O final de ano sempre é um tempo de revisão, de inventário do que fizemos ao longo do ano, de ajuste de algumas coisas e de planejamento para um novo período
Aranhas de Óculos – A biblioteca, os livros que lemos e os que ficaram com a leitura pendente fazem parte da minha rotina de final de ano. Neste último, ao organizar minha biblioteca, um dos meus netos estava me ajudando.
Quando mexemos nos livros mais antigos ou naqueles que estavam há mais tempo sem serem manuseados, vimos algumas aranhas se movimentando. Eram de tamanho médio e buscavam sair do lugar.
Meu neto disse:
“Vovó, você acha que estas aranhas usam óculos?”
Bastante surpresa, perguntei a ele:
“Por que você acha isso?”
E ele me respondeu:
“Quando a gente lê muito tempo e muitos livros, ficamos com a vista cansada e precisamos de óculos. Como elas ficaram no meio de todos esses livros, devem ter lido muito, mas agora, como estão saindo da estante, vão poder ver outros lugares e usar muito do que aprenderam.”
Essa afirmação me fez recordar do Mito da Caverna, de Platão, e pensei que as aranhas, agora libertas do espaço em que estavam e com o conhecimento que adquiriram, poderiam conhecer uma nova realidade.
Meu neto continuou com as perguntas:
“Vovó, você acha que elas vão aprender coisas novas, ter uma vida melhor e mais feliz?”
Ao que respondi:
“Não sei, mas o que você acha?”
E ele me respondeu:
“Quando lemos e aprendemos, podemos usar tudo na nossa vida.”
Como a arrumação acabou e eu não sacrifiquei as aranhas como sempre faço, até porque não gostaria de quebrar os óculos, refleti sobre a importância da leitura e do conhecimento e aproveitei a oportunidade para continuar trocando ideias com meu neto.
Disse a ele que, à medida que vamos construindo um referencial de determinada área, podemos, com a base que temos, avançar, arriscar, ter novos olhares para a realidade, errar e acertar.
Acredito que muitos dos nossos empreendimentos não alcançam o objetivo desejado porque lemos pouco, não pesquisamos os casos de sucesso e as causas do fracasso.
Antes de empreender em qualquer área, deveríamos fazer como as aranhas: ler muito, usar nossos óculos até a exaustão e criar projetos com metas claramente definidas, com planejamento a curto, médio e longo prazos e com o entendimento de que sempre é possível mudar.
Sou membro atuante do Rotary e, ao longo dos anos, criamos um projeto chamado Boa Visão, desenvolvido a partir da observação das dificuldades das crianças na escola. Entramos em contato com algumas escolas, e as professoras relataram que várias crianças tinham problemas de visão e não possuíam recursos para buscar solução para o problema.
Elaboramos o projeto, buscamos parceiros entre os rotarianos, conseguimos exames de vista e óculos sem custo. Precisamos fazer vários ajustes, iniciando com a autorização dos órgãos competentes aos quais as escolas estavam subordinadas, bem como dos pais e diretores.
O projeto teve várias fases, e muitas vezes precisamos usar os óculos das aranhas para corrigir algumas dificuldades, mas conseguimos ampliá-lo, atendendo várias escolas em Curitiba, na região metropolitana de Curitiba e no litoral do Paraná.
Após muitos anos de trabalho e acompanhamento, ficamos muito felizes ao saber que o governo do Estado instituiu, em 2025, o Programa Bons Olhos Paraná, uma política pública permanente, garantindo avaliação precoce para problemas de visão em crianças e adolescentes da rede pública.
Acredito que todos lemos muito, estudamos muito e trabalhamos muito para que aquilo que aprendemos, assim como as aranhas, pudesse auxiliar um número cada vez maior de crianças e para que tivéssemos sucesso.
Com ou sem óculos, a leitura e o conhecimento são as bases para qualquer empreendimento.