O Natal – Imaginário Coletivo e simbolismo

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O Natal - Imaginário Coletivo e simbolismo

Mais que crendices, essências singulares de uma fé pessoal.

O Natal na contemporaneidade, é uma festa que se confunde em comilanças e bebedices bacanais; honras ao menino Jesus; culto a Sant’Nicolai dentre outras crendices singulares.

Mas, tudo isso, não passa de imaginário coletivo aspirante da fraternidade universal, a alegria e a boa vontade e fé pessoal.

Natal é um arquétipo que excede mares e culturas e é perpetuado no simbólico das expressões universais, e serve como mote para se pensar a solidão ou problemas sociais.

Natal é tempo de abertura do imaginário coletivo frente a suas angústias e esperanças.

Quando falamos de Natal, remontamos a muitas crendices e tradições. Poderia citar umas e outras, tais como, festividade hinú chamada Diwali – quando lâmpadas de argila cobrem as paredes dos lugares na Índia, semelhante ao pisca-pisca ocidental; o Janukà – uma festividade judia em que as crianças recebem presentes de seus familiares, e tantas outras.

O Natal cristão, em especial a menção ao nascimento do Cristo, não pode ser baseado apenas numa crença a uma criança nascida em uma manjedoura.

Sabemos que a missão de Jesus somente ocorreu quando este já era adulto, mais precisamente, aos 30 anos. Para isso percorreremos um pouquinho sua história.

O período em que Jesus nasceu e se desenvolveu, foi marcado por grandes transformações sociais no mundo, e em especial, no oriente próximo.

Israel subjugada ao império Romano, rompia tradições milenares e facções religiosas imperavam os judeus. Jesus nasce, cresce, se instrui e passa a ser um formador de opiniões nesse cenário eclético.

São muitas versões canônicas e apócrifas sobre o mestre de Nazaré, para não dizer hereges.

Mas, este artigo não se baseia numa apologia, e sim a uma reflexão sobre em que consiste de forma singular e pessoal o natal para a humanidade.
Eu disse: pessoal e singular. A tautologia é proposital.

Ao preparar essa reflexão, fui inspirada pelo trecho do romance de Hilda Hilst, Nossa! O que há com o teu peru?:

“Sim, é verdade, eu tenho medo das gentes, para dizer a verdade eu me cago de medo das gentes! O que eu tenho visto de pulhas, de máscaras atadas dia e noite sobre umas caras de pedra… O que eu tenho visto de mesquinharia, de crueldade, de torpeza, de estupidez… Que Natal? Que Natal? Mudou o quê depois do nascimento do bebê?”

Nessa ironia, reforço meu pensamento: Que menino? Que menino? Uma criança recém-nascida, ainda que Cristo, não poderia sequer fugir do inverno e falta de provimentos naquele suposto ano de 4 a.C. Poderia o menino Jesus mudar o mundo?

Em que isso minimiza o poder do Cristo?

O fato de ser uma criança, ou sua existência humana, marcada pela experiência e luta pela santidade? Não é essa a cerne de nossa provocação. Jesus, homem, descrito pelo autor dos hebreus, não era nada frágil nem limitado:

Pois não temos um sumo sacerdote que não seja capaz de compadecer-se das nossas fraquezas, mas temos o Sacerdote Supremo que, à nossa semelhança, foi tentado de todas as formas, porém sem pecado algum”. (Hebreus. 4:15 – Bible King James)

A grande polêmica dos últimos dias está a par dessa referência bíblica. Afinal de contas, não satirizariam a história cristã de Jesus como beberrão, gay, endemoninhado e etc.?

Se não conhecessem a narrativa na íntegra seria impossível tal comédia. O conhecer, nem sempre sugere respeito ou fé.

Muitos debates se abriram, discussões inusitadas e ofensas banais. Algumas até jurídicas. Youtubers de plantão estão fazendo festa com os mais despercebidos, trazendo suas próprias opiniões e angariando likes sem limites.

A guerra da liberdade de opinião só começou nessa modernidade hedonista.

Nosso desafio é construir um ponto em comum nessa pluralidade de opiniões, que eu, inclusive, penso ser rica e construtiva. Às vezes cansativa, mas própria ao diálogo e respeito mútuos.

Contudo, o desafio de traçar um ponto comum em meio a tanta informação, soaria como uma espécie de Eldorado cognitivo. Talvez em nosso espaço não convenha tanto.

Jesus-Homem, tal qual os Arianos do século 3 d.C., acreditavam, sem a possibilidade do dogma da encarnação ou divindade, seria para nós hoje, de fato, uma heresia como o retratou o Concílio de Nicéia na ocasião?

Se analisarmos o que as escrituras, baseada nas declarações dos apóstolos e simpatizantes do Cristo descreveram, perceberemos que Ário não poderia estar tão errado assim.

Fato é que, todos os que contestassem esse dogma da igreja, já seriam anátema.

Tertuliano abriu o caminho para uma densa discussão que se estende até nossos dias. Nem mesmo Santo Agostinho conseguiu em suas Confissões, resolver esse enigma considerado um dos “maiores mistérios da Igreja”.

