Saberes Caipiras e Saúde Mental: Reencontro com as Raízes do Bem
Entre silêncio, presença e pausa, o escritor, psicólogo e professor, pesquisa e resgata a simplicidade das raízes caipiras na alma urbana.
Com trajetória vivenciada entre prática clínica e carreira acadêmica, Dr. Julio Peres realizou suas pesquisas orientadas à saúde mental. Ao investigar os hábitos e atitudes do ser humano contemporâneo, realiza uma revisão acurada e traz em seu livro * a provocação para uma reflexão necessária e urgente.
“O convite é manso, porém inadiável: fomentar hábitos, ativar “mutirões” afetivos e florescer em bem-estar.” Assim, a entrevista que embasa este artigo começou. Percebi como uma frase de impacto pode ser dita de forma serena e inspiradora.
Com muita leveza, o autor expressa a urgência para superarmos o brain rot que se pode definir como um pensar apodrecido pela pressa, ansiedade e bagagem informacional rasa e superficial presente nos dias de hoje.
O escritor propõe substituir o brain rot pelo brain root caracterizado na obra como a mente presente com qualidade, enraizada nas experiências saudáveis ao estabelecer uma profunda reconexão interior do ser humano com suas raízes.
A pessoa super atarefada com risco de burnout, com uma frágil saúde mental que somente reage aos estímulos externos num ciclo automatizado que fomenta a ansiedade motivou a criação da proposta trazida aos leitores.
Ao analisar esse cenário, o autor alerta para a fragmentação da pessoa nos centros urbanos em múltiplas personas. “Não somos divisões, mas seres integrados e coerentes do ponto de vista do equilíbrio psíquico. Eu vivo e você deveria viver também com os eus unificados.”
No seu livro, encontramos uma análise bastante desafiadora da vida urbana, em que, segundo o autor, vive-se sob estímulos e pressões muito fortes e constantes. São as metas, os ruídos na informação e o excesso de notificações que fragmentam o pensamento e empobrecem a alma, gerando exaustão.
Dr. Julio aponta que a cultura ocidental substituiu a profundidade e a qualidade com esmero pela urgência da entrega. Isso, segundo ele, ocorre porque a produtividade “insana” e não saudável, se tornou critério de valor nas exigências que transbordam em todos os campos da vida sob pressão, além do profissional.
Para recuperar a profundidade perdida no tempo, o autor nos convida ao relacionamento direto com o processo de reaprender a sustentar o silêncio sem ansiedade e a presença sem distração.
Realmente, eu, como educadora, considero isso um imenso desafio se refletirmos sobre os hábitos atuais que nos afastam de nossa essência para cumprir tarefas que muitas vezes não significam algo de significativo em nossas vidas.
E é neste exato momento de nossa prosa que surge a lembrança do Candeeiro, escolhido como símbolo pelo escritor. Ele nos revela toda a singeleza da metáfora ao explicar ser o gesto ancestral de manter acesa a própria luz em meio à escuridão, mesmo nos tempos mais sombrios.
“Representa a luz da consciência e a valorização do calor das relações humanas. Traz a sabedoria presente nos gestos simples.” … “Revela a luz da mente desperta e a serenidade do coração tranquilo.”
Identifico a prosa poética nessas últimas frases e sinto grande admiração por sua sensibilidade. Esse é um aspecto presente em toda a obra do Dr. Julio com os “eus unificados” que defende como proposta e vivencia na pratica.
A escolha do candeeiro para simbolizar o resgate da vida do homem urbano é expressa deste modo: “o andar de mãos dadas com a tranquilidade, assim como a luz tênue (sem holofotes) que ilumina com suavidade o caminho sem tropeços”.
A partir de suas pesquisas o autor elabora uma premissa que produz efeitos junto ao leitor. “Na prática, isso se traduz em restaurar a capacidade de pausa, de silêncio e de presença. Para o indivíduo super atarefado significa voltar a sentir o próprio corpo, reconhecer limites, respirar conscientemente para “responder” com propósito.”
Dr. Julio destaca na entrevista que a cultura da pressa desumaniza o tempo e empobrece a experiência. Relatou ter constatado em seu consultório, graças ao processo entre psicólogo e cliente, inúmeros casos de individualismo e de isolamento.
Essa constatação, somada a pesquisas acadêmicas e a artigos indexados sobre o adoecimento mental nas metrópoles, foi a força motriz para ativar seu propósito de despertar junto aos leitores o exercício de práticas individuais e movimentos coletivos voltados à saúde mental.
Muitos sofrimentos modernos surgem da carência afetiva e da falta de pertencimento que se transforma em vazio e solidão. A partir dessa descoberta em suas pesquisas, escreve o livro que teve seu lançamento em outubro de 2025 com um evento que integrou música, audiovisual e literatura.
“Busquei unir a precisão científica ao calor da linguagem afetiva. Quis que o leitor sentisse que cada dado, cada conceito, também respirava humanidade. Escrever o livro, acompanhado pelo álbum de violas caipiras e o filme curta metragem, foi, portanto, um ato terapêutico no ponto de equilíbrio entre razão e coração.”

O interessante é como as pessoas se movimentam entre as opções da experiência de contato com a obra, conforme sua escolha. Algumas começam pelo vídeo, vão para o livro físico (ou e-book) e depois para o álbum. “Observa-se como a sinergia das três expressões artísticas age para sensibilizar estados de consciência e comportamentos saudáveis.” completa Dr. Julio.
