Tradição, Tecnologia e os Símbolos do Pertencimento
Meu Avô Stanislau, além de ser uma delicada narrativa sobre memória e filiação, constrói uma reflexão sofisticada sobre formas de comunicação, transmissão de valores e pertencimento cultural.
O filme articula, com rara sensibilidade, o diálogo entre tradição e modernidade não como polos opostos, mas como dimensões complementares da experiência humana.
Nesse sentido, a obra expande sua relevância artística ao incorporar três camadas simbólicas fundamentais: os rádios comunicadores (tecnologia a serviço do coletivo), o balão (utopia e perspectiva) e a pêssanka (memória, proteção e sorte) — elementos que funcionam simultaneamente como dispositivos narrativos e metáforas culturais.
Sinopse do Filme
A trama acompanha Boris (Fhelipe Gomes), um adolescente de 17 anos apaixonado por games e mangás, que, após perder a prova do ENEM, é enviado por sua mãe, Natália (Laura Haddad), para passar um tempo com o avô Stanislau (Ranieri Gonzalez) na zona rural de Prudentópolis-PR. Stanislau, líder respeitado da comunidade ucraniana local, está organizando uma Grande Festa Ucraniana.
O convívio entre avô e neto, inicialmente marcado por diferenças geracionais, transforma-se em uma jornada de descobertas mútuas e reconexão com as raízes familiares.
Elenco Principal
- Fhelipe Gomes como Boris: um jovem urbano e introspectivo que aprende a valorizar as tradições familiares.
- Ranieri Gonzalez como Stanislau: avô de Boris e guardião das tradições ucranianas em Prudentópolis-PR.
- Laura Haddad como Natália: mãe de Boris, uma enfermeira dedicada que busca o melhor para o filho.
- Angélica Bueno como Olga: neta de Marusha, sensível e talentosa, que desenvolve uma amizade especial com Boris.
- Mauro Zanatta como Yujo: vizinho polonês de Stanislau, com quem mantém uma relação de rivalidade e respeito.
- Rosana Stavis como Marusha: esposa de Yujo, figura materna e equilibrada na comunidade.
Ficha Técnica
- Direção: Guto Pasko
- Roteiro: Gil Marcel Cordeiro
- Produção Executiva: Andréia Kaláboa
- Direção Musical: Grace Torres
- Produção: GP7 Cinema
- Coprodução: TV Globo, RPC e GP7
Locações e Cultura
As filmagens ocorreram em Prudentópolis-PR, cidade reconhecida por sua forte influência da cultura ucraniana. Elementos como a arquitetura típica, culinária tradicional e festividades locais são retratados com autenticidade, proporcionando ao público uma imersão na rica herança cultural da região.
Estreia
Meu Avô Stanislau estreou em 2 de fevereiro de 2026, na faixa “Tela Quente apresenta: Cine BBB”, logo após o Big Brother Brasil, sendo transmitido pela RPC e pela TV Globo.
Contato para Imprensa
Para entrevistas, materiais promocionais e outras informações:
- Assessoria de Imprensa da GP7 Cinema: [inserir e-mail e telefone]
- Site Oficial: RPC – Meu Avô Stanislau
Meu Avô Stanislau é uma obra que emociona ao retratar a importância das tradições, do afeto familiar e da reconexão com as raízes, convidando o público a refletir sobre os valores que realmente importam.
Resenha crítica artística e cultural
Estruturada segundo critérios de análise cinematográfica (narrativa, direção, atuação, fotografia, som, mise-en-scène, contexto cultural e significado), com olhar minucioso sobre a riqueza simbólica e estética de Meu Avô Estanislau.
A “Visão Alternativa” de Comunicação: Tecnologia como Ponte, não Ruptura
Um dos aspectos mais interessantes — e frequentemente subestimados — do filme é a forma como ele apresenta uma visão alternativa do tecnológico.
Diferentemente de muitas narrativas que opõem juventude digital e tradição rural, Meu Avô Stanislau propõe uma síntese: a tecnologia não aparece como inimiga da cultura, mas como ferramenta de fortalecimento comunitário.
