Uma noite no Teatro Moise Safra transformou um espetáculo em uma experiência de consciência, humanidade, reflexão e protagonismo feminino
Simplesmente Eu, Clarice Lispector foi muito mais do que um espetáculo que assisti. Foi uma experiência que ultrapassou o palco e permaneceu acontecendo dentro de mim, despertando reflexões que decidi compartilhar neste texto.
Há espetáculos que nos emocionam.
Outros nos fazem pensar.
E existem aqueles, mais raros, que continuam acontecendo muito tempo depois que as cortinas se fecham.
Naquela noite, fui ao Teatro Moise Safra para assistir a uma peça.
Voltei para casa levando perguntas.
Perguntas sobre arte.
Sobre humanidade.
Sobre autenticidade.
Sobre o amor.
Sobre o perdão.
Sobre a coragem de permanecer fiel a quem somos.
O que você lerá nas próximas páginas não é uma análise teatral.
Também não é uma tentativa de explicar Clarice Lispector.
Muito menos de definir a extraordinária interpretação de Beth Goulart.
É apenas o relato sincero da forma como aquele encontro aconteceu dentro de mim.
Outras pessoas viverão experiências diferentes.
Encontrarão outras frases.
Guardarão outros silêncios.
E talvez seja justamente essa a maior beleza da arte.
Ela nunca acontece da mesma forma para duas pessoas.
O espetáculo começa antes da cortina abrir
Há lugares que nos recebem.
Outros nos preparam.
O Teatro Moise Safra, naquela noite, fez as duas coisas.
Antes mesmo de encontrar meu lugar na plateia, fui conduzido ao foyer, onde a mostra Entre Ela e Eu já anunciava que aquela não seria uma noite comum.
Grandes painéis revelavam diferentes momentos da vida de Clarice Lispector.
Fotografias familiares.
Retratos marcantes.
Fragmentos de sua obra.
Curiosidades.
Pensamentos.
Tudo parecia cuidadosamente organizado para que o público não apenas conhecesse Clarice.
Mas se aproximasse dela.
Caminhei lentamente entre aqueles painéis.
Não havia pressa.
Cada fotografia parecia carregar uma história.
Cada frase pedia alguns segundos de silêncio.
Em uma imagem, Clarice aparecia jovem, sorrindo discretamente.
Em outra, surgia ao lado da família.
Mais adiante, uma frase me fez permanecer parado por alguns instantes.
“Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou a minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever e nasci para criar meus filhos.”
Não li aquelas palavras como uma simples citação.
Li como quem recebe uma confidência.
Logo depois, outra fotografia chamou minha atenção.
Clarice escrevia com a máquina de escrever apoiada sobre o colo.
O texto explicava que ela preferia a máquina porque seus pensamentos fluíam melhor do que através da própria caligrafia.
Sorri.
Como escritor, reconheci naquele instante uma sensação familiar.
Escrever nem sempre é organizar ideias.
Muitas vezes é descobrir aquilo que ainda não sabemos que pensamos.
Antes de seguir para a sala do espetáculo, encontrei um grande painel onde espectadores deixavam mensagens após assistirem à peça.
Não eram avaliações.
Não eram críticas.
Eram pequenos registros de encontros.
Cada frase revelava que pessoas diferentes haviam saído dali carregando sentimentos diferentes.
Foi então que percebi algo curioso.
O espetáculo ainda nem havia começado.
E, de alguma forma, Clarice já havia iniciado uma conversa comigo.
Quando a cortina ainda estava fechada
Já acomodado na plateia, imaginei que o ritual seria o mesmo de tantos espetáculos.
As luzes diminuiriam.
O silêncio tomaria conta do teatro.
A cortina se abriria.
E a história começaria.
Mas, naquela noite, a história escolheu outro caminho.
Antes que Beth Goulart aparecesse em cena, ouvi a voz de Paulo Goulart.
Foi um instante breve.
Ainda assim, profundamente simbólico.
Sua voz não anunciava apenas o início de um espetáculo.
Parecia lembrar que algumas presenças permanecem mesmo quando já não podem ser vistas.