E agora, os leitores deste artigo devem estar perguntando quais serão os comportamentos saudáveis e as formas de despertar os estados de consciência. Aqui encontram um spoiler através das palavras do autor:
“Recomendo o cultivo de pequenos rituais de presença: tomar café sem celular, andar devagar, escutar histórias de quem veio antes.” São atitudes que ele denomina de raízes do bem, cultivadas por gestos simples, com ternura e atenção.
“O reencontro e a transformação acontecem quando deixamos o relógio ansiogênico de lado e escutamos o compasso mais tranquilo e saudável do coração”
Além de práticas individuais para o cultivo e o cuidado com as raízes do bem, algumas ações e movimentos coletivos precisam ocorrer para que não aconteça o colapso da saúde mental em centros urbanos, segundo Dr. Júlio.
Uma ideia inovadora são os mutirões afetivos: coletivos de cuidado mútuo que podem ocorrer em condomínios, escolas, empresas, parques, onde pessoas se reúnem para cozinhar, plantar e se apoiar. São mutirões da escuta, da empatia e da solidariedade. Inspiram-se nos antigos mutirões da roça, quando o trabalho era partilhado e o cansaço era dissolvido em alegria e celebração.
O sentimento de alegria e celebração, eu, como designer de experiências de aprendizagem e mentora, em eventos no mundo digital, tenho programado momentos de presença, compartilhamento e solidariedade.
Comentando sobre o mundo digital, meu entrevistado traz uma crítica relevante sobre as redes sociais, considerando que a palavra “compartilhar” depreciou-se muito em relação ao verdadeiro significado. “Compartilhar não é apenas “postar”, envolve estar disponível emocionalmente.”
Prossegue, detalhando sua percepção:
“o bem-estar nasce do contato genuíno, mesmo que mediado por telas. É possível humanizar o digital quando se fala com presença, quando se envia uma mensagem com escuta verdadeira. As tecnologias são pontes muito bem-vindas.” Concordo plenamente com esse posicionamento como educadora e escritora.
Um alerta importante é trazido por nosso protagonista quando propõe “revisitar a qualidade da intenção ao atravessar as pontes.” Surge seu apelo para contrariar os algoritmos que incentivam assuntos negativos, polêmicos, sensacionalistas e notícias de impacto, muitas vezes, falsas, apenas para obtenção de mais visualizações.
Complementando a observação do Dr. Julio, tenho percebido em muitas pessoas, de diversas idades – usuárias de redes sociais – sentimentos de angústia e ansiedade quando suas mensagens não recebem memes de aprovação ou não são respondidas dentro do prazo desejado. Novamente, a máxima de nosso entrevistado ilustra bem: “A pressa gera ansiedade.”
Para saber como tratar e sanar o “fator de colapso da saúde mental da vida urbana” leia o livro do Dr. Julio que traz a esperança numa proposta de adaptação da vida urbana a uma nova lógica comunitária, ao resgatar o valor do “nós”.
Ele demonstra que, através de caminhos simples, com propósitos alinhados ao bem-estar de alguém na comunidade, pode-se alcançar o convívio do “nós” “mais facilmente, ao começar com os próximos mais próximos, entre parentes e vizinhos pois há sempre algo de bom a fazer.”
E com esta coerência entre o que diz e o que faz, encontramos em sua obra literária – terapêutica práticas leves e que trazem reflexão e diversidade ao serem realizadas.
O livro, em capítulos breves, oferece “momentos de prosa consigo mesmo” para quem folheia as páginas ao acaso. Ao acordar, encontrará um norte saudável para seu dia através da leitura de sínteses e propostas, como também assistindo ao vídeo ou ouvindo as violas caipiras que interpretam melodias criadas pelo próprio escritor.
Com muita sabedoria, o escritor afirma:
“o leitor moderno não precisa de pressa, mas de acessos breves e profundos.” E complementa: “as doses diárias de reflexão permitem digestão afetiva e criam pausas para respirar. Esse formato é, em si, um convite à desaceleração, uma pedagogia do tempo interior e, assim, o leitor já terá reencontrado suas raízes do bem.”
É o Candeeiro que traz o convite para desacelerar através do testemunho dos saberes caipiras.
“É o interior que ensina que o bem-estar nasce do vínculo, do olhar demorado, acolhedor, e do cuidado partilhado. O saber caipira carrega um patrimônio de práticas relacionais e emocionais que se perderam nas metrópoles.”

E a conclusão de nosso entrevistado é essencial para o resgate do convívio e compartilhamento urgente nas cidades:
“Esses saberes caipiras protegem a saúde mental porque estruturam pertencimento e sentido para existência, considerados dois pilares fundamentais do bem-estar, que escasseiam entre os adoecimentos urbanos… Além da atitude individual no dia a dia, as ações globais de políticas públicas precisam acontecer para impedirmos juntos o colapso da saúde mental em centros urbanos.”
Cabe lembrar que o colapso da saúde mental é causado pelos fatores, abordados no livro: a pressa que gera ansiedade, a fragmentação que produz a exaustão e a falta de pertencimento que se torna vazio e solidão.
Deixamos o convite para que todos assistam ao filme e escutem as violas caipiras, quando iniciarem a leitura de “Saberes Caipiras e Saúde Mental: Reencontro com as Raízes do Bem” como uma valiosa experiência de aprendizagem.
O candeeiro é luz serena que resgata o vínculo com os saberes caipiras trazendo o bem da presença e do pertencimento!
- PERES, Julio. Saberes caipiras e saúde mental: reencontro com as raízes do bem. São Paulo: Projeto Saberes Caipiras, 2025.
saberescaipiras.com.br - Breve Curriculum Vitae Dr Julio Peres
Entre em contato para mais informações pelo Instagram: @cor.inaramos
Clique aqui e acesse, curta e compartilhe minhas outras matérias