Precisamos falar sobre tudo e muito?

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Precisamos falar sobre tudo
Precisamos falar sobre tudo?

A fixação da sociedade contemporânea na fase oral, nem Freud explica

Precisamos falar sobre tudo e muito do que pensamos? Certamente você já ouviu, falou ou viu essa frase. Esse mantra contemporâneo, que ironicamente em alguns casos mais parece uma ordem, traz em si o conceito de que não devemos mais esconder, temer ou ter vergonha de falar sobre qualquer assunto, em especial os considerados tabus ou polêmicos.

A motivação e a ideia representada nesse conceito seria a de que ao falarmos proporcionaríamos o entendimento não apenas com as pessoas, mas também nossa autocompreensão.

Além de fazer com que assuntos polêmicos tais quais sexualidade, suicídio, drogas, por exemplo, possam sair da marginalidade dos preconceitos e estereótipos para o âmbito da normalidade, instigando mais empatia e auxílio.

Mas de onde vem essa ideia? Aqui sim, Freud explica.

Ao se deparar com pacientes cujo o chamado problema nos nervos, eram acentuados ao ponto da histeria, o até então neurologista e psiquiatra Dr. Sigmund Freud, começou a se interessar cada vez mais sobre o assunto, recorrendo inicialmente as técnicas da hipnose para encontrar a solução das crises de seus pacientes.

Entretanto, ele foi percebendo que a hipnose reduzia os sintomas paliativamente, e além disso continuava sem trazer a luz as causas que desencadeavam a doença.

Foi quando decidiu utilizar outra metodologia em que conversava com um direcionamento mais interrogativo aos seus pacientes, o que acarretou em uma mudança de paradigma do seu entendimento e na conduta do tratamento.

A confirmação, e, ao mesmo tempo contestação de seu novo método veio quando ao atender uma paciente chamada Emmy, ele se surpreendeu ao ouvir o pedido para que ela pudesse falar sem que ele a interrompesse com perguntas.

Freud percebeu a importância de se permitir um local de fala, livre de julgamentos ou censuras, em que o paciente pudesse falar sobre o que desejasse, sendo os assuntos coerentes e sequenciais ou não.

Nascia ali a técnica da associação livre e a psicanálise. Era preciso falar, se iniciou aquilo que conheceríamos como a cura pela fala.

Desta forma, fica claro como desde séculos passados e os avanços desse tema nas gerações posteriores, somados aos incentivos midiáticos, a exemplos de filmes como Precisamos falar sobre Kevin (2011), entre muitos outros programas etc., foram tecendo o pano de fundo para respaldar a fala como algo prioritário e até resolutivo.

Porém, quando analisamos esse histórico breve e superficialmente descrito aqui, em que a fala foi o grande achado para a psicanálise, psicologia entre outras áreas, e o trazemos para a utilização disso na sociedade e mídias atuais, algo se perde.

Pois, o benefício da fala sempre foi menos relevante sobre o ato de se falar em si e mais em relação a escuta que se faz sobre o que é dito. E isso perdemos.

Na ânsia em sempre falarmos sobre tudo, na cobrança de que seremos vistos (e curtidos) apenas quando expressamos nossas opiniões, o ouvir parece ser mero figurante. Falamos, incentivamos todos a falarem, mas não ouvimos ninguém e nem nós mesmos.

Se ouvíssemos, iríamos perceber o quanto nosso discurso embora cada vez mais goumertizado permanece recheado de senso comum. O quanto falar nos relacionamentos, as famosas DR’s, não melhoram os mesmos.

Nunca pudemos falar tanto e tão abertamente sobre sexualidade e sexo, entretanto, segundo pesquisas Portal O Tempo Interessa artigo “Apagão sexual’: atual geração de jovens faz menos sexo do que as anteriores” as gerações atuais são as que menos fazem sexos comparadas a outras.

Falamos sobre tabus, política, vida, morte e cada vez mais estamos polarizados, assustados, medicalizados e confusos. Falar, não está parecendo a solução, mas estamos fixados nisso.

Qualquer assunto ou sentimento que apareça, você é prontamente orientado a falar sobre. Aquilo que era uma ferramenta clínica, virou um comportamento social. Por quê temos tanto prazer em falar, e pouco em ouvir?

Novamente seguindo a linha Freudiana, o prazer em falar principalmente quando de forma excessiva, tem relação com a fase inicial de nosso desenvolvimento psíquico nomeada por Freud como a fase oral.

Essa fase corresponde ao período em que iniciamos a amamentação, seja no peito materno ou não. É quando passamos a reconhecer o mundo e a nós mesmos através da boca, e o prazer que ela proporciona para além de nutrir.

Segundo Freud, o excesso de prazer ou traumas ocorridos durante esse período, podem levar a pessoa quando em outras fases da vida a uma fixação ou regressão a fase oral quando se deparam com um conflito cujo os desenvolvimentos emocional ou psíquico parecem não dar suporte.

Pessoas que regridem ou se fixam nessa fase, costumam entre outras coisas comer demais, fumar, beber em excesso e claro, falar muito.

Assim sendo, se analisarmos o sintoma social “precisamos falar sobre tudo e muito…”, percebemos onde nossa contemporaneidade está fixada. Podemos perceber que embora com todos os avanços tecnológicos, estamos emocionalmente regredidos, uma sociedade infantilizada.

Percebemos isso navegando pelas redes socais, olhando o vizinho ou para o espelho. Hoje se busca muito pelo prazer, pela satisfação imediata independente das consequências.

É como se o mundo tivesse a obrigação de dar sempre o que queremos (e na boquinha de preferência) e acima de tudo nos amar. Somos o centro do universo, e claro nós também devemos sempre nos amar muito.

Cada vez mais os jovens toleram menos a frustração, e os adultos cada vez menos toleram os jovens frustrados. Falamos sobre as consequências de nossos atos, mas não as enfrentamos.

Assim, por exemplo, posso falar sobre meu amor próprio mesmo tendo engordado morbidamente, falo sobre como pessoas que não me amam devem ser gordofóbicas, posso falar sobre como a sociedade nos induz a comer açúcar, mas dificilmente uma atitude para emagrecer é de fato assumida.

A fala substitui a ação em muitos casos. É prazerosa e exige menos esforço. Enfrentar consequências é parte do mundo adulto. Se frustrar é parte da vida. Nem sempre precisamos falar sobre tudo, em muitos casos o que precisamos fazer é nos silenciar, agir.

O silêncio é organizador, permite um contato muito íntimo com os sentimentos e pensamentos. E talvez por ser tão revelador é que precisamos fazer tanto barulho sempre. Não queremos ouvir a voz que vem do silêncio.

Assim, sugiro que quando estiver diante de um dilema, um sofrimento de qualquer natureza, você possa primeiramente silenciar, sentindo seu próprio corpo, encarando seus pensamentos e emoções. Se ouça.

Só depois, e se ainda precisar, fale. E escolha bem a quem se fala. Aprenda a ouvir mais a si, os outros e o universo. Mas em um mundo cheio de opiniões, o silêncio é que vem se transformando em um tabu.

Mude o mantra atual, pois, ao afirmarem que precisamos falar sobre tudo, priorizando a fala, perdemos muitas etapas importantes anteriores. Assim, o certo seria dizer que precisamos silenciar, pensar, ouvir, e somente depois falar.

E ai?! Sobre o falar, que tal silenciarmos um pouco sobre isso?

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1 COMENTÁRIO

  1. Artigo sensacional.Você resumiu o que hoje intitula-se “geração mi mi mi”,muita fala e pouca ação,querem julgar até quem opta por não falar.

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