Propósitos e escolhas refletem vidas e inspiram coletivos femininos
A jornada na vida de uma mulher apresenta desafios que ao serem superados conduzem à potência de sua criatividade após 50 anos.
No balanço da criatividade de Não é Mi Mi MI, Idade é Fogo, e, Plenitude na Envelhescência, a partir de relatos, registros e reflexões das organizadoras, surge este artigo que traz a singularidade de cada um dos processos de criação das obras coletivas.
O despertar da escrita e a força das referências
As referências em nossas vidas trazem o que de mais significativo colhemos na jornada e podem ser sementes que florescem amanhã. A menina de onze anos, hoje organizadora de livro coletivo, fez sua primeira escrita ao lidar com o luto da perda de seu avô, registrando, na memória e em papel, a missa de sétimo dia.
Referências para as pessoas importam muito na construção de algo e podem despertar, a qualquer momento da vida, o desejo de expressar conhecimentos, habilidades e valores no fazer, geralmente, através da arte: literatura, pintura, música, entre outras. São pessoas ou situações que nos mobilizam a seguir adiante, em uma jornada coletiva.
Na solidão, admiração ou curiosidade, nossas referências surgem e permanecem. O que causou o primeiro texto de Maria Lorenci foi a solidão. Através de seu gesto de escrita, o avô continuaria a ser sua referência. No segundo caso, com Nivea, vamos conhecer a admiração construída, virtualmente, junto à escritora Cida Nunes.
A referência surgiu através de um vídeo em que a escritora narrava sua trajetória até o momento da primeira publicação. Isso incentivou Nivea a tornar-se também escritora e a convidá-la, mais tarde, para ser coautora do livro Não é MI MI MI, sob sua organização. As referências nos inspiram e podemos criar novos caminhos a partir delas.
No meu caso, foi a curiosidade que traçou o caminho a partir da família: filha, poeta publicando em obras coletivas; eu, com meu irmão e irmã, em troca de e-mails, criando um romance a três (nunca concluído), precioso pelo processo afetivo. Um aprendizado de escrita em que cada um, em cidades diferentes, palpitava e completava o capítulo do outro.
O interesse pela literatura surgiu, sutilmente, e, o desejo de escrever, além dos livros técnicos, me assumiu aos poucos. Em fase de pós-carreira, experimentei e me apaixonei por minicontos, poemas e haicais, junto à fotografia.
Ao colaborarmos em antologias, prosa ou poesia, pelos 50 anos ou após, nos percebemos escritoras de verdade. Foi o início de um processo que culminou com o desejo e a coragem de trazer outras mulheres para vivenciarem a arte da escrita junto a cada uma de nós, numa jornada coletiva.
O início de Nivea foi aos 48, em Linhas da Vida, junto à professora Ivonete Frasson. Ela revela: não consigo nem descrever a emoção de ver meu nome em um livro. Nascia ali, a escritora Nivea S. Lima.
Aos 58, Maria Lorenci teve o mesmo sentimento ao escrever, em 2016, no primeiro box da Coleção Marianas. E, eu, aos 72, na antologia O Pequeno Príncipe; um olhar poético, publicado pela Brecci Books Editora.
A união de vozes: denúncias, revelações, propostas
Maria Lorenci, fez os convites dentro do Coletivo Marianas, a partir de uma conversa, e, o grupo formou-se com 37 mulheres. O propósito pessoal da organizadora foi de lidar com o etarismo junto ao assédio moral, pois sofreu ambos antes de aposentar-se.
Em Idade é Fogo, ela traz o convite para quem está lendo: Ouse gerenciar a própria existência, use o poder que foi roubado de ti quando começou tua chamada “idade adulta” e que te é devolvido na velhice (não por bem ou pelo teu claro merecimento, mas porque o “Sistema” entende que alguém que é velho não é mais capaz de se gerir sem ajuda, e larga o controle…. Aí é que você entra…..!!!) (Idade é fogo. Curitiba, Donizela, 2024, p.61)
E é aqui que Nivea entra declarando a potência da mulher: A mulher tem uma habilidade única de se reinventar em qualquer situação, além da capacidade de buscar inspiração em cada acontecimento. Em tudo, ela enxerga novas possibilidades.! (Não é MI, MI, MI a incrível arte de ser mulher. São Paulo, Ed dos Autores, 2025, p. 3)
A nova possibilidade ocorre em Monte Alegre, Minas Gerais, em 2023, entre pãozinho de queijo e doce de leite, quando amigas virtuais, após encontros a distância no projeto Linhas da Vida, se conhecem e ideias surgem, aos montes, na mente de Nivea resultando em convite para uma escrita em jornada coletiva.