O que sabemos, é que, em muitos cultos de mistérios da antiguidade essa ideologia trinitária era passível de crença.

Nos antigos mistérios Egípcios: Isis, Osíris e Hórus marcavam anualmente a tragédia e ressurreição dos deuses em sua infinita luta entre Rá e Seth, uma espécie de tríade divina reconstruía a esperança de um novo ano, após cada circuito solar.

Tal qual Hórus, Jesus nasceu de uma ‘virgem mãe do universo’, e seu pai, ‘deus’, aparece num dilema sem fim.

Essa incessante luta pela retomada do poder das trevas, assemelha a luta entre Ahriman e Ahura-mazda, do zoroastrismo persa.

Os mitos se perpetuam no coletivo (imaginário e real).

Como nosso interesse é o natal cristão, voltemos para Jesus. O autor de Hebreus fala de um Homem sem pecado, tentado como qualquer humano, mas fazendo o exercício constante de sua liberdade de escolha para dizer não ao modal de sua época.

Observem que em Mateus 4:1, o autor narra: Jesus foi então conduzido pelo Espírito, ao deserto, para ser tentado pelo Diabo. A denotação para pecado, era referente a “errar o alvo”, não cumprir uma dada meta, costume, tradição vigente.

Observe que, se levarmos em conta o comportamento de Jesus em relação aos religiosos da época de forma radical, não pecaremos em dizer, que Jesus pecou! Calma, relaxe.

O que quero despertar neste espaço é uma abertura para a compreensão de que as crenças, apesar de culturais, tem formas muito singulares de serem compreendidas quando comparadas.

O judaísmo daquela época, em termos de tradição, não era mais o mesmo desde o retorno dos Judeus da Babilônia. Israel havia sido atravessado por muitas outras tradições e crenças religiosas, logo, não conservava em sua pureza, a tradição do deserto.

Os fariseus, saduceus e essênios eram apenas algumas das muitas vertentes religiosas e litigiosas entre si no Israel da época de Jesus. O culto a IHVH, já havia sido substituído por muitas nuances e o sincretismo era observado a larga escala.

Se Jesus de fato tinha uma missão religiosa ou política, até hoje é motivo de exegese entre os protestantes e católicos. Mas, o que temos é um Jesus humano, como Nietzsche insiste: demasiadamente humano, que em sua trajetória entre os seus, optou por amar e cuidar dos que vinham até a ele. Parece que Jesus não tinha muito tempo para outras modas na época.

Algumas manifestações religiosas por exemplo, não comemoram o natal ou natalícios, por conta da narrativa da morte do profeta João – o Batista, no templo de Herodes, por este exortar ao Rei dos Judeus, por não cumprir os princípios de santidade que um representante do povo de D’us, precisava seguir.

Vale lembrar que Herodes, mesmo instituído rei dos judeus não tinha direito sacerdotal e muito menos real, por não pertencer a tribo de Judá, dinastia do Rei Davi. Herodes era edumeu, uma tribo Cananeia.

Foi entronizado como rei de Israel por questões políticas e interesses diplomáticos após a guerra dos Macabeus.

Jesus não parecida nada incomodado com o reinado de Herodes. Nem mesmo pretendeu tal ofício. Em muitas narrativas, em especial no evangelho de João, capítulo 18:36, ele diz: Meu reino não é deste mundo!

Quando Pilatos o perguntou se ele era rei de Israel, Jesus o perguntou:

Estás dizendo isso por ti mesmo, ou outros te disseram isso de mim? Jesus não satisfaz de forma imperativa a pergunta de Pilatos, porém deixa claro que sua missão humana e humanitária era a causa de todo ódio contra Ele:

“Tu dizes acertadamente que sou rei. Por esta causa Eu nasci e para isto vim ao mundo: para testemunhar da verdade. Todos os que pertencem à verdade ouvem a minha voz.” (Versão King James, João 18: 36b – 37.)

Ainda que vivido tão pouco tempo, Jesus deixou marcas que perpetuam até nossos dias. Não digo apenas as marcas das mãos e das chagas, mas de uma alteridade sem precedentes, disposta a dar sua vida por muitos, inclusive “pecadores”.

O que mais me chama atenção nessa narrativa é que Jesus não se limitou ao modismo, às crendices, e nem mesmo se preocupou em ficar confrontando-as.

Ao invés seguir os zelotes e talvez causar uma revolução, ele compreendeu que esta era a missão de Bar-Habas.

Jesus se dirigiu à periferia, à margem do Jordão e do Mar da Galileia, às ruelas sujas, aos poços e sarjetas dos prostituídos, e tudo isso apenas para dar sentido aos pobres e vazios de alma. Digo alma no sentido das emoções e afetos.

Jesus parecia vaticinar seu curto tempo no corpo. O corpo era algo que ele precisava garantir como saudável e altruísta para cumprir sua ‘missão’! Jesus, andou, correu, nadou, comeu, bebeu, sorriu, chorou, amou, foi traído, ganhou e perdeu muito. Jesus não tinha tempo para vãs discussões que não nos levam a lugar nenhum.

