Conto: Saudade… Por Vezes, Uma Dor Implacável

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Saudade

Uma mulher, um homem e o país de gelo

Ela estava lá…
Na beira da praia…
No silêncio da noite, sozinha…

Estava escuro, noite sem lua, só o barulho do mar e as ondas que quebravam sob seus pés desnudos, gelados, mas ela não tremia, estava determinada.

Aguardava a onda que vinha de longe, ela sabia, era uma onda diferente, a que iria leva-la para o fundo do mar, para o esquecimento, para sempre…

Ela queria acabar com tudo que a machucava, tudo aquilo que viveu profundamente, eternamente ele prometia a ela. Mas, acabou.

Como tudo que um dia acaba, o próprio dia acaba para dar lugar à noite. E isso é soberano.

Porque não acabaria, esse relacionamento tão corriqueiro no entender dele, que em nenhum momento pensou que pudesse ser a razão da vida dela?

Egoisticamente, após uma palavra somente, ele se retirou da vida dela, como se estivesse saindo de um shopping após satisfazer o ego das compras. Ou mesmo, como se após satisfeito a sua fome, se retirasse de um restaurante qualquer.

Ela sabia, sentia, no meio de tantas promessas, que um dia ele se cansaria.

Porque, não existe aquele ditado: “Esmola demais o santo desconfia”?

Pois é….

Esse dia chegou, arrasando-a, devastando todo o seu ser.

Não deixou nada que a segurasse dessa intenção malograda.

Ela estava lá, firme e determinada, aguardando pela onda amiga, que a levaria ao esquecimento. Que tiraria dela, esse sofrimento sem fim.

Enquanto esperava pelo seu destino, ela recordava entre as lágrimas, todos os dias vividos e sentidos, desde o primeiro momento, um olá iniciou e desencadeou dentro dela um sentimento tão grande, tão avassalador, e ela viveu cada minuto como se fosse o último, profundamente…

Cada segundo lembrado, era eterno…

O coração doía, queimava no peito, não queria chorar, mas as lágrimas traiçoeiras caiam pelo rosto, salgando todo o seu ser.

O sorriso maroto, um olhar traquina, um toque de mãos imaginárias fazia-a se arrepiar só de lembrar, voltando a sentir o queimar na pele, onde outrora ele acariciara…

E as promessas?

Que tudo seria diferente, que não temesse o futuro, que estaria para sempre juntos?

Onde foi parar todas essas promessas, que a fizeram flutuar a alma?

Lembrando entre as lágrimas, exatamente, como se fosse hoje, que não queria…

Não podia se deixar influenciar pelas palavras doces e meigas, isso tudo poderia ser uma simples armadilha. Tentava fincar os pés no chão firmemente, mas aos poucos seus pés enfraqueciam.

Como se estivesse sobre a areia movediça. Faziam-na tremer na base, só pelo toque, pelo sussurrar nos ouvidos.

Aquela voz macia, feito veludo, que a fazia sorrir espontaneamente, e cantar a música conforme o ritmo de seu coração, que se alegrava, que a fazia sonhar.

Era uma emboscada, onde o lobo vestido de cordeiro a arrastava com tanto mel, para aprisionar sua alma na dele, para nunca mais poder sair.

Mas, avivando o seu eu jovem de outrora, ela se deixou levar pelo som da voz gutural, macio e rouquenha, aquelas palavras pronunciadas em estrangeiro, linguagem forasteira, que ela amava, se apaixonava ao som daquela voz barítono, pronunciada suavemente, quase veludo, roçando os lábios no lóbulo da orelha, que a fazia arrepiar-se de prazer, trazendo nela o sentimento esquecido, foi se arrastando até deixar que ele atingisse seu coração.

Ao permitir esse intento, o coração dela se inflou de paixão, acordando tudo que dentro dela dormia, fazendo-a formigar a pele com força total.

Claro, era tudo ilusão conforme ele mostrou, ao derramar um balde de água gelada, acordando-a desse tamanho devaneio, trazendo-a para a realidade nua e crua que ela tanto conhecia.

Quando se viu no chão, chorando a perda daquele que tanto prometeu, e nada cumpriu, quando se lembrava que ela era a culpada, por deixar-se influenciar, ela era a culpada por não seguir a sua própria determinação, abrindo a guarda de seu ser, de seu coração…

O sofrimento dela era ainda maior, quando pensou que podia ser diferente.

Porque tinha que ser assim?

Naquele momento ela recordou de sua vida passada, lá atrás quando ainda jovem, passara por momentos assim, não tão profundo nem tão avassalador, porém com o sofrimento maior, pois naquela época, jovem inexperiente, também abandonada, será destino sofrer assim, continuadamente, no mesmo estilo?

No passado, recordou ela, pelo menos o sentimento era menos agressivo, ela era mais forte, conseguiu se superar, não sem esforço, porém, de cabeça erguida.

Desta vez, sozinha sem família nem amigos, sem ninguém para se aconselhar, desconfiada da própria sombra, se encontrou perdida, sem ação, sem saída…

Ali, sozinha, naquela noite que seria o seu fim, ela recordava, passo a passo, em câmera lenta, tudo que foi a sua vida malograda, sempre trabalhando, sem tempo para estudos, cursou até o ensino médio, fez curso de inglês por correspondência, para conseguir melhor colocação no emprego, para ganhar mais no final do mês, sem muita vaidade, foi levando a vida, após ser abandonada pelo então companheiro, que dando desculpas de não fazer gastos extras, não quis se casar, no entanto, convidando-a para morar juntos, dividindo as despesas com poucos recursos dela com seu suado salário.