Logo depois, a voz de Beth entrou em cena.
E, mais uma vez, surpreendeu.
Antes de interpretar Clarice Lispector, ela fez questão de apresentar aqueles que normalmente permanecem invisíveis aos olhos do público.
Nome por nome.
Função por função.
A produção.
A iluminação.
O operador de som.
A camareira.
O contrarregra.
Cada profissional foi lembrado.
Cada profissional foi reconhecido.
Enquanto a plateia aplaudia aquela equipe, pensei em quantas vezes admiramos o resultado sem perceber as pessoas que o tornam possível.
Talvez aquele tenha sido o primeiro ensinamento da noite.
Nenhuma grande obra é construída sozinha.
Toda realização é sustentada por mãos que, muitas vezes, nunca aparecem sob os refletores.
Essa cena despertou imediatamente uma lembrança da minha trajetória profissional.
Durante décadas trabalhando com pessoas e organizações, aprendi que liderança não se revela apenas nas grandes decisões.
Ela aparece, sobretudo, na forma como reconhecemos aqueles que fazem a diferença longe dos aplausos.
Reconhecer é um ato de respeito.
Mas também é um ato de liderança.
Beth poderia simplesmente iniciar o espetáculo.
Ninguém estranharia.
Entretanto, escolheu fazer algo maior.
Antes de dar voz a Clarice Lispector, deu visibilidade às pessoas que tornavam aquele encontro possível.
Naquele instante, ainda sem perceber, eu já começava a compreender que aquela noite não seria apenas sobre literatura.
Seria sobre humanidade.
E talvez exista uma diferença importante entre essas duas palavras.
A literatura pode emocionar.
A humanidade faz permanecer.
Quando as luzes finalmente se prepararam para o início da apresentação, percebi que o espetáculo já havia começado muito antes da primeira fala.
Começara no reconhecimento.
E isso, para mim, fez toda a diferença.
Quando as palavras deixam de ser apenas palavras
As luzes diminuíram lentamente.
O murmúrio da plateia desapareceu.
Durante alguns segundos, o teatro inteiro parecia prender a respiração.
Era como se todos soubessem que, dali em diante, deixariam de assistir a uma peça para entrar no universo de Clarice Lispector.
Existe um momento em que deixamos de assistir a um espetáculo.
Foi exatamente isso que aconteceu comigo.
Em poucos minutos, já não me preocupava com cenário, iluminação ou interpretação.
Tudo aquilo continuava presente, mas deixava de ocupar o primeiro plano.
A palavra assumia o centro da cena.
Exatamente como Clarice sempre fez em sua literatura.
O cenário era limpo.
A iluminação parecia respirar junto com cada mudança de emoção.
A trilha sonora não preenchia os silêncios.
Respeitava-os.
Naquele momento, compreendi que o espetáculo confiava na força da palavra.
E essa confiança era suficiente.
Uma das primeiras frases que anotei foi:
“Sinto mais do que penso.”
Ela chegou até mim com uma simplicidade desarmadora.
Vivemos em uma sociedade que valoriza respostas rápidas, argumentos sólidos e decisões racionais.
Mas, enquanto ouvia aquela frase, pensei em quantas escolhas realmente importantes da minha vida nasceram primeiro do sentir e só depois encontraram explicação na razão.
Talvez exista uma inteligência que não passa pela lógica.
Talvez algumas verdades precisem ser sentidas antes de serem compreendidas.
Pouco depois, outra frase encontrou espaço dentro de mim.
“A palavra é meu domínio sobre o mundo.”
Como escritor, essa frase não passou por mim.
Ela permaneceu.
Escrever nunca foi apenas organizar pensamentos.
Escrever é assumir a responsabilidade sobre aquilo que deixaremos no mundo quando nossa voz já não estiver presente.
Palavras atravessam gerações.
Consolam.
Ferem.
Inspiram.
Transformam.
Talvez por isso Clarice escolhesse cada uma delas com tanta precisão.
Outra passagem fez com que eu permanecesse alguns segundos em silêncio.
