Por trás do espelho – Conto literário

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Por trás do espelho - Conto literário

Menina de Sorte!

Tinha uma garota muito miudinha que contava muitas histórias, o nome dela ninguém acredita, era Cinderela. A mãe dela morrera ao dar à luz essa linda garotinha e a viu como Cinderela, pedindo que a registrasse assim.

Ela então sonhava ser a princesa do conto de fadas que sempre ouvia quando criança no orfanato.

Então ela cresceu e teve que deixar o orfanato e buscar uma colocação ou moraria na rua, já que ninguém a adotou. Conseguindo um trabalho de doméstica numa casa de bacanas, trabalhava muito, mas sempre manteve a sua fantasia de infância, uma vez, ela contou que viu uma estrela cadente. Cinderela fez seu pedido, queria ser princesa de verdade, linda, com vestido rodado, igual a cinderela da história, dançando com o seu príncipe encantado.

Saía contando essa história para quem ela via um dia ia ser princesa de verdade, não importava se ouviam ou faziam de surdo, mas quem parava ouvia a mesma história.

Quando saia para comprar pães e leite para abastecer a casa, fazia questão de ir andando e no trajeto contava para os transeuntes, a sua vontade e ideal.

Um dia ela sonhou…

No sonho ela realmente se transformara em cinderela, no começo ela sofreu, mas no dia marcado, aquele dia de sorte, ela se transformou numa princesa.

Vestido lindo, de muitos babados, só que rosa, porque ela adorava a cor rosa, deixava mais romântica, ela dizia.

Tinha uma coisa diferente no seu sonho, não tinha fada, mas ela tinha que ir ao castelo. A festa estava no auge, onde ela morava era longe.

Ela viu num canto, jogado entre a grama uma bicicleta.

– Não sei andar de bicicleta, disse ela para si mesma.

Mas, não tinha outro jeito, lá não passava condução. Não viu ninguém na rua.

Decerto, todos estavam na festa, ou fora dela, mas perto, para ouvir a música e imaginar lá dentro, junto dos ricaços.

Ela estava só, não pensou outra vez, pegou a bicicleta, imaginou ser a mais exímia ciclista e foi.

Levantou seu vestido até os joelhos, atravessou o esquadro e lá estava ela, empoleirada na bicicleta, colocou um pé, depois outro, se equilibrou e deu impulso. Pedalou devagar, e foi ganhando velocidade, até que por milagre, a bicicleta alçou para o alto, como que ganhando asas.

Ela então pedalou com gosto, tinha pressa. Precisava encontrar o seu príncipe.

Ao chegar no castelo, ela percebeu os seus pés. Ao invés de sapatinho de cristal, ela tinha um par de tênis, se achou um tanto atrapalhada com essa situação, porque quando ela fez o pedido, lá atrás, no passado, ela só pensou no vestido bonito e que queria cor de rosa. Não pensou em mais nada.

Agora ela tem um vestido lindíssimo, porém seus pés tinham os tênis surrados e seus cabelos estavam desgrenhados. Quando se viu bonita com um vestido dos sonhos, não pensou em mais nada, a não ser em correr para a festa.

Já estava quase acabando a festa, quando o príncipe iria anunciar a sua consorte, aquela que dançasse melhor e que o fizesse se emocionar.

Ela não se sentiu digna, nem de dançar, nem de se mostrar ao príncipe, se pôs a chorar.

Um rapaz, lindo e bem vestido que saíra para tomar um ar, descansando as mãos no balaústre, avistou a linda moça, cabelos sedosos, porém despenteados, devido a sua corrida de bicicleta ao ar livre, chorando copiosamente, desceu para falar com ela. Queria saber porque uma moça tão linda chorava abundantemente.

Ela estava afogueada, rosto corado, molhado de lágrimas que não paravam de cair, tentou ajeitar seus cabelos, olhando de esguelha ao dono daquela voz maravilhosa, parecia música aos seus ouvidos.

Ele sorriu divertido, os cabelos rebeldes não obedeciam aquelas mãozinhas delicadas, resolveu ajuda-la com os cabelos, levando-os para traz das orelhas, descobrindo um rosto perfeito, se emocionou com tanta beleza atrás das lágrimas incessantes.

Não pensou duas vezes, pegou nas mãos delicadas e como que arrastando, levou-a para dentro do salão. Pediu uma música romântica ao maestro, levando-a ao centro, dando início à dança mais linda que se podia ver. A dança que decidiria o seu destino, o seu futuro.

Ao término, o rapaz que nada mais era do que o seu príncipe encantado, anunciou emocionado a sua noiva, a que seria sua consorte, mãe de seus filhos.

Assim, ela se viu através do espelho, atravessando o impossível, o seu futuro brilhante, junto de seu tão, tão sonhado, príncipe encantado.

Mesmo de tênis surrado, cabelos desgrenhados, essa garota determinada, sonhou o seu ideal, cultivou e acreditou. Vencendo afinal, casando-se com o seu príncipe.

*****

Então ela acordou, ainda embalada no seu sonho, sorriu…