Eis o propósito da futura organizadora cujo livro foi publicado dois anos depois como coautora: deixar no mundo uma comprovação do valor da amizade e do poder da escrita na vida das pessoas, principalmente das mulheres. Afinal, nós tranformamos sentimentos em palavras e geramos transformação através do que escrevemos. (apresentação do livro, p.3 )
A vontade de gerar transformação no mundo mobiliza as três experiências literárias entre mulheres em jornada coletiva. A frente de batalha após os 50 anos, segundo Maria Lorenci, foi o que animou a criação do livro. Por sua vez, Nivea, vivenciava sua batalha após cirurgia de mama. Superou obstáculos, viajou para Monte Alegre e também para dentro de si. Mais 5 autoras realizaram a dupla viagem com ela.
O desejo de gerenciar a própria existência em um sistema que tenta silenciar a mulher madura após 50 anos, e, histórias de vida que revelam mazelas e dores muitas vezes não acolhidas, estão presentes nestas jornadas coletivas:
Idade é Fogo nasce em tom rebelde e irreverente, através de prosa e poesia, e denuncia a exclusão causada pelo etarismo juntamente com o desafio ao sistema que oprime, controla e isola pelo preconceito de idade.
Não é MI, MI, MI a incrível arte de ser mulher encontra sua origem na amizade e no encontro presencial, celebrando a capacidade coletiva de se revelar, reinventar-se e enxergar novas possibilidades em cada acontecimento. O propósito aqui é comprovar o valor da solidariedade feminina e o poder da escrita como ferramenta de cura e afirmação.
Plenitude na Envelhescência: Realidade Possível surge da necessidade de ressignificar a produtividade como criatividade, após a aposentadoria, revisitando e valorizando as trajetórias de vida, a partir de método para autodescoberta, criado em 2016 por sua organizadora que escreve no artigo:
Em 2024, após ter aperfeiçoado o método, convidei mulheres de várias áreas em grupos de whatsapp dos quais participava. 11 aceitaram a experimentação do método aplicado à criação do e-book orientado ao público sênior, o qual foi finalista do Jabuti 2025 e recentemnte publicado pelo Grupo Fazio Editorial, de propriedade de uma das autoras.
Estamos em segunda experimentação de metodologia e literatura,numa nova jornada coletiva com a produção da Coletânea: “Asas do Tempo: a Envelhescência Refletida”, em parceria com Voz no Papel Editorial, em fase de redação e revisão dos capítulos no Coletivo denominado Pleno, que integra 21 escritoras, sendo 11 autoras de Plenitude na Envelhescência.
O fazer literário: procedimentos e desafios
A organizadora de Idade é fogo menciona que os desafios para a organização da obra foram sentidos ao agrupar as pessoas, acolher as inseguras, decidir as ilustrações e as atividades para o lançamento e distribuição do livro. Maria Lorenci conclui que o processo foi desafiador mas também tranquilo, ressaltando que os trinta anos de mundo corporativo a ensinaram a lidar com pequenos imprevistos.
Relata que foi criada uma planilha acoplada a um formulário no Google Drive nos quais os textos eram enviados por email e ficavam em pasta, com acesso a todas as escritoras. Trabalho que foi acompanhado pela Editora Donizela que interagiu com a gráfica até a produção final do livro. Convidamos, dentro do Coletivo Marianas, pessoas para fazer prefácio, orelha, posfácios, ilustrar, etc..
O processo de desenvolvimento do trabalho de criação do e-book Plenitude na Envelhescência realizou-se através de encontros frequentes pela plataforma Zoom para troca de ideias sobre o tema e para exposição de cada autora quanto ao assunto de seu capítulo e como seria sua interação com a personagem Dulce, presente nos contos da autora Heloisa Kishi.
Os capítulos tratam de assuntos diversos e apresentam interações com a personagem em situações e ambientes variados tais como encontro em jardim, envio de carta, reuniões, atendimentos em consultórios, viagem, curso, orientações práticas, criação de empresa e rede feminina.
Foi criado no WhatsApp um grupo de interessadas na aquisição do ebook com o nome de “Encontro com Dulce” para divulgação dos temas do livro e lançamento virtual
Nivea descreve como sente o fazer literário da obra: Primeiro, a amizade virtual, depois o encontro, as conversas, as descobertas, a troca de experiências e o nosso grupo estava formado. E, agora, eternizado pelo nosso livro. Confesso que não pensei em metodologias, Eu queria algo que fosse literário, porém empático, acolhedor e significativo como nosso encontro. Essa obra tem personalidade e a principal estratégia foi a força que cada uma de nós carrega em sua trajetória de vida.