“Eu já tinha sido os outros.”
Quantas vezes também já fomos os outros?
O profissional que esperavam.
O filho que esperavam.
O líder que esperavam.
O homem que esperavam.
Talvez a vida adulta seja, muitas vezes, um longo caminho de volta para nós mesmos.
Voltar a ser quem somos exige mais coragem do que aprender a representar papéis.
Em seguida veio outra frase.
Curta.
Incômoda.
Profunda.
“Raiva é minha revolta mais profunda.”
Não procurei explicá-la.
Apenas a acolhi.
Nem toda frase precisa ser interpretada imediatamente.
Algumas permanecem trabalhando dentro de nós muito tempo depois de serem ouvidas.
Mas foi quando ouvi a definição de amor que compreendi por que Clarice continua atravessando gerações.
“Amar não é a soma das compreensões. Amar é a soma das incompreensões.”
Vivemos tentando compreender tudo.
As pessoas.
As relações.
As escolhas.
A nós mesmos.
Entretanto, talvez o amor nunca tenha sido um exercício de entendimento absoluto.
Talvez amar seja aceitar que sempre existirá no outro um território que jamais compreenderemos por completo.
E, ainda assim, decidir permanecer.
Naquele instante, deixei de observar apenas a extraordinária interpretação de Beth Goulart.
Passei a perceber algo maior.
Ela não buscava reproduzir Clarice.
Também não tentava imitá-la.
Sua interpretação parecia abrir espaço para que cada espectador encontrasse a própria Clarice.
Ou, quem sabe, encontrasse uma parte de si mesmo através dela.
Foi exatamente isso que aconteceu comigo.
Naquele momento, compreendi que algumas obras não existem para oferecer respostas.
Existem para nos devolver perguntas que havíamos deixado esquecidas.
E talvez seja justamente por isso que elas continuam vivas.
Quando o Salmo 23 silenciou o teatro inteiro
Sempre acreditei que existem momentos em que a arte deixa de falar aos nossos sentidos e começa a conversar com algo muito mais profundo.
Naquela noite, esse momento chegou quando Beth Goulart começou a cantar o Salmo 23.
Não foi apenas uma passagem do espetáculo.
Foi uma pausa.
Uma pausa da correria.
Das preocupações.
Dos pensamentos que insistem em nos acompanhar até mesmo quando buscamos um momento de contemplação.
Enquanto sua voz preenchia o teatro, senti um arrepio percorrer meu corpo.
Não consigo dizer se foi a beleza da interpretação.
A delicadeza da cena.
Ou a força espiritual daquele instante.
Talvez tenha sido a soma de tudo isso.
Há experiências que resistem às explicações.
E talvez seja justamente por isso que permanecem conosco.
Olhei discretamente ao meu redor.
O silêncio era absoluto.
Ninguém parecia ter pressa.
Ninguém consultava o celular.
Ninguém desviava o olhar do palco.
Era como se, por alguns minutos, centenas de pessoas respirassem no mesmo ritmo.
Vivemos em uma época em que a atenção se tornou um dos bens mais disputados.
Recebemos estímulos a todo instante.
Somos interrompidos continuamente.
No entanto, naquela noite, percebi que a verdadeira arte ainda possui um poder raro.
Ela consegue interromper o piloto automático da vida.
E quando isso acontece, voltamos a ouvir aquilo que o excesso de ruído costuma esconder.
Enquanto o Salmo 23 ecoava pelo teatro, outra frase de Clarice voltou à minha memória.
“Uma mão humana para apertar a minha.”
Pensei no quanto essa frase fala sobre todos nós.
Em algum momento da vida, todos precisamos de uma mão que nos lembre que não estamos sozinhos.
Nem sempre buscamos soluções.
Às vezes buscamos presença.
Escuta.
Acolhimento.
Talvez seja exatamente esse o papel da arte.
Ela não elimina nossas dores.
Mas caminha ao nosso lado enquanto atravessamos cada uma delas.
Quando a música terminou, ninguém precisou explicar o que havia acontecido.