Os rádios comunicadores, utilizados por Stanislau e outros membros da comunidade para organizar a Festa Ucraniana e coordenar atividades no campo, são carregados de significado simbólico e prático.
- Do ponto de vista cinematográfico:
- A direção de Guto Pasko filma esses momentos com naturalidade, evitando fetichizar o aparato tecnológico.
- Os enquadramentos mostram os rádios em mãos calejadas, sujas de terra, sugerindo uma tecnologia integrada ao trabalho rural, não imposta sobre ele.
- O som dos rádios — com suas interferências sutis — compõe a paisagem sonora do filme, misturando-se ao vento, aos pássaros e aos ruídos do campo.
- Criticamente, isso revela uma visão sofisticada:
“Comunicação eficaz não é apenas velocidade, mas conexão humana e coordenação coletiva.”
Para Boris, acostumado ao mundo dos games e das mensagens instantâneas, os rádios representam uma outra lógica comunicativa — menos individualista, mais comunitária.
Ele percebe que ali a tecnologia serve ao bem comum, e não ao isolamento.
Essa dimensão reforça um dos grandes temas do filme:
“Modernidade não precisa apagar tradição; pode fortalecê-la.”
O Balão: Perspectiva, Ascensão e Reconciliação com o Olhar
O balão usado como meio turístico da região, tornou-se o principal meio de transporte tornando-se um dos recursos mais potentes e estratégicos para a efetiva realização da tão esperada festa.
Do ponto de vista narrativo, o balão cumpre funções múltiplas:
a) Função prática dentro da história
Ele é utilizado como ferramenta para:
- Observar a extensão das terras e suas exuberantes paisagens, montanhas, cachoeiras entre outros;
- Planejar a organização da festa, por conta da queda da ponte devido a forte chuva;
- Visualizar caminhos e espaços de forma estratégica.
Isso reforça a ideia de uma tecnologia alternativa e não invasiva, em harmonia com a natureza — ao contrário de drones ou veículos ruidosos.
b) Função estética e cinematográfica
A sequência do balão é filmada com uma fotografia particularmente sensível:
- Planos abertos revelam a vastidão dos campos de Prudentópolis – PR, ressaltando a pequenez humana diante da natureza.
- A câmera alterna entre o ponto de vista aéreo e o olhar de Boris, criando uma experiência de transformação perceptiva. Cada grupo de visitantes que chegava de balão, era uma vitória para Boris, estava vencendo o desafio proposto pelo avô.
Aqui, o filme dialoga com uma tradição do cinema poético, em que o voo representa:
- Libertação,
- Mudança de perspectiva,
- Transcendência simbólica.
c) Função simbólica: ver o mundo de outro ângulo
Para Boris, o momento no balão é um ponto de virada emocional e cognitiva.
Lá de cima, para ele não é poder ver apenas a paisagem, e sim, reinterpreta sua própria história.
O balão funciona como metáfora visual de:
- Elevação do olhar,
- Distanciamento crítico do cotidiano,
- Reconexão com algo maior que si mesmo (a terra, a família, a cultura),
- Quando não há ponte, ou os pés no chão, o balão fez a vez de que devemos sonhar alto e para atingir os objetivos.
Cinematograficamente, esse é um dos momentos mais líricos do filme, onde natureza, tecnologia e emoção convergem em um mesmo gesto poético.
A Pêssanka: Mensagem Subliminar de Sorte, Proteção e Pertencimento
Talvez o elemento mais delicado e profundamente simbólico do filme seja a pêssanka — o tradicional ovo decorado ucraniano — que Olga presenteia a Boris.
a) A pêssanka como objeto cultural e espiritual
Na tradição ucraniana, a pêssanka não é um simples adorno:
Ela carrega significados de:
- Proteção,
- Fertilidade,
- Renovação,
- Continuidade da vida,
- Boa sorte.
O filme dedica um cuidado visual especial a esse objeto:
- Close-ups revelam seus desenhos intrincados,
- A textura do ovo é filmada com luz suave,
- A cena é quase ritualística em sua delicadeza.
