O Poder das Bruxas – Conto de Heloisa Kishi

Era uma noite excepcionalmente escura

O Poder das Bruxas – Eu andava cabisbaixo, havia acabado de brigar com o meu amor. Estava a pé, saí do carro dele num ímpeto, sem pensar. Esqueci que não estava na praça como de costume, minha casa ficava há três quadras dali, porém precisava atravessar um bosque que àquela hora era muito escuro por ter árvores altas que escondia a luz do luar.

Meu nome é Michele de Avelar. Meu noivo, Pedro Afonso estava estranho, queria sexo de todo o jeito, eu queria que fosse do jeito certo, só após o casamento, e ele insistia. Brigamos.

Ouvi um chiado, parecendo esganiçar de um tigre, mas ali? Um tigre? Ri de meu pensamento e segui em frente.

Outro chiado, levantei o rosto e vi um vulto passar muito rápido. Estou sonhando? Tendo um pesadelo? Acho que estou emocionalmente alterada com a briga. Dei mais dois passos, de repente um ar congelante, à minha frente um manto preto e um chapéu pontiagudo também preto, cheirava a fumaça, uma vassoura e uma mão cadavérica, fiquei estática. Mesmo querendo, meus pés não obedeciam. Abri mais os olhos e vi dois rubis brilhantes a centímetros de meu próprio nariz.

Oh meu Deus! Não é um sonho, uma bruxa está mesmo ali, à minha frente, com aqueles cacos de dentes apodrecidos e pontudos, num sorrir sem sorriso. Ouvi então outro chiado que vinha de um gato preto gigante, bem ao lado dela. Gemi e fiquei toda arrepiada. Vou morrer, pensei num ímpeto.

Ela me pegou pelo braço quase jogando-me na vassoura e num salto estávamos no ar, voando alto, direto para a lua.

Lua, estava excepcionalmente grande e brilhante, me dei conta que esta era a noite de lua cheia, quando tudo acontece. Até aparição de bruxas e duendes era permitida. Tremi, mas não era medo, sim um frenesi. Sentia que algo grandioso iria acontecer.

Lá no centro do bosque, uma clareira, uma choupana, uma fogueira. Mais bruxas faziam algazarras, bebiam e riam muito alto. Voavam em suas vassouras, como um bêbado no volante, em ziguezague medonho, as vezes dava impressão de uma colisão, mas no último momento desviavam uma da outra, seguindo seu curso, gargalhando.

A bruxa que me sequestrou, ou melhor dizendo, resgatou da noite escura, da tristeza e da raiva sem fim que estava sentindo naquele momento, num misto de medo e ódio.

– O ódio me atrai, você me atraiu e vim em seu socorro. Sei de tudo, bora fazer maldade para compensar o seu ódio – disse arrastando-me para trás da árvore frondosa, onde vi um caldeirão fumegante sobre a fogueira. Eu sentia gelo e fogo dentro de mim, quando estou perto dela.

Medo tomou conta de mim – é agora que viro sopa de bruxas. – Comecei a tremer sem parar, olhar arregalado, quando a bruxa me vê e dá uma gargalhada, que daria para ouvir lá na lua.

– O caldeirão é para sopa sim, porém podemos chamar de poção, se isso amenizar o seu medo.

Gargalhou de novo de segurar a barriga.

Meio envergonhada pensei – Poção de quê? De amor?

Outra gargalhada. Ai, essa bruxa lê meus pensamentos, preciso me policiar.

– A poção é para fazer maldade a quem te deixou assim, cheia de ódio. Essa mágoa se acalmará quando você der a ele de beber, e ele virar sapo.

Sapo??? Meu Deus, não sou assim, apesar da briga, ainda o amo. Não quero fazer maldade a ele. O que eu faço? Como sair dessa? Quero acordar se for pesadelo.

Meu pensamento ia a mil, logo parei, ela sabia tudo que eu pensava.

Ela veio pé ante pé, ameaçadora, com dedo em riste, vassoura na outra mão. Pensei: Vai me pedir para varrer o quintal?

Ela ficou vermelha, furiosa e gritou:

– Ninguém me chama assim, à toa, e depois se arrepende. Você não pensou que se pudesse não iria querer vê-lo nunca mais? Pois então, cadê esse sentimento delicioso que soou como música aos meus ouvidos?

Eu encolhi, ficando quase de joelhos, medo e frio, ela chegava perto e parecia que eu entrava na geladeira.

– Faço qualquer coisa, menos isso, ele vai casar comigo. – Eu disse, gaguejando.

– Vou lhe mostrar uma coisa, depois você decide.

Abriu o manto roto, pegou uma coisa muito brilhante, uma bola gigante, que nem sabia estar ali, naquele corpo magro e ossudo. Colocou numa banqueta e se sentou no chão, me convidando para acompanhá-la num ritual.

Depois de alguns minutos ela abriu os olhos, mais vermelhos que antes, dizendo umas frases, e apontou, para que eu visse dentro da bola.

Meu então noivo, sentado no banco do carro, e na carona, no meu lugar estava uma loira linda. Sorria admirando uma coisa no dedo anelar. Um anel de noivado. Aquela não é a lambisgoia da garçonete do restaurante que ele gosta de me levar, elogiando a comida dela?

Desmaiei.

Ao acordar, estava deitada num colchão de feno, a noite ia alto, era madrugada, as bruxas cantavam e dançavam já bêbadas nas poções que tomavam. Só a minha sequestradora, resgatadora, sei lá mais o que, estava lá sentada ao meu lado, aguardando a minha decisão.

Levantei-me num ímpeto, indo direto ao caldeirão fumegante, cheirei, não gostei do cheiro forte, dava ânsia de vômito.