O silêncio fez esse trabalho com uma eloquência que poucas palavras seriam capazes de alcançar.
Naquele instante, compreendi que algumas apresentações emocionam.
Outras transformam.
E a diferença entre elas talvez esteja justamente naquilo que continua acontecendo dentro de nós depois que a cena termina.
Foi ali que deixei de assistir apenas a uma peça.
Passei a viver uma experiência.
Depois dos aplausos começou outro espetáculo
Quando a última cena terminou, o teatro respondeu de pé.
Os aplausos eram longos.
Espontâneos.
Carregavam a gratidão de quem havia acabado de viver algo difícil de traduzir em palavras.
Pensei que aquela noite estivesse chegando ao fim.
Mas estava enganado.
Quando os aplausos diminuíram, Beth Goulart voltou ao palco.
Desta vez, sem interpretar Clarice.
Sem personagens.
Sem a proteção do texto.
Era apenas Beth.
E, curiosamente, foi nesse instante que senti estar diante de uma das cenas mais verdadeiras da noite.
Ela começou a conversar com a plateia.
Falou sobre perdão.
Falou sobre a necessidade de evoluirmos como seres humanos.
Falou sobre esperança.
Sobre a responsabilidade que cada um de nós tem na construção de uma humanidade melhor.
Não havia tom de palestra.
Não havia intenção de convencer.
Havia apenas uma mulher dividindo aquilo em que acredita.
Enquanto eu a ouvia, fiz um movimento quase automático.
Levei a mão ao celular.
Queria registrar aquelas palavras.
Queria anotá-las para reproduzi-las nesta matéria.
Mas parei.
Naquele instante, percebi que existiam duas escolhas possíveis.
Registrar.
Ou viver.
Escolhi viver.
Guardei o celular.
E apenas escutei.
Hoje, curiosamente, não consigo reproduzir cada frase que Beth disse.
Mas consigo recordar exatamente o que senti enquanto ela falava.
E talvez isso seja ainda mais importante.
Há palavras que pertencem ao papel.
Outras pertencem apenas à memória.
Naquela noite, compreendi que nem toda experiência precisa ser transformada em anotação.
Algumas merecem apenas ser vividas.
Enquanto Beth compartilhava suas reflexões, tive uma percepção muito clara.
Ali já não estava apenas uma atriz premiada.
Também não estava a diretora de um espetáculo que percorre o Brasil há tantos anos.
Estava uma mulher.
Falando para outras pessoas.
Sem personagens.
Sem máscaras.
Sem qualquer necessidade de representar.
Foi nesse instante que compreendi algo que dificilmente conseguiria explicar durante o espetáculo.
Existe uma diferença entre interpretar uma mensagem e acreditar nela.
Naquela conversa, tive a sensação de que Beth não falava apenas sobre perdão.
Ela parecia viver aquilo que dizia.
E essa percepção tornou suas palavras ainda mais humanas.
Saí do teatro levando comigo uma certeza.
Alguns espetáculos terminam quando as luzes se apagam.
Outros começam exatamente ali.
Continuam no caminho de volta para casa.
Nas conversas que temos conosco.
Nas perguntas que insistem em permanecer.
Talvez seja por isso que, dias depois, eu ainda esteja escrevendo sobre aquela noite.
Não porque assisti a uma peça.
Mas porque vivi um encontro.
E encontros verdadeiros continuam acontecendo muito depois da despedida.
Duas mulheres, dois legados e a coragem de permanecer autêntica
Enquanto deixava o teatro, outra reflexão começou a ganhar espaço dentro de mim.
Aquela noite também falava sobre empreendedorismo feminino.
Não o empreendedorismo que aprendemos nos livros.
Mas aquele que nasce da coragem de sustentar uma ideia quando ela ainda não encontrou aplausos.
Clarice Lispector fez isso através da literatura.
Em um tempo em que o protagonismo feminino encontrava muito mais obstáculos do que oportunidades, ela escolheu escrever sem seguir modelos.
Não escreveu para agradar.
Não escreveu para atender expectativas.
Escreveu porque precisava escrever.
