Um Desabafo de quem conviveu com uma Adolescência Perversa

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Escola Raul Brasil - Correio do Estado

Um desabafo, porque morei na Zona Leste de São Paulo, perto de Suzano…

Convivi com a Adolescência Perversa quando morei em Itaquaquecetuba (Itaquá), ao lado de Suzano, cidade do massacre à Escola Pública e quero desabafar o que acontece, atualmente…

Sou Psicóloga Junguiana. Professora de Teatro. Meu sonho sempre foi fazer minha parcela de contribuição social, obtive isso, quando Psicóloga Social, fui trabalhar na Zona Leste de São Paulo, o que virou o meu Pior Pesadelo!

E eu, não sabia de nada, inocente queria fazer a diferença, quando iniciei meu trabalho na Clínica “Mais Saúde” de Itaquaquecetuba.

Atendi crianças, que falavam que não queriam “pais honestos” pois o vizinho: filho de traficante, tinham uma bola, e eles não!

Atendi homens que queriam deixar “de levar vantagem em tudo” o lema atual brasileiro ao conseguirem serem honestos – eram estelionatários – fazendo vários golpes, falsificando assinaturas, conseguindo laranjas para seus negócios escusos, e assim, no pessoal, como sintoma em hábitos de seus atos, não mais conseguiam falar a verdade, não eram mais honestos nem, a si mesmos.

Atendi mulheres que sofriam abusos diários: psicológicos quando não físicos, que justificavam sua submissão se acomodando: “é o jeitão dele mesmo, Doutora!”.

Crianças com PC (Paralisia Cerebral) que ao investigar, ocorria no único hospital da cidade, quando o médico, induzia o parto, ao invés, de fazer a cesárea indicada: “Mas Deus quis assim, Doutora!” Mas esse médico ajudou por negligência ou preguiça, né! Atendi muita maternidade precoce: meninas adolescentes grávidas, e até por abuso e violência sexual do Pai!

Foi um AC e DC. Um marco em minha vida de uma Antes Carla e outra Depois Carla, que não só caiu na real, como foi soterrada por ela!

Socorro, sem a fantasia do sonhar, por algo melhor no futuro, a realidade nua e crua, é o nosso pior pesadelo! Utilizo o plural, em meu desabafo, porque alerto a perversão que se cria em nossa sociedade atualmente…

Primeiro, a violência infantil inicia-se com a alimentação oferecida à criança na infância. Quando não recebe a quantidade de proteína necessária a formação da bainha de mielina dos neurônios.

E esse Ser é destinado a ter um raciocínio concreto e imediatista, feito uma criança mimada, durante toda sua vida. Seres limítrofes sem pensamento abstrato que o possibilite simbolizar…

Já pensou como nossa sociedade já pode estar assim? Uma sociedade limítrofe, que o pensamento concreto faz com que o Ser – todos nós somos humanos até que se prove o contrário! – seja guiado por impulsos primitivos: agressivo e sexual de satisfação imediata! Em termos psicanalíticos: Ser Perverso!

Já imaginaram como é o funcionamento dessa sociedade, atualmente?

Seres adolescentes mimados com necessidades agressivas e sexuais de satisfação imediata! Feitos animaizinhos soltos por aí, sem nenhum limite interior, portanto sem possibilidade de se estabelecer a convivência social!

É o que presenciei que na Zona Leste, acontece! Adolescentes Imediatistas, alto impulso de morte expresso em sexualidade exacerbada e agressividade tanto direcionada para os outros ou para si mesmo: a automutilação, para no concreto físico aliviar a dor emocional, num rastro em lâmina de apontador!

Para apontar o quê? A família, primeira pequena sociedade, que estabelece os limites para a convivência na grande sociedade, está sem identidade, sem demarcação própria, desconhece qual o papel social que cada um de nós exerce na família nuclear.

Assim, a Criança vivendo e sobrevivendo no formato de Grande Família – que não é o programa de TV que retrata uma família de papéis estabelecidos – mas, Sim, o formato num terreno abrigar gerações diferentes.

Assim, a Criança Pobre ou Pobre Criança, como preferir, vem à consulta…

Primeiro senta a Avó que tirou o papel de Mãe da sua filha, impedindo essa mulher de exercer o seu papel maternal, por se qualificar mais merecedora que a filha por aquela criança que na realidade, não é sua filha, e sim sua neta!

Assim, a mãe que a pariu, perde sua maternidade frente aquele sistema familiar doentio. E passa a ser a irmã mais velha de seu filho e como rebelde, quer disputar a atenção de sua mãe, comportamento de eterna adolescente bebendo e se drogando nas baladas da Vida.

Na cadeira reservada para o Pai senta o Tio. O Tio Pai, pois a irmã rebelde sem responsabilidades, joga a criança para o Tio, o seu irmão, ser o Pai. Aí a dinâmica fica um casal: Avó e Filho. E esse filho será destinado a ser pai de seus sobrinhos e não ter família própria por ser casado com essa mãe castradora!

Socorro, como uma criança pode introjetar uma dinâmica familiar dessas? Sendo que nem eu, com anos de estudo em família, consegui entender isso?

Aí a Criança cresce e é o Adolescente Perverso, que como não tem demarcação de sua identidade e papel externo como pode ter seus limites internos?

Assim, inocentemente, fui me oferecer como Professora de Teatro que sou, a fazer Arte Terapia com todos esses Jovens de Itaquaquecetuba que atendia na clínica psicológica, pois vi a necessidade dessa população de ter um espaço para sonhar com sua vida futura.

Qual foi minha surpresa da dificuldade ou incapacidade de sonhar de alguns de meus alunos, pois sem conseguir chegar ao pensamento simbólico, abstrato, atingia apenas o concreto.

Assim, no meu Plano de Aula, comecei a adequar a necessidade de cada um, levava cartas concretas que pudessem sugerir à criação imaginativa do Ser.

No Brasil, só se troca fechadura após o ladrão entrar…

Esse é o pensamento remediativo ocidental de apenas fazer os remendos com o que sobrou de algo. Percebendo, a necessidade de um trabalho contrário a esse pensamento, o preventivo oriental.

A esses adolescentes, que atendia de manhã na “Mais Saúde” e à tarde na Secretaria de Cultura, solicitei um horário na agenda da Secretária de Ação Social, para propor o meu projeto “Os Alquimistas do Agora” para prevenir conflitos de identidade nesses jovens.

Qual foi minha surpresa que ao invés de ouvir um SIM, da esposa do prefeito Ouvi, da Mulher que tinha a possibilidade de mudar a cultura local em suas mãos: “Por que prevenir se já temos esse problema, Doutora?”; Respondi: Espero que acordem, na Zona Leste de São Paulo enquanto ainda há tempo.

Ao saber, sobre o massacre à Escola Pública, senti de coração, se fosse em Itaquaquecetuba: conheceria cada um dos jovens que morreram, os que mataram e que se mataram…

Porque eu morei lá, na Zona Leste de São Paulo, perto de Suzano…

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