Um belo dia, se viu abandonada com um simples bilhete deixado de qualquer jeito em cima da mesa da cozinha, debaixo da xicara de café tomado pela metade, nem ao menos teve o desplante de lavar o que sujou, indo embora de sua vida, deixando um vazio enorme.

Ela rescindiu contrato, saiu da casa alugada que não tinha coragem de continuar, pois trazia recordações que queria esquecer.

Mudou-se para a capital, logo conseguindo uma colocação numa empresa que precisava de um funcionário bilíngue, se sentindo sortuda e agradecida por ter se sacrificado para estudar o inglês.

Alugou um apartamento perto do trabalho e ali conheceu o homem que devagar, sorrateiro, devastou seu coração, antes gelado e quieto, trazendo-o fogoso e pulsante, ávido por paixão.

Bem que ela não queria, sua cabeça dizia “não” bem redondo, mas o coração traiçoeiro e já perdidamente apaixonado pela voz, aquela voz inesquecível até o momento presente, que ainda fazia doer muito o seu ser, por completo, querendo e querendo…

A onda batia leve, porém gelada acordando-a vez ou outra de seu devaneio.

Ela abria os olhos marejados e contemplava o mar, horizonte escuro, no fundo um prateado ofertado pela lua que despontava no alto.

Então ela percebeu o quando é linda a natureza, aquela noite que era para ser escura e solitária agora trazia a ela uma companheira, a lua soberanamente linda, clareava a noite, mostrando quão linda é a visão noturna, as ondas finas salpicadas pelo prateado da rainha noturna – era noite de lua cheia.

Por um momento, ela titubeou, querendo voltar para o quarto de hotel onde se hospedara.

Lá era quentinho por conta do aquecedor central.

Num ímpeto ela saíra para caminhar sobre a areia fina, pensar na vida, refletir tudo que acontecera aquela noite. Sem perceber que estava só de camisola, não percebeu a brisa fresca e nem o frio que fazia lá fora.

Agora, o vento estava cortante e o frio aumentara, as orelhas estavam estalando de dor pelo frio. Tinha medo de colocar a mão, porque poderia quebrar e cair. Ela riu de seu próprio pensamento, imaginou-se sem as suas orelhas.

Voltou a pensar, na sua atitude impensada, viajar tão longe, gastando toda a sua economia, para conhecer a terra natal daquele que devastou todo o seu ser, deixando a alma perdida, cabeça na lua, coração quebrado.

Ela então veio a essa terra natal de seu amor bandido, perdido para sempre, um país longínquo e frio, gelado em todos os sentidos.

As pessoas sisudas, carrancudas e sérias, não tinha sorriso franco nos rostos, ninguém sorria, parecia que trazia o inverno dentro de si.

Ela entendeu… O seu amor não podia ser ou agir diferente, ele pertencia àquela terra de gente indiferente, nesse momento ela sofreu mais um pouco. Sentiu a fina faca entrar silenciosa no seu coração.

Ninguém a conhecia lá, ela era estrangeira naquela terra distante e gelada, então arranhando um inglês por correspondência, envergonhada diante de tanta gente de nariz em pé, conseguiu chegar até aquele hotel à beira da praia, linda paisagem, porém esfriava até os ossos.

Bem, era um cenário perfeito para o intento, uma noite escura, sem luz. Agora nem tanto, num país desconhecido, solitária, sem falar a linguagem local, ninguém daria por falta dela.

Assim pensando, abriu os olhos para o mar, a água já estava chegando aos seus joelhos, e lá estava a onda esperada, no fundo, regada de prata, vinha forte, com um ronco ensurdecedor, arrastando tudo que via pela frente, direto em sua direção.

Por um momento ela se assustou, ia correr, mas era tarde demais, a onda, a maior daquele ano, jorrou em cima dela, com todo o peso, afogando-a e arrastando-a para o fundo do mar, como se ela pertencesse à profundidade misteriosa daquela imensidão gelada.

Enquanto era arrastada, impotente a qualquer sentido, ela ia pensando na sua vida como se estivesse vivendo tudo outra vez, desde o princípio, e como numa tela, ela assistia tudo que vivera na sua vida, outra vez, e mais outra vez, dando ênfase à parte mais dolorosa de sua vida, onde a mágoa sentida e a solidão abraçada fazia forte e dançava à sua frente, conforme a onda que a carregava para o fundo.

Queria gritar, queria retornar à praia, queria repassar os momentos, queria pedir a Deus que olhasse para as coisas boas que havia feito, queria que Deus considerasse tudo que fizera para amenizar as dores alheias, mas em vão, a voz dela não saia, os olhos estavam turvos, seus sentidos esquecidos, já não sentia mais nada, só via ininterruptamente, as cenas em redemoinho, sofrimento que havia vivido desde sempre.

Antes de adormecer para a eternidade, ela se recordou de ter gritado bem alto o nome dele, de seu grande e derradeiro amor. Aquele que sem ao menos a conhecer, prometeu vida eterna de amor e felicidade. E nunca viera cumprir sua promessa.

 

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