Criou uma linguagem própria.
Transformou a introspecção em literatura.
Fez perguntas quando muitos esperavam respostas.
E, justamente por isso, tornou-se uma das maiores escritoras da língua portuguesa.
Décadas depois, outra mulher decidiu assumir uma responsabilidade igualmente desafiadora.
Beth Goulart poderia ter escolhido um caminho mais confortável.
Poderia interpretar Clarice apenas como uma personagem.
Mas decidiu fazer muito mais.
Pesquisou profundamente sua obra.
Concebeu o espetáculo.
Adaptou os textos.
Dirigiu.
Interpretou.
Assumiu o compromisso de levar Clarice para o palco sem reduzir sua complexidade, transformando sua literatura em uma experiência sensível para diferentes gerações.
Enquanto refletia sobre isso, pensei em quantas mulheres empreendem todos os dias.
Algumas criam empresas.
Outras constroem carreiras.
Muitas lideram equipes.
Outras transformam comunidades.
Mas existe algo que une todas elas.
A coragem de continuar acreditando quando o caminho ainda parece incerto.
Empreender, afinal, talvez seja isso.
Acreditar antes.
Persistir durante.
Inspirar depois.
Clarice empreendeu através das palavras.
Beth empreende através da arte.
Cada uma, à sua maneira, construiu algo que ultrapassa o próprio tempo.
E talvez seja exatamente esse o maior patrimônio de uma mulher empreendedora.
Não apenas aquilo que ela realiza.
Mas aquilo que continua inspirando outras pessoas quando sua presença já não é necessária para explicar sua obra.
Vivemos um tempo em que se fala muito sobre sucesso.
Muito sobre performance.
Muito sobre resultados.
No entanto, aquela noite me lembrou que existe uma pergunta ainda mais importante.
O que permanecerá quando o nosso trabalho terminar?
Talvez seja essa a verdadeira medida de um legado.
Não a quantidade de reconhecimento que recebemos.
Mas a quantidade de vidas que continuamos tocando.
Clarice continua fazendo isso por meio de seus livros.
Beth continua fazendo isso por meio do teatro.
E ambas nos lembram de que autenticidade não é apenas uma característica.
É uma escolha.
Uma escolha renovada todos os dias.
Principalmente quando seria mais fácil abrir mão dela.
Como executivo de Recursos Humanos, convivendo há décadas com profissionais, líderes e organizações, aprendi que as carreiras mais consistentes não são construídas apenas por competência.
São sustentadas por coerência.
Pessoas podem admirar um talento.
Mas confiam em quem permanece fiel aos próprios valores.
Talvez por isso esse capítulo tenha feito tanto sentido para mim.
Naquela noite, não encontrei apenas duas grandes artistas.
Encontrei duas mulheres que escolheram não negociar a própria essência.
E talvez seja exatamente essa a maior inspiração que elas deixam para todas as mulheres que empreendem, lideram, educam, criam, escrevem, inovam ou transformam o mundo, muitas vezes sem perceber a dimensão do próprio impacto.
Alguns espetáculos continuam acontecendo dentro da gente
Quando deixei o Teatro Moise Safra, caminhei alguns metros antes de perceber que continuava em silêncio.
Não porque me faltassem palavras.
Mas porque algumas experiências pedem um tempo antes de serem transformadas em texto.
Enquanto seguia meu caminho, lembrei-me de tudo o que havia vivido naquela noite.
A exposição no foyer.
A voz de Paulo Goulart anunciando o espetáculo.
O cuidado de Beth Goulart ao apresentar cada profissional dos bastidores.
As frases de Clarice que pareciam conversar diretamente com quem estava na plateia.
O Salmo 23.
E, principalmente, a conversa depois dos aplausos.
Foi então que compreendi algo que talvez não tivesse percebido durante a apresentação.
O espetáculo nunca foi apenas sobre Clarice Lispector.
Também nunca foi apenas sobre Beth Goulart.
O espetáculo era, sobretudo, um convite.
Um convite para olharmos com mais atenção para nós mesmos.