Mas ouviu, pediu colo, deu colo, abraçou leprosos e cuspiu em olhos cegos. Jamais deixou de ser humano. Como homem, Ele presenciou, sentiu no corpo e padeceu muitas dores.

Maiores que qualquer outro sem motivo aparente ou juízo que lhe imputasse a pena. Hebreus 5:2 diz:

Ele é capaz de compadecer-se dos que não têm conhecimento e se desviam, considerando que ele mesmo está rodeado de fraquezas”.

Em Romanos 8:3 temos:

“Porquanto, aquilo que a Lei fora incapaz de realizar por estar enfraquecida pela natureza pecaminosa, Deus o fez, enviando seu próprio Filho, à semelhança do ser humano pecador, como oferta pelo pecado. E, assim, condenou o pecado na carne […].

E tudo isso por um propósito: Considerando, portanto, tudo o que Ele mesmo sofreu quando tentado, Ele é capaz de socorrer todos aqueles que semelhantemente estão sendo atacados pela tentação. (Hebreus 2:18).

Finalmente, compreendemos que temos sim, em tempos sombrios, a necessidade de parodiar, de satirizar o abuso religioso, as multiformas de ofender e destituir de liberdade as pluriformas de expressão do ser humano. Contudo, jamais foi missão cristiana privar o homem de seu lugar no ser.

Com todo abuso descrito pela história ao longo da humanidade, a religiosidade cristã, não é maior que qualquer outro tipo de intenção contra a liberdade e a vida. Claro, se tratando de uma agente de amor e boas novas de paz e fraternidade, o cristianismo deixou muito a desejar, e ainda o faz.

Entretanto a generalização e absolutização não nos trouxe respostas mais dignas ou eficazes. Muito menos altruístas. O que se espera hoje não é um cristianismo tolerante e hedonista, mas um cristianismo humano e cristão.

Em Cristo, temos o exemplo desse amor e liberdade, que não deve ser rotulada e nem mesmo defendida como esta ou aquela prática ser melhor ou mais prazerosa.

O cristianismo não é culto da carne, nem apologia ao prazer, ou vice-versa.

O cristianismo de Jesus tem um marco para a leveza do ser. Para um despertar do que é o ser em sua essência e qual o propósito da vida.

Em virtude dos que parodiam pelas portas dos fundos, o termo já explica tudo. Jesus é a porta, mas não de fundos. Ele é a boa entrada, estreita e justa, e não dá para entrar atrelado em fundamentos e estratégias modais.

Na parábola do Bom Pastor, ele mostra essa intimidade. Porta dos fundos é para serviçais e salteadores. Ele é a porta de entrada que muitos rejeitaram.

A todos que entrarem por ela, deu poder de serem chamados Filhos de D’us:

“Na verdade, na verdade vos digo que aquele que não entra pela porta no curral das ovelhas, mas sobe por outra parte, é ladrão e salteador. Aquele, porém, que entra pela porta é o pastor das ovelhas. A este o porteiro abre, e as ovelhas ouvem a sua voz, e chama pelo nome às suas ovelhas, e as traz para fora”. (Jó. 10:1-7)

Finalmente, retomo o Natal. Pela porta da frente. No sentido de desejar-vos que se faça luz ante a tantas trevas e abuso.

Que nasça em cada um de nós, não um espírito, mas um corpo ajustado, equilibrado, dotado de alteridade e disposição em compreender que nada pode alterar o que já é por si só: Senhor e Rei!

Concluo com a exortação de Paulo ao Jovem Timóteo:

“Sabe, entretanto, disto: nos últimos dias sobrevirão tempos terríveis. Os homens amarão a si mesmos, serão ainda mais gananciosos, arrogantes, presunçosos, blasfemos, desrespeitosos aos pais, ingratos, ímpios, sem amor, incapazes de perdoar, caluniadores, sem domínio próprio, cruéis, inimigos do bem. Sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons, Traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus, Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te. Porque deste número são os que se introduzem pelas casas, e levam cativas mulheres néscias carregadas de pecados, levadas de várias concupiscências; Que aprendem sempre, e nunca podem chegar ao conhecimento da verdade. (II Timóteo. 2:3-7).

Em Pedro temos o conselho estratégico:

“Afasta-te principalmente dos que seguem as vontades imorais da carne e desprezam toda autoridade constituída. Atrevidos e arrogantes! Tais pessoas não têm receio nem mesmo de insultar os gloriosos seres celestiais. Mas, isso não justifica ofensas, julgamentos e preconceitos. Apenas o respeito a liberdade e escolha de cada um, mas aos que vierem até a nós a abertura e a reconciliação em si mesmo e a D’us”.

Só me resta então, desejar Feliz natal! Pela entrada da frente aberta e disposta ao diálogo cristão e humano. Pela chaminé, nem todos cabem, pelos fundos, não dá para suportar as relações e hierarquias preconceituosa.

Para isso resta nascer e florescer, naquele que é a Porta, e aberta está para quem desejar, um lugar para além da manjedoura.

Com vocês em meu coração, reinvento um 2020 cheio de alegria e prosperidade!

Da Amiga,

Chris Viana

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