– Se você decidir mandá-lo para o brejo, literalmente falando, coloque as pontas de seus cabelos dentro e mexa.

Gargalhou forte, e rosnou, já prevendo o resultado.

Peguei o facão que estava ali perto, cortei as pontas, não, uma mecha inteira de meus cabelos, onde ele sempre queria luzes douradas, com ódio do que havia visto na bola de cristal, sentindo a traição nos ossos, estava sofrendo muito, sabe Deus há quanto tempo já estava durando isso. Joguei com raiva dentro da água borbulhante, mexi com gosto, imaginando no modelo do sapo que queria que ele se tornasse. Ele não seria dela, aquela intrometida.

O poção começou a dar cor, cheiro e fumaça, deixando-me tonta. Cada virada de colher que eu dava ficava mais brilhante, numa tonalidade lilás. Estava começando a dar cor, e quando a bruxa tirou uma concha e colocou no frasco, parecia ser vinho tinto. Daquele que ele amava.

Colocou um rótulo e disse:

– Dê a ele, diga que é presente de reconciliação. Durma a noite com ele, faça sexo com ele, senão a poção não funcionará. Ele precisa tomar quando estiver saciado de seu corpo. Você terá uma surpresa bem grande. Por outro lado, você terá conseguido dele, um presente.

Colocando a poção num bornal colocou no meu ombro em transversal, recomendando cuidado para não quebrar, senão o azar reverteria contra mim. Se não utilizar a poção como recomendado, também me causaria azar.

Levou-me de volta, deixando-me no bosque, onde pela manhã acordei deitada num banco do jardim.

Será que foi um sonho? Será que desmaiei aqui e sonhei tudo aquilo? Apalpei o meu peito com esse pensamento e encontrei o bornal, que tirou toda a minha dúvida.

Fiquei desolada, e agora?

Fui para casa, tomei aquele banho gelado, a água estava excepcionalmente gelada, pensei que a bruxa estaria por perto para conferir se eu teria coragem suficiente. Nem de banho gelado eu gostava.

Fui para a cama, entrei na coberta e dormi, estava um caco, quando acordei a tarde estava amena, mas a brisa soprava gelada.

Fechei a janela e fui me arrumar, quando a campainha tocou.

Fui abrir e quem estava lá? O noivo traíra. A raiva veio à tona, o ódio esquentando o meu corpo, até tremia. Ele pensando que fosse de saudades, abraçou-me e tentou me beijar.

Eu queria expulsá-lo, mas tinha que completar a missão, então convidei-o a entrar, puxando-o para o sofá. Ele se ajeitou e tentou novamente, avançando um pouco mais nas carícias. Não aguentei, explodi:

– Quem é a loira? O que era aquilo que vi? Uma aliança de noivado?

Ele ficou atônito, como ela descobriu? E agora? Eu preciso me casar com ela, senão não poderei me casar com o amor de minha vida, eu preciso do dinheiro desta para ser feliz com aquela. O que vou fazer? – O pensamento dele ia célere.

Não sei como, eu ouvi todo o pensamento dele, como se fosse a própria bruxa, e a cada pensamento dele, ia sentindo que precisava completar a missão.

Puxei-o para o quarto, deitei-o na cama, tirei toda a roupa dele e o vi pelado pela primeira vez, não era grande coisa afinal, pensei. Sentei-me nas pernas dele e comecei a tirar as minhas roupas, ficando somente de calcinha. Rebolei sobre a ereção dele e ele ficou doido, me puxou e começou a rebolar também, me deixando molhadinha.

Tirou a minha calcinha e sem pudor e nem tato, penetrou-me arrancando um grunhido de dor, mas depois gostei, ficamos nessa dança até saciarmos todo o prazer guardado. Em seguida, puxei a garrafa e uma taça.

Falei para ele que teríamos que brindar o momento, e coloquei o conteúdo para que ele sorvesse o líquido. Ele cheirou, aprovou e tomou, sem ao menos perguntar se eu queria, o que foi bom.

O homem era egoísta e brutal, afinal, não perdi grande coisa, satisfeita, fui ao banheiro me lavar.

Ao sair, já vestida, o susto foi tão grande que desmaiei.

Ao acordar, a surpresa foi maior ainda, eu estava vestida de bruxa, com uma roupa igual a de Milena, a bruxa que me resgatou. Disse que eu tinha sangue de bruxa, que um dia iria aflorar.

Ela disse que era minha irmã, que nossa mãe havia me deixado na calçada da casa de quem me adotou e me criou como se fosse filha deles, era uma família de posse. Deixou a herança ao morrer num acidente, eu era filha única deles.

Minha mãe, bruxa de longos século, teve gêmeas idênticas, o que era proibido entre as bruxas, a mãe teria que sacrificar uma delas. Então a mãe se sacrificou deixando a filha querida, mas não a desamparou. Milena sempre soube da minha existência, e na hora certa me levaria.

O Pedro Afonso virou um sapo medonho, horroroso, verde e tinha um nariz tão pontudo que o deixava mais bizarro ainda, mas fugiu pela janela, e só Deus sabe para onde.

A noiva loira, desenganada, endoideceu ao perceber que o noivo não voltaria mais. Pois esperou por dias, sentada na calçada, não comia, não se lavava, não dormia, até ficar louca.

Eu, Michele de Avelar, que de Avelar não tinha nada, doei meus bens para uma entidade que abriga crianças abandonadas, fui viver a minha vida de bruxa, com minha irmã Milena, para sempre.

Entre em contato para mais informações pelo Instagram: @heloisakishi

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