Vivemos um tempo em que acumulamos informações em uma velocidade impressionante.
Sabemos muito sobre quase tudo.
Mas, paradoxalmente, dedicamos cada vez menos tempo para nos conhecermos.
Clarice parecia escrever justamente para romper esse automatismo.
Beth, no palco, faz essas palavras respirarem novamente.
E cada pessoa que está na plateia completa essa obra com a própria história.
Talvez seja por isso que ninguém saia daquele teatro levando exatamente a mesma experiência.
As frases são as mesmas.
O espetáculo é o mesmo.
Mas cada coração escuta de um jeito.
Ao escrever esta matéria, compreendi que seria impossível contar exatamente o que aconteceu naquela noite.
Porque parte da experiência pertence ao palco.
Mas outra parte pertence exclusivamente a quem a vive.
Por isso faço questão de voltar àquilo que escrevi no início deste texto.
Estas páginas não são uma crítica teatral.
Também não pretendem explicar Clarice Lispector.
Muito menos definir o espetáculo de Beth Goulart.
São apenas o registro honesto da maneira como aquela noite atravessou a minha história.
Outras pessoas assistirão à mesma peça.
Provavelmente sairão tocadas por outras frases.
Por outros silêncios.
Por outras perguntas.
E isso não diminui a experiência de ninguém.
Ao contrário.
É justamente isso que faz da arte uma das maiores expressões da experiência humana.
Ela nunca acontece da mesma forma duas vezes.
Mesmo quando o espetáculo é exatamente o mesmo.
Saí do teatro com uma sensação difícil de explicar.
A de que algumas pessoas escrevem livros.
Outras interpretam personagens.
E algumas conseguem fazer as duas coisas continuarem vivas dentro de quem as encontra.
Clarice fez isso com suas palavras.
Beth faz isso com sua arte.
E, naquela noite, ambas me lembraram de algo que, muitas vezes, esquecemos na correria da vida.
A verdadeira transformação não acontece quando encontramos todas as respostas.
Ela começa quando temos coragem de permanecer diante das perguntas.
E talvez seja exatamente por isso que ainda penso naquela noite enquanto escrevo estas últimas linhas.
Porque alguns espetáculos terminam quando as luzes do palco se apagam.
Outros continuam acontecendo, silenciosamente, dentro da gente.
Dedicatória
Dedico esta matéria a todos os profissionais que tornam o teatro possível e que, naquela noite, foram lembrados por Beth Goulart antes mesmo de o espetáculo começar.
A arte que vemos no palco também nasce do talento, do cuidado e da dedicação de quem trabalha nos bastidores.
Talvez esse tenha sido um dos primeiros e mais bonitos ensinamentos daquela noite.
Se a arte tem o poder de nos transformar, talvez a pergunta mais importante não seja como terminou o espetáculo.
Talvez seja: o que ele despertou em você?
Nota do autor
Este artigo não pretende ser uma crítica teatral nem uma análise técnica do espetáculo. É o registro da minha experiência pessoal diante de “Simplesmente Eu, Clarice Lispector”, interpretado por Beth Goulart. As reflexões aqui apresentadas pertencem ao olhar de quem viveu aquela noite e escolheu compartilhá-la como um convite à consciência.
Perguntas Frequentes (FAQ)
- O que é o espetáculo Simplesmente Eu, Clarice Lispector?
É um espetáculo concebido, adaptado, dirigido e interpretado por Beth Goulart, inspirado na vida, nas entrevistas, nas cartas e na obra de Clarice Lispector. Mais do que uma biografia, propõe uma imersão no universo existencial da escritora. - O espetáculo conta a história da vida de Clarice Lispector?
Não exatamente. A montagem não segue uma linha cronológica. Ela reúne pensamentos, textos e personagens de Clarice, criando uma experiência sensível que aproxima o público de sua forma de ver o mundo. - É preciso conhecer a obra de Clarice Lispector para assistir?
Não. Quem já conhece sua literatura encontrará novas camadas de interpretação. Quem nunca leu Clarice poderá descobrir uma autora capaz de despertar curiosidade e reflexão. - O espetáculo emociona?
