Crônica da saudade

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Crônica da Saudade
Crônica da Saudade

Dia desses, numa conversa entre amigos, no boteco da praça da cidade, voltou a questão de que a palavra saudade só existe na língua portuguesa.

Engraçado isso. Quem mora na Holanda ou nos Estados Unidos não sente saudade? Quem fala árabe ou grego não sente saudade? Eu sou pessoa de poucos estudos, não fiz faculdade, mas, um dos amigos da roda, professor formado em letras, explicou que em outras línguas se usam outras expressões.

Que em inglês se diz “I miss you”, como uma substituição da palavra saudade. Procurei no dicionário de inglês-português e descobri, desafortunadamente, que significa “eu sinto a sua falta”. Mas para mim não é a mesma coisa. Vou explicar.

Sentir a falta, a gente sente de qualquer coisa. Posso sentir a falta do meu gato, da minha caneca azul, de poder caminhar sob a chuva sem pegar resfriado como quando era criança…. Aliás, falando em criança, sinto falta de quando trabalhava na escola primária da cidade. Eu era da secretaria, passava os dias cuidados de papéis e atendendo ao telefone. E sinto falta.

Não dessa coisa repetitiva e entediante dos papéis, mas de quando podia dar uma volta no pátio e olhar a criançada correndo despreocupada na hora do recreio. Tinha também a professora Hermínia…. Ah! A professora Hermínia…. Dela, sinto saudades. Nunca me atrevi a elogiar aquele par de olhos azuis, mais azuis que o céu de inverno, aquele sem nuvens. Pessoalmente não, mas nos meus sonhos, elogiei uns cem números de vezes.

Mas, voltando às saudades, sinto e muita. Sinto saudades dos finais de tarde, quando meu pai chegava do trabalho, todo sujo e cansado, desejoso de um bom banho para se refrescar. No entanto, não entrava no banheiro sem antes dar um beijo em cada um dos filhos.

Consigo lembrar com clareza da alegria que ele deixava transparecer em seu olhar. E, só depois de banhado e de roupa limpa, é que nos chamava, um a um, nos colocava sentados sobre seus joelhos, nos perguntava o que fizemos durante o dia e nos brindava com um abraço apertado. Disso não sinto falta. O nome disso é saudade.

Lá pelos idos de 1900 e alguma coisa, aos domingos, depois do almoço, minha mãe lavava a louça e nos levava dar uma volta na praça da Igreja matriz. Enquanto isso, a casa ficava quieta e papai podia tirar a sua sesta com o sossego merecido. Quando podia, ela nos comprava sorvete.

O meu preferido era o de baunilha com laranja. Sei lá de onde a dona Juraci arrumou aquela receita. Mas, para mim, era o melhor sabor do mundo. Nunca mais provei algo parecido. Disso sinto falta. Já, das tardes de domingo, passadas com meus irmãos na praça da Igreja, tenho saudade.

Foi numa dessas tardes de domingo que conheci o meu primeiro amor. Heloísa, a menina mais linda da cidade, filha do prefeito. Nesta época, nem desconfiava eu que as barreiras sociais e econômicas tornariam meu amor platônico.

Dessa ingenuidade juvenil, que me fazia acreditar que um dia me casaria ali naquela igreja da praça com Heloísa, sinto falta. Anos depois ela se casou com o filho do doutor, que a trocou pela secretária e Heloísa, deprimida, cometeu suicídio.

Dela, como tenho saudades! Mesmo sem nunca ter chegado a menos de três metros dela, consigo imaginar que sua pele era lisa como de um pêssego recém-colhido e que seu perfume ganhava das rosas em botão desabrochadas após minutos de chuva. De olhar para ela, lá da minha insignificância, sinto muita falta. De poder ter sido seu amor, sinto saudade…

Sim, parece estranho, mas é possível sentir saudade do que não se viveu. Sinto saudade do beijo que nunca roubei, dos banhos de rio que nunca tomei, das coisas que nunca foram mesmo havendo um prenúncio de um vir a ser.

Sentir falta é questão de logística: a coisa está e depois não está mais. A falta é de ter, fala da impermanência. Saudade é questão de sentimento. Falta parece que está ligada à serventia: serve ou não serve. Saudade é coisa atrelada ao amor.

Saudade vira poema. Saudade vira letra de música. Saudade não é de coisa, porque saudade tem forma, saudade tem cor, saudade tem cheiro… Saudade tem nome. Ah! E quantos nomes pode ter a saudade…

As minhas saudades têm tudo isso. E tem dias que a saudade dói. Tem dias que dói como uma farpa cravada debaixo da pele. Parece que a dor é leve e, se você deixa a farpa ali até o dia seguinte, como uma hospedeira sem importância, amanhece com a dor duplicada, com inchaço e vermelhidão e, se bobear, fazendo pus. Sim, a saudade inflama, dá febre, nó na garganta, crise de ansiedade e até depressão.

A saudade faz brotar lágrimas nos olhos, palpitação no coração e pode até levar ao suicídio. Infelizmente não é doença que médico diagnostica nem tem remédio na farmácia que cure.

Para cuidar da saudade que a gente sente, não tem padre, pastor ou benzedeira que resolva. Não tem reza ou penitência. Porque tem saudade que não é possível de resolver, já que muitas vezes a saudade é de quem partiu em definitivo. De quem se foi para nunca mais voltar. Nestes casos, o luto acaba, mas a saudade permanece.

E falando em morte, digo sempre que saudade é algo que não morre. É pior que erva daninha. E olha que erva daninha é coisa tinhosa. Essa, a gente arranca e ela volta. A gente passa veneno, ela volta… Mas um dia a gente resolve cimentar o terreno e a danada vai embora.

Mas a saudade… Ah! A saudade… essa não tem cimento que resolva. A gente mata ela quando olha nos olhos de quem se ama. Ela some dentro de um abraço apertado. A gente beija demorado e pensa, contente, que a saudade se foi… Só pra dali meia hora, depois que o ser amado vai embora, ela voltar a atormentar.

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