Quem era aquela menina?

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Cris e autorretrato bordado
Cris e autorretrato bordado

Dos porquês que envolvem uma menina até as respostas de como uma mulher se transforma. Uma crônica sobre o que é ser artista e tantas outras coisas mais…

Por que aquele cabelo com um redemoinho do lado direito da testa, que não deixava seu cabelo ficar repartido ao meio, como os da gravura da Nossa Senhora?

Por que aquelas sobrancelhas tão espessas, tão parecidas com a de seu pai?

Por que não tinha os olhos azuis como o céu brilhante que observava todos os dias pela janela de seu quarto?

Por que escolhia jogos de encaixar enquanto as bonecas ficavam num canto?

Por que brincadeiras de casinha só faziam sentido com outras crianças?

Por que estar só também era tão bom, como a sensação de ser livre, mas dava medo?

Por que tanta gente a sua volta e ainda assim, ouvia uma voz na cabeça?

Por que escrever com giz era como descobrir que aquelas linhas lhe abriam para outro mundo?

Por que lhe vinha um desejo de dançar e mexer em todo seu corpo como quando enfiava as mãozinhas na terra molhada?

Por que sempre que ouvia música, já não conseguia ficar parada?

Por que sonhava tanto, acordada?

Um dia cortava os cabelos da susy, sozinha, no sofá da sala principal do apartamento sobreloja.

A porta da casa estava sempre aberta com os degraus para o patamar intermediário que tinha uma janela bem alta que por sinal, ficava na mesma direção da porta. Essa janela era da cozinha, bem onde ficava o fogão.

A menina estava bem alinhada na direção da porta e da janela. De repente, ouviu gritos e um barulho alto e abafado.

Ao mesmo tempo que olhou para frente e avistou um clarão atrás daquela janela, ouviu as irmãs correndo, descendo as escadas, a mais nova no colo de uma das mais velhas, todos gritando, inclusive o senhor que fizera a besteira de acender um fósforo ao trocar o botijão de gás.

Ela num movimento automático segurando a boneca numa das mãos e na outra a tesoura, desceu as escadas assustada, todos saindo e, da casa da tia que morava em frente, viam-se as chamas tomarem conta de uma parte da casa.

O choro, o susto, o medo… quem era aquela menina que dali por diante choraria por muitas noites, se a mãe não estivesse em casa?

Mas a menina não olhava mais para a susy, e não importava se ela tinha cabelo curto ou se ficasse careca. O fogo que agora queimava era o da menina.

Por que tinha que usar um sapato tão feio para ir à escola?

Por que sua mãe sempre lhe cortava os cabelos como de um menino?

Por que tinha que sempre brigar com sua irmã, só dois anos mais velha?

Por que não podia assistir o planeta dos macacos, se ainda eram 9 da noite?

Por que tinha que participar de grupos religiosos mesmo depois da sua primeira comunhão?

Por que seu pai rezava todos as noites o terço do rosário e algumas ainda de joelhos e braços abertos?

Por que sua mãe insistia em falácias para sua autoproteção?

Por que seus pais trancavam a porta do quarto certas noites?

Por que era feio se tocar e ter prazer?

Por que lhe parecia que os afazeres femininos eram inferiores aos masculinos?

Por que morava numa cidade tão caipira?

Por que as luzes de algumas noites só eram percebidas através do visco?

Por que a faísca de um rojão acertou o olho de seu cachorro?

Por que nascia a raiva e a dor?

Porque nascia uma paixão que se confundia com ideias?

Por que nascia uma ideia que seria semente e rama?

Bailarina… veterinária… atriz… pintora… professora… missionária… médica… veterinária… atriz… artista…. escritora…artista… atriz…moça… menina ainda… mãe de dois e de outros tantos… filha um dia… irmã sempre… mulher de um… aquela que faz… aquela que ensina…aquela que sempre olha, pra dentro e pra fora… o olhar que percorre pelos dedos e a boca, que se mantém úmida.

Muitas que só navegam no lago adormecido da infância, e muitas que fincaram bandeiras.

Assim me apresento e daqui pra frente, crônicas de uma menina crescida, que ainda pergunta, mas já há um tempo, responde em arte…

Obras da artista plástica: Cristina Agostinho

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