Na minha experiência, sim. Mas acredito que a emoção nasce de maneira diferente em cada pessoa. O espetáculo não impõe sentimentos; ele abre espaço para que cada espectador viva seu próprio encontro com Clarice. - Qual foi o momento mais marcante da apresentação?
Para mim, foram dois momentos. O primeiro, quando Beth Goulart interpretou o Salmo 23, criando um silêncio que parecia envolver todo o teatro. O segundo aconteceu depois dos aplausos, quando ela falou sobre perdão, evolução humana e esperança, já não como personagem, mas como alguém compartilhando sua própria visão de mundo. - O que mais chamou a atenção antes do espetáculo começar?
A exposição Entre Ela e Eu, instalada no foyer do Teatro Moise Safra, e o gesto de Beth Goulart ao apresentar e agradecer cada profissional dos bastidores antes do início da peça. Foi uma demonstração de reconhecimento que, para mim, também falou sobre liderança. - Por que a matéria relaciona a peça ao empreendedorismo feminino?
Porque vejo em Clarice Lispector e Beth Goulart duas mulheres que construíram legados a partir da autenticidade. Cada uma, em sua época e em sua área, demonstrou coragem para sustentar uma visão própria, inspirando outras mulheres a fazerem o mesmo. - Esta matéria é uma crítica teatral?
Não. É um relato pessoal. Tudo o que descrevo representa a forma como vivi aquela noite. Outros espectadores poderão sair do teatro com impressões diferentes, e isso faz parte da riqueza da arte. - Qual mensagem ficou depois do espetáculo?
A percepção de que algumas experiências artísticas não terminam quando as cortinas se fecham. Elas continuam produzindo perguntas, ampliando nossa consciência e acompanhando nossas reflexões por muito tempo. - Vale a pena assistir Simplesmente Eu, Clarice Lispector?
Se você busca apenas entretenimento, encontrará um espetáculo de alta qualidade. Se estiver aberto a uma experiência que una literatura, sensibilidade e reflexão, talvez encontre algo que permaneça com você muito depois dos aplausos.
Cenas da Peça – Simplesmente Eu, Clarice Lispector
Crédito: Credito – Angel Produções
Crédito: Credito – Angel Produções
Ficha Técnica – Simplesmente Eu, Clarice Lispector
- Espetáculo: Simplesmente Eu, Clarice Lispector
- Texto: Clarice Lispector
- Concepção, adaptação, direção e interpretação: Beth Goulart
- Supervisão: Amir Haddad
- Gênero: Espetáculo – poema
- Trilha sonora original: Alfredo Sertã
- Iluminação: Maneco Quinderé
- Cenografia: Ronald Teixeira e Leobruno Gama
- Figurino: Beth Filipecki
- Direção de movimento: Márcia Rubin
- Preparação vocal: Rose Gonçalves
- Visagismo: Westerley Dornellas
- Programação visual: Carol Vasconcellos
- Operadora de luz: Diana Cruz
- Operador de som: Paulo Mendes
- Camareira: Flávia Cotta
- Contrarregra: Guaraci Ribeiro
- Direção de produção: Pierina Morais
- Realização: Self Produções Artísticas Ltda.
Serviço
- Espetáculo: Simplesmente Eu, Clarice Lispector
- Local: Teatro Moise Safra – São Paulo/SP
- Temporada: até 30 de agosto de 2026
Sessões:
- Sextas-feiras – 20h
- Sábados – 19h
- Domingos – 19h
Classificação indicativa: 12 anos
Duração: 60 minutos
Ingressos:
- Inteira: R$ 120,00
- Meia-entrada: R$ 60,00
- Ingresso Social: R$ 50,00
Endereço:
- Rua Prof. Walter Lerner, 315 – Barra Funda – São Paulo/SP
- Ingressos: Bilheteria do Teatro Moise Safra e plataforma Sympla.
Imagem de destaque: Simplesmente eu, ClariceLispector – Beth Goular – Credito Lenise Pinheiro