendo um lago no chão onde havia muitas tendas.

Eram nativos, ou seja, nativas, só mulheres. Como podia isso? Uma vila inteira só de mulheres? Cadê os homens do local? Aqueles que as defenderiam do perigo?

Assim pensando, foi andando até o lago, onde avistou a sua protetora, que nem o nome sabia, lavando algumas peças de roupas.

Chegando mais perto, ele pigarreou para que ela percebesse sua presença, quando ela fazendo que já sabia, convidou-o a sentar-se na grama.

Apresentou-se a ele, com sorriso faceiro, olhos brilhando ao reflexo da cachoeira:

  • Eu me chamo Mikka-ellen, estudei botânica, na América, vim para passar um tempo com meus ancestrais.

Os homens foram buscar ampliar o horizonte, saindo para nunca mais voltar, ficaram as mulheres e crianças, porém os meninos ao crescerem e serem donos de si, também foram, para buscar paradeiro de seus ancestrais, nunca voltaram.

Com semblante preocupada ela continuou:
  • Não tendo homem não nascem mais crianças, sobrando as mulheres, que estão preocupadas com sua linhagem, prestes a acabar com a última que aqui sobreviver.
Continuou, com olhar fixo no de Ronaldo:
  • Quero desvendar esse mistério, não sairei daqui antes de descobrir o que aconteceu com os homens, e o que motivou a sua saída para fora daqui.
Ronaldo, sentando perto de Mikka-ellen, disse:
  • Saí de minha terra natal em busca de conhecer a verdade da história de minha avó, que incansavelmente contava de seus antepassados, vindo parar aqui.
Meio pensativo, ele continuou:
  • Não consigo lembrar o que aconteceu desde a minha queda, não sei no que tropecei, mas esse acidente me trouxe até você. Deve haver algum motivo, porém, esse lapso de memória irá atrapalhar um pouco, não tenho conseguido me concentrar no porquê dessa busca absurda.

Apertando um pouco a testa, como que para tentar lembrar o objetivo da missão, ele pediu licença para mergulhar naquela água tão convidativa e limpa.

Ela sorriu e começou a tirar sua própria roupa, para juntar-se a ele nesse banho refrescante. O dia estava quente, abafado, no meio da mata.

Ficaram horas, nadando e brincando de jogar água um no outro, até que pararam bem próximo um do outro, já com os ânimos mudados, de amigos para algo mais sério, respiração ofegante, sem tirar os olhos um do outro, uniram-se num abraço apertado e beijo que começou tímido, indo mais afogueado, parando somente quando já deitados na grama macia, cansados, deitados de costas, admirava a lua cheia, gigante que parecia aproximar e acariciar o casal.

Ficaram sem entender o que seria aquele sentimento repentino, seria a lua culpada pela sandice momentânea? Seria a água, encantada retirando a lucidez?

Colocaram suas roupas calados, ele ajudando a pegar as roupas lavadas, foram até a tenda, para lá, tentar encontrar uma explicação.

Certamente a culpa foi da lua, que sendo mulher, pregou essa peça para fisgar o único homem que ali se encontrava no momento e prendê-lo para nunca mais sair.

Pois o local era mágico, lindo, perfeito para um ninho de amor.

Tempos depois, em estudo aprofundado, descobriu-se que aquele era o mês de março, mês da fertilidade naquela região, quando a lua se agiganta e brilha trazendo libido para os casais, unindo-se como num passe de mágica.

Essas mulheres misteriosas que habitam a face da terra. Que traz glamour e alegria para deixar mais leve e suave o viver de cada um.

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