Isso demonstra um respeito profundo pela cultura retratada — não como exotismo, mas como patrimônio vivo.
b) A mensagem subliminar de Olga
Quando Olga entrega a pêssanka a Boris, desejando-lhe sorte, o gesto ultrapassa o nível literal.
Do ponto de vista crítico, essa cena condensa vários sentidos:
- Acolhimento cultural:
Olga, pertencente à comunidade, simbolicamente “inicia” Boris nesse universo, oferecendo-lhe um fragmento material e espiritual da tradição. - Reconhecimento afetivo:
O presente não é apenas cultural, mas emocional — ela reconhece nele alguém que está aprendendo, crescendo e se transformando. - Transmissão intergeracional:
A pêssanka funciona como elo entre passado e futuro, tradição e juventude.
c) O beijo surpresa: gesto de transformação
A devolutiva de Boris — um beijo surpresa em Olga — é um dos momentos mais sutis e significativos do filme.
Importante notar:
Não é um beijo romantizado ou dramático. Ele é espontâneo, quase impulsivo, carregado de descoberta.
Do ponto de vista cinematográfico e psicológico, esse gesto representa:
- O momento em que Boris deixa de ser apenas observador e passa a participar afetivamente daquele mundo.
- Uma resposta não verbal à aceitação recebida.
- Um marco de sua transformação interior: ele já não é mais o garoto distante e fechado do início do filme.
A câmera de Guto Pasko captura essa cena sem exageros:
- Plano médio,
- Silêncio momentâneo,
- Expressões contidas — reforçando a autenticidade do instante.
O beijo não é apenas um gesto romântico; é um símbolo de integração.
Síntese Interpretativa: Tecnologia, Tradição e Afeto como Sistema Integrado
Ao articular rádio, balão e pêssanka, o filme constrói uma teia simbólica coerente:
|
Elemento |
Dimensão prática |
Dimensão simbólica |
| Rádio comunicador | Organização e coordenação | Comunicação comunitária |
| Balão | Observação e deslocamento | Mudança de perspectiva |
| Pêssanka | Presente cultural | Proteção, sorte e pertencimento |
Juntos, esses três elementos estruturam a jornada de Boris:
- Ele aprende a ouvir (rádio),
- Aprende a ver de outro ângulo (balão),
- Aprende a pertencer (pêssanka).
Essa tríade confere ao filme uma densidade filosófica rara na produção televisiva brasileira.
Conclusão Crítica
Na qualidade de jornalista, acredito e concluo que a inclusão desses elementos, Meu Avô Stanislau se revela ainda mais complexo e sofisticado do que uma simples narrativa familiar.
Trata-se de uma obra que propõe uma visão humanista e equilibrada do mundo contemporâneo:
- A tecnologia pode servir à comunidade.
- A tradição pode dialogar com o presente.
- O pertencimento nasce do encontro entre afeto, cultura e experiência compartilhada.
Artisticamente, o filme atinge um nível elevado ao transformar objetos cotidianos (rádio, balão, ovo decorado) em símbolos cinematográficos potentes.
Culturalmente, reafirma Prudentópolis – PR como espaço de resistência e continuidade identitária.
E emocionalmente, nos lembra que crescer é aprender a olhar, escutar e sentir de maneiras novas.
Uma obra profundamente sensível, esteticamente refinada e simbolicamente rica — um verdadeiro encontro entre passado, presente e futuro no cinema brasileiro.
Não devemos esquecer das frases célebres do filme:
- Sobre tecnologia e vida real: “Não adianta ser capitão aí nesse negócio de internet. Se aqui, no mundo real, você corre do jogo”. Stanislau
- Sobre ancestralidade: “Meu filho, uma semana fora da internet não vai fazer mal pra ninguém“. Natália
- Sobre o conflito de gerações: “Se você conseguir fazer os dois enxergarem o futuro que você vê, uma hora atrás eles vão acabar entendendo”. Olga
- Gerson Ricardo Garcia
- Jornalista MTb 9460-PR – Ceo da aEmpreendedora
- Pesquisador Científico ORCID – (Open Researcher and Contributor ID) nº 0009-2525-3817
- LinkedIn: Gerson Ricardo Garcia
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