Uma memória atravessa o tempo e retorna para observar, em silêncio, o que ficou para trás
Quando a morte não foi o fim – Há acontecimentos que não se encerram quando terminam. Eles permanecem, ecoam, atravessam gerações e, de alguma forma, continuam acontecendo dentro de nós. O acidente no Rio Turvo, em 1960, foi assim.
Eu estava lá. Eu morri ali. E, ainda assim, hoje estou aqui — olhando para aquele dia com outros olhos, em outro corpo, carregando sentidos que se misturam entre o que fui e o que sou.
Não escrevo como historiador nem como observador distante. Escrevo como alguém que atravessou aquele instante e voltou ao mundo em outra forma, trazendo fragmentos de uma experiência que o tempo não apagou.
O instante que não termina
Há um momento em que tudo muda, mesmo que o mundo continue girando. Para quem estava no ônibus, aquele dia era apenas mais um. Para quem ficou, ele se tornou uma ruptura. Para mim, foi um atravessamento. Não consigo falar em fim, porque o que veio depois não foi silêncio absoluto, mas um deslocamento.
Hoje, quando penso naquele instante, não o vejo apenas com a lógica da razão adulta. Ele chega como sensação. Como um aperto sem nome. Como um eco que se manifesta no corpo antes de virar pensamento. O passado não aparece como lembrança organizada, mas como emoção crua, deslocada no tempo.
É estranho perceber que algo tão distante cronologicamente ainda pulsa no presente. Mas pulsa. E pulsa forte.
Ver de fora aquilo que vivi por dentro
Existe algo profundamente desconcertante em revisitar um acontecimento do qual se fez parte sem estar mais ali da mesma forma. Observar o acidente hoje, com a consciência de outra vida, é como assistir a uma cena conhecida sem conseguir intervir. Os sentidos se confundem: empatia com quem sofre, saudade do que foi interrompido, gratidão por estar vivo novamente.
O que mais impressiona não é o fato em si, mas o que ele gerou. As famílias, o luto coletivo, o silêncio que se espalhou pela região. Percebo, agora, que não fomos apenas jovens que partiram cedo. Tornamo-nos uma memória viva, uma referência silenciosa que moldou comportamentos, escolhas e medos.
A dor não ficou restrita àquele dia. Ela se espalhou no tempo, criando laços invisíveis entre pessoas que jamais se conheceriam de outra forma.
O que permanece quando tudo passa – Quando a morte não foi o fim
Décadas depois, o rio segue seu curso. As cidades cresceram. A estrada que era de terra hoje tem asfalto, Ninguém precisa mais andar com a camiseta enrolada na cabeça para evitar a poeira da estrada. Os ônibus modernizaram e ninguém mais anda sem cinto de segurança, a velho ponte do Rio Turvo, nem existe mais, outra ocupa seu lugar, Outras crianças nasceram, outros sonhos surgiram.
Ainda assim, algo daquele dia permanece vibrando. Não como tragédia congelada, mas como aprendizado coletivo. Como lembrança de que a vida é frágil e, justamente por isso, preciosa.
Hoje, ao olhar para aquele episódio, não sinto apenas tristeza. Sinto um chamado silencioso à responsabilidade de estar aqui. Se voltei, se sigo caminhando em outra roupagem, talvez seja para viver com mais presença, mais cuidado e mais sentido.
A morte não foi o fim. Foi uma travessia. E lembrar disso é, para mim, uma forma de honrar quem ficou, quem partiu e quem continua tentando entender o que fazer com a chance de estar vivo.
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