A estética da maturidade e o legado para o futuro
A decisão das três organizadoras, autoras também, é de escrita de não ficção. Desejamos trazer aos leitores e leitoras a realidade de nossas vivências, numa jornada coletiva, demonstrando que os desafios não são para desanimar e desistir, e sim para superá-los e seguir adiante.
Plenitude na Envelhescência foi estruturado em dois volumes que, na versão em papel, foram unificados mantendo as trilhas do método das Chaves. Parte-se, oferecendo à leitora e ao leitor, através da interação com a personagem, um convite para Sentir, conectando-se nos assuntos desenvolvidos entre natureza e cultura.
Na trilha do Renascer, Dulce trabalha essência e existência ao descobrir caminhos ancestrais a explorar. Na Ativação, terceira trilha, surge o voluntariado e o empreendedorismo e na Afirmação trata-se da clareza mental, dos direitos e das redes femininas para criação de uma jornada coletiva.

Idade é Fogo tem os capítulos ordenados pelo ano de nascimento das autoras, um critério polêmico aplicado no combate ao etarismo para provar a potência criativa “apesar da idade”, segundo sua organizadora. Curioso é que uma das convidadas desistiu de colaborar quando soube que haveria a exposição das idades.
A capa, pintada à mão por uma autora acima de 70 anos e finalizada por outra de menos de 50, que não escreveu no livro, simboliza a colaboração entre gerações. Ter algumas gerações trabalhando em harmonia para uma capa que (vamos combinar) é espetacular. Sem dúvida, Maria Lorenci, é uma capa supimpa!

Não é MI, MI, MI tem uma capa linda em aquarela abstrata e o livro apresenta os capítulos pelos nomes das autoras em ordem alfabética, inlcuindo páginas em branco para que o leitor registre suas próprias memórias da leitura. Isso fortalece o que é dito no belo prefácio de MP Cândido de que a obra é uma “autobiografia coletiva”.
Vivemos uma jornada em espiral na qual a mulher se posiciona, relaciona-se, constrói amizades, e, acolhendo convites, amplia seus horizontes.em conjunto com outras mulheres de forma criativa e potente em jornada coletiva.
Cândida Carpena, coautora do livro Não é MI MI MI, traz sua apreciação pessoal: construção coletiva literária (e de outras artes) ao meu ver, gera novas habilidades, ultrapassa barreiras ( pessoais inclusive), solta antigas certezas e modos de sentir/ver a vida. Gostei muito e faria parte de outros projetos semelhantes. Ao escrever sobre mulheres, no grupo feminino… surgiu a sensação de estar contando sobre uma questão pessoal, íntima em ambiente conhecido, confiável, seguro.

Marilda Corbellini, de Plenitude na Envelhescência reflete nesta direção: Minha escrita no coletivo reafirma o valor de continuar aprendendo e contribuindo. Por isso, essa publicação constitui uma ferramenta de experiências de diverss histórias pessoais e diálogos que oferece maior visibilidade ao potencial criativo e produtivo das pessoas 50+ valorizando a longevidade ao se reinventarem como protagonistas. Escrever minha tese de doutorado foi uma experiência profundamente significativa, mas nada se compara a escrever um capítulo de empreendedorismo sênior ao lado de outras onze escritoras.
Susan Blum de Idade é Fogo afirma seu prazer e sua forma de trabalhar como escritora: Ao contrário de algumas pessoas que dizem que escrever dói, por vezes sinto um imenso prazer. Sou observadora e vou captando ideias que jogo no papel, ou note, ou zap… Começo a observar possibilidades no trabalho de colocar “carnes”, “músculos”, “ossos”… deixar descansando na sombra por um tempo… Em algum dia tempestuoso de ideias, pegar de novo aquele corpo e jogar raios de criatividade, cortar pedaços indesejados, moldar novas formas e só quando sentir satisfação mínima parar. Pronto. O conto respira sozinho, nasceu, está pronto para o mundo. Não é mais meu.
Assumimos o revelar da realidade, crua e nua, amarga e agridoce, e, sempre plena de esperança . A espiral de criatividade precisa expandir-se em mais coletivos. Envelhecer é processo natural a ser respeitado pela cultura sem provocar isolamento e a ser tratado com solidariedade entre as gerações.
Tomara que a literatura possa contribuir para alcançar esse propósito, cultivando novas ideias para despertar amor